Capítulo 1

1737 Words
O cheiro de livros antigos sempre teve um efeito estranho em Clara Mendes Albuquerque. Não era apenas o aroma do papel envelhecido ou da tinta desbotada — era algo mais profundo, quase como se cada livro guardasse uma pequena parte da alma de quem o escreveu ou de quem o leu. Naquela tarde de quinta-feira, a biblioteca da universidade estava particularmente silenciosa. A chuva caía lá fora com uma persistência suave, criando um som ritmado nas janelas altas do prédio antigo. Clara gostava daquele som. Tornava tudo mais tranquilo, como se o mundo lá fora tivesse desacelerado. Ela caminhava entre as estantes com um livro apertado contra o peito. — Literatura do século XIX… — murmurou para si mesma. Era um dos livros recomendados pelo professor para o trabalho final do semestre. Mas, para Clara, aquilo nunca era apenas uma obrigação acadêmica. Ler era seu refúgio. Desde pequena. Desde os dias em que passava tardes inteiras na pequena biblioteca da escola, escondendo-se entre estantes enquanto imaginava histórias muito maiores do que sua própria vida. Ela encontrou a seção que procurava e deslizou os dedos pelas lombadas. Algumas estavam gastas. Outras quase intactas. Seus olhos pararam em um livro de capa azul escura. — Este serve… Ela puxou o livro com cuidado. Mas algo caiu no chão. Um pequeno pedaço de papel dobrado. Clara franziu a testa. — Hm? Abaixou-se e pegou o papel. Era uma carta. Não parecia recente. O papel tinha um tom amarelado e as bordas estavam ligeiramente desgastadas, como se tivesse passado anos escondida ali. Seu coração bateu um pouco mais rápido. Clara olhou ao redor da biblioteca. Ninguém parecia prestar atenção nela. Alguns estudantes estavam concentrados em laptops, outros mergulhados em pilhas de livros. Ela voltou a olhar para a carta. Havia um nome na frente. Escrito com uma caligrafia elegante. "Para Sofia Almeida." Clara piscou algumas vezes. — Estranho… Virou o envelope nas mãos. Não havia selo. Nem data. Nada. Era como se alguém tivesse simplesmente deixado aquela carta ali… e esquecido. Ou perdido. Uma curiosidade inquieta começou a crescer dentro dela. Clara não costumava invadir a privacidade dos outros. Mas havia algo naquela carta que parecia diferente. Ela deslizou o dedo pela dobra do envelope. Hesitou. — Não deveria… Mas também pensou: E se a pessoa nunca tivesse recebido? E se fosse importante? A biblioteca estava silenciosa demais para um momento como aquele. Clara respirou fundo. Então abriu a carta. O papel dentro estava igualmente envelhecido. A escrita era a mesma da frente do envelope. Ela começou a ler. "Sofia, Talvez você nunca leia esta carta. Talvez ela se perca em algum lugar entre livros esquecidos ou gavetas antigas. Mas ainda assim eu precisava escrever. Porque algumas coisas precisam existir, mesmo que ninguém as veja. Eu queria ter tido coragem de dizer tudo isso olhando nos seus olhos… mas não tive. Então deixo essas palavras aqui. Caso um dia encontrem você. — Henrique." Clara parou de ler. Seu coração estava batendo mais rápido agora. Henrique. Ela olhou novamente para o envelope. Não havia sobrenome. Nem endereço. Nada que ajudasse. — Isso é estranho… — murmurou. Mas também era… bonito. Triste, de uma forma silenciosa. Uma carta de sentimentos nunca entregues. Clara fechou o papel com cuidado. Por algum motivo, a ideia de simplesmente devolvê-lo ao livro parecia errada. Muito errada. Ela colocou a carta dentro do caderno que carregava. — Talvez eu consiga descobrir quem são essas pessoas… Sua voz saiu quase como um sussurro. Não sabia exatamente por quê. Talvez fosse curiosidade. Talvez fosse empatia. Ou talvez porque, no fundo, Clara acreditava em histórias. E aquela carta parecia o começo de uma. Lá fora, a chuva continuava caindo. E Clara ainda não fazia ideia de que aquela pequena decisão — guardar uma carta esquecida — estava prestes a mudar completamente o rumo da sua vida. Lá fora, a chuva continuava caindo. E Clara ainda não fazia ideia de que aquela pequena decisão — guardar uma carta esquecida — estava prestes a mudar completamente o rumo da sua vida. Ela ficou parada por alguns segundos no mesmo lugar da estante, segurando o livro azul e pensando naquelas poucas linhas que tinha acabado de ler. Não era uma carta comum. Havia algo nas palavras que parecia… sincero demais. Como se cada frase tivesse sido escrita com cuidado, como se o remetente tivesse pensado muito antes de colocar aquelas palavras no papel. Clara voltou a abrir discretamente o envelope. Seus olhos percorreram novamente a assinatura. "Henrique." Somente isso. Nenhum sobrenome. Nenhuma data. Nada que ajudasse a identificar quem era aquela pessoa. — Quem escreve uma carta assim… e não coloca nem a data? — murmurou para si mesma. Talvez fosse antiga. Talvez muito antiga. O papel parecia frágil, quase quebradiço nas bordas. Ela passou os dedos com cuidado sobre a superfície. Era estranho pensar que alguém, em algum momento do passado, havia segurado aquele mesmo papel com sentimentos provavelmente muito fortes. E agora ele estava ali. Entre as mãos de uma completa desconhecida. Clara fechou novamente a carta e a colocou dentro do caderno. Em seguida pegou o livro azul e caminhou até uma das mesas próximas à janela. Sentou-se. A chuva escorria pelo vidro em pequenas trilhas transparentes. A biblioteca estava mais vazia do que o normal naquele horário. Talvez por causa do clima. Clara abriu o livro que havia pegado. Mas não conseguiu ler nem uma linha. Sua mente voltava repetidamente para a carta. Para aquelas palavras. "Talvez você nunca leia esta carta." — Bom… você estava certo — murmurou ela, com um pequeno sorriso. A pessoa que deveria receber a carta provavelmente nunca a tinha visto. Mas Clara tinha visto. E agora sentia uma estranha responsabilidade. Ela apoiou o queixo na mão, pensativa. Quem seria Sofia Almeida? O nome parecia comum. Poderia ser qualquer pessoa. Qualquer estudante. Qualquer mulher. Qualquer pessoa da cidade. Talvez até alguém que já nem estivesse ali há muitos anos. Clara suspirou. — Isso vai ser impossível de descobrir… Mesmo assim, havia algo dentro dela que não queria desistir tão rápido. Ela pegou novamente a carta e leu mais uma vez, com ainda mais atenção. Agora reparando em detalhes. A forma como as letras eram escritas. A inclinação da caligrafia. A tinta, ligeiramente desbotada. Aquilo definitivamente não parecia recente. Talvez tivesse anos. Talvez décadas. A ideia fez Clara sentir um pequeno arrepio. Quantos anos aquela carta tinha ficado escondida naquele livro? Cinco? Dez? Vinte? Ela levantou os olhos e olhou novamente para a estante de onde havia tirado o livro. De repente, uma ideia surgiu. Clara levantou-se. Pegou o livro azul e caminhou até o balcão da biblioteca. Atrás dele estava Rafael Campos, o assistente da biblioteca. Ele estava organizando alguns papéis quando Clara se aproximou. — Oi, Rafael. Ele levantou os olhos e sorriu de forma educada. — Oi, Clara. Mais um trabalho impossível da faculdade? — Sempre — respondeu ela com um pequeno riso. Rafael era um dos poucos funcionários jovens da biblioteca. Tinha um jeito tranquilo e falava sempre em tom baixo, como se respeitasse profundamente o silêncio do lugar. Clara colocou o livro sobre o balcão. — Posso fazer uma pergunta meio… estranha? Rafael ergueu uma sobrancelha. — Estranha? — Muito. Ele cruzou os braços, curioso. — Agora fiquei interessado. Clara pensou por um momento. Não tinha certeza se deveria mostrar a carta. Mas também precisava de alguma informação. — Você sabe há quanto tempo esse livro está aqui? Rafael pegou o livro e olhou a capa. — Esse? Virou algumas páginas e verificou o código da biblioteca. — Hm… Digitou algo no computador ao lado. Alguns segundos depois, respondeu: — Bastante tempo. — Quanto é "bastante"? Rafael voltou a olhar para a tela. — Deixa eu ver… Seus olhos percorreram algumas linhas. Então ele soltou um pequeno assobio. — Uau. Clara inclinou-se um pouco para frente. — O quê? Rafael virou a tela ligeiramente para ela. — Esse livro entrou para o acervo da biblioteca em… 2008. Clara piscou. — 2008? — Isso mesmo. Ela fez rapidamente as contas na cabeça. — Então ele está aqui há… mais de quinze anos? — Pelo menos. Clara sentiu o coração acelerar novamente. Quinze anos. Aquilo significava que a carta poderia estar ali há todo esse tempo. Escondida. Esquecida. Esperando. Rafael percebeu a expressão pensativa dela. — Por quê? Clara hesitou. Então decidiu mostrar. Ela tirou o envelope de dentro do caderno e colocou sobre o balcão. Rafael inclinou-se imediatamente para observar. — O que é isso? — Encontrei dentro do livro. Ele pegou o envelope com cuidado. — Uma carta? Clara assentiu. Rafael virou o envelope. Leu o nome. — Sofia Almeida. Depois olhou para Clara. — Você abriu? Ela fez uma pequena careta. — Eu sei… não devia. Rafael deu um meio sorriso. — Eu teria feito o mesmo. Clara relaxou um pouco. — Acha que alguém da universidade pode ser essa Sofia? Rafael pensou por alguns segundos. — Difícil dizer. Ele devolveu a carta. — Almeida é um sobrenome muito comum. Clara suspirou. — Pois é… Rafael apoiou o cotovelo no balcão. — Mas posso tentar ver nos registros antigos de alunos. Clara arregalou os olhos. — Sério? — Talvez exista alguma Sofia Almeida que estudou aqui por volta de 2008 ou antes. Clara sentiu uma pequena onda de esperança. — Você faria isso? Rafael deu de ombros. — Não tenho muito movimento hoje mesmo. Clara sorriu. — Obrigada. Ele começou a digitar novamente no computador. Enquanto isso, Clara ficou ali, observando a chuva pela grande janela da biblioteca. Seu coração estava estranhamente acelerado. Tudo aquilo tinha começado com algo tão simples. Um livro. Uma carta. Mas agora parecia o início de um pequeno mistério. E Clara sempre teve dificuldade em ignorar mistérios. Alguns segundos depois, Rafael falou novamente. — Interessante… Clara voltou-se imediatamente para ele. — Encontrou algo? Rafael estreitou os olhos para a tela. — Talvez. — Talvez? Ele virou-se para ela. — Existe uma Sofia Almeida registrada aqui. Clara prendeu a respiração. — E? Rafael continuou: — Ela estudou nesta universidade. Clara sentiu um frio na barriga. — Quando? Rafael leu mais uma linha. — Há cerca de… dezesseis anos. Clara olhou lentamente para a carta em suas mãos. Dezesseis anos. Aquilo não podia ser coincidência. Algo naquela história estava apenas começando a se revelar. E, sem perceber, Clara já tinha dado o primeiro passo para dentro dela.
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