Capítulo 4

1168 Words
Clara saiu da biblioteca com a cabeça cheia de pensamentos. O sol já começava a descer lentamente no céu, pintando o campus com tons dourados e suaves. As árvores projetavam sombras longas sobre os caminhos de pedra, e alguns estudantes caminhavam em pequenos grupos, conversando ou rindo depois das aulas. Mas Clara m*l percebia o movimento ao seu redor. Sua mente estava completamente ocupada com a conversa que acabara de ter no arquivo histórico. Henrique Vasconcelos Duarte. Agora ela sabia o nome completo. Sabia que ele havia amado Sofia. Sabia que aquela carta tinha sido escrita para alguém que talvez nunca soubesse de sua existência. E ainda assim… Clara sentia que havia mais naquela história. Ela caminhava devagar pelo campus, segurando o caderno contra o peito. O vento da tarde era fresco, trazendo o cheiro das árvores e da terra molhada pela chuva do dia anterior. Sem perceber, seus passos a levaram para uma pequena rua logo após os portões da universidade. Ali havia alguns cafés antigos que os estudantes costumavam frequentar. Clara parou por um momento. De repente percebeu que não tinha comido nada desde o almoço. Seu estômago concordou com um leve protesto. Ela sorriu sozinha. — Acho que mereço um café. Escolheu um pequeno lugar no canto da rua. O letreiro de madeira dizia: Café Horizonte. Clara nunca tinha entrado ali antes. Empurrou a porta de vidro. Um pequeno sino tocou suavemente. O ambiente era aconchegante. Mesas de madeira clara. Prateleiras com livros antigos. Uma luz quente que tornava tudo confortável e tranquilo. Era o tipo de lugar onde alguém poderia passar horas lendo. Clara gostou imediatamente. Havia poucas pessoas no café naquele momento. Um casal conversava perto da janela. Um estudante digitava concentrado no laptop. E em uma mesa no canto, perto de uma estante cheia de livros usados, estava um homem sozinho. Clara notou aquilo apenas por um segundo antes de caminhar até o balcão. — Boa tarde — disse a atendente com um sorriso. — Boa tarde. Clara olhou o pequeno menu. — Um cappuccino, por favor. — Claro. Enquanto esperava, Clara tirou o caderno da bolsa. A carta ainda estava ali. Ela a abriu novamente. Já tinha lido aquelas palavras muitas vezes naquele dia. Mesmo assim, não conseguia parar. "Talvez você nunca leia esta carta." Clara passou o dedo pela assinatura. Henrique. Ela suspirou suavemente. — Aqui está. Clara levantou os olhos. A atendente colocou o cappuccino no balcão. — Obrigada. Ela pegou a xícara e procurou uma mesa. A maioria estava ocupada. Exceto por uma pequena mesa perto da estante de livros. A mesma estante onde estava sentado o homem que ela tinha notado antes. Clara hesitou por um momento. Mas havia duas cadeiras. Então caminhou até lá. — Posso sentar aqui? — perguntou educadamente. O homem levantou os olhos do livro que estava lendo. Seus olhos eram castanhos, calmos e atentos. Ele sorriu levemente. — Claro. Clara sentou-se. Colocou o cappuccino na mesa e abriu o caderno novamente. O silêncio entre os dois não era desconfortável. Na verdade, parecia natural. Clara pegou a xícara e tomou um pequeno gole. Então, sem perceber, deixou a carta escorregar um pouco para fora do caderno. O homem ao seu lado lançou um olhar casual para o papel. Apenas um olhar rápido. Mas algo naquele momento pareceu chamar sua atenção. Ele franziu levemente a testa. Clara percebeu o movimento. — Desculpa — disse ela rapidamente, recolhendo a carta. — Não tem problema — respondeu ele. Sua voz era calma. Clara sorriu. — Eu sempre faço bagunça com papéis. O homem fechou o livro que estava lendo. — Parece uma carta antiga. Clara olhou para o envelope. — É. Ele inclinou a cabeça com curiosidade. — Encontrou em algum lugar especial? Clara pensou por um momento. Não sabia exatamente por que, mas sentiu vontade de contar. — Na biblioteca da universidade. O homem levantou uma sobrancelha. — Sério? Clara assentiu. — Estava escondida dentro de um livro. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Então perguntou: — E você abriu? Clara riu baixinho. — Sim. Ele sorriu também. — Eu teria feito o mesmo. Clara apoiou os cotovelos na mesa. — É uma carta de… amor. O homem ficou quieto por um momento. — Amor? Clara assentiu. — De alguém chamado Henrique. Ela apontou para o envelope. — Para uma mulher chamada Sofia. O homem não respondeu imediatamente. Seus olhos passaram novamente pelo papel. Mas desta vez ele não falou nada. Clara continuou: — Pelo que descobri, eles estudaram na universidade há muitos anos. Ela suspirou. — Mas a carta nunca foi entregue. O homem observava atentamente enquanto ela falava. — E agora você quer descobrir o que aconteceu? Clara riu. — Algo assim. Ele apoiou o queixo na mão. — Parece uma boa história. Clara inclinou a cabeça. — Também achei. Ela tomou outro gole de cappuccino. — Às vezes fico pensando… quantas histórias assim existem por aí. O homem sorriu levemente. — Muitas. Clara olhou para o livro que ele estava lendo. — Você gosta de ler? Ele levantou o livro. — Muito. Clara olhou o título. Era um romance clássico. — Esse é bom. Ele pareceu surpreso. — Você já leu? Clara assentiu. — Duas vezes. Ele riu suavemente. — Então provavelmente conhece melhor que eu. O silêncio confortável voltou por alguns segundos. Então o homem perguntou: — E o que você pretende fazer com a carta? Clara olhou novamente para o envelope. — Ainda não sei. Ela pensou por um momento. — Talvez tentar encontrar essa Sofia. Ele inclinou levemente a cabeça. — Depois de tantos anos? — Eu sei que parece estranho. — Não parece. Clara olhou para ele, surpresa. — Não? Ele balançou a cabeça. — Às vezes algumas histórias merecem um final. Clara sentiu algo estranho ao ouvir aquelas palavras. Como se elas carregassem mais significado do que pareciam. Ela sorriu. — Concordo. O homem pegou novamente o livro. Mas antes de abrir, disse: — Espero que você encontre. Clara inclinou a cabeça. — Encontre o quê? Ele respondeu simplesmente: — O final da história. Clara sorriu. — Eu também. Alguns minutos depois, o homem terminou o café e levantou-se. — Foi um prazer dividir a mesa. Clara sorriu. — Igualmente. Ele pegou o livro. — Boa sorte com a carta. — Obrigada. Ele caminhou até a porta. Mas antes de sair, olhou uma última vez para Clara. Depois saiu do café. Clara voltou a olhar para a carta. Sem perceber, um pequeno detalhe havia passado despercebido. Na mesa onde o homem estava sentado, ele havia esquecido algo. Um pequeno caderno. Clara percebeu quando se levantou para sair. Ela pegou o caderno. Na capa havia apenas um nome escrito com a mesma caligrafia elegante que estava na carta. Henrique. Clara sentiu o coração parar por um segundo. Ela olhou rapidamente para a porta do café. Mas o homem já tinha desaparecido na rua. E Clara ainda não sabia… Que acabara de conhecer exatamente a pessoa que procurava.
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