Capítulo 5

1957 Words
A madrugada avançava lentamente, mas para Amara parecia que o tempo havia parado. O relógio na parede marcava três e dezessete da manhã, e cada segundo parecia ecoar como um pequeno martelo batendo dentro de sua cabeça. Ela continuava sentada no chão do quarto, o diário antigo repousando sobre suas pernas. A capa de couro parecia mais pesada agora, como se carregasse não apenas páginas, mas uma presença viva. A sombra permanecia no canto. Silenciosa. Observando. Amara tentava convencer a si mesma de que ainda estava no controle. Afinal, ela tinha escrito as regras. Ela havia limitado a sombra, definido que ela não poderia sair sem permissão. Mas algo dentro dela sussurrava que aquilo não era completamente verdade. O gato, enroscado ao lado dela, abriu os olhos de repente. As pupilas estavam dilatadas, refletindo o escuro do quarto. Ele começou a rosnar baixo. Amara sentiu o estômago apertar. — O que foi…? — ela sussurrou. Então ouviu. Um barulho. Não dentro do quarto. Mas fora da casa. Um som distante, metálico… como se algo tivesse caído no quintal ou na rua. Amara se levantou devagar. Seus pés descalços tocaram o chão frio enquanto ela caminhava até a janela. A rua estava quase completamente escura. Apenas um poste antigo iluminava parte da calçada com uma luz amarelada e fraca. Por alguns segundos, ela não viu nada. Então algo se moveu. Muito rápido. Uma forma escura deslizou perto do portão da casa vizinha. Amara prendeu a respiração. — Não… — murmurou. Ela se virou lentamente para olhar o canto do quarto. A sombra ainda estava lá. Mas… menor. Muito menor. O coração dela disparou. Uma parte da sombra havia saído. Mesmo sem permissão. Amara correu até a mesa e abriu o diário com pressa. As páginas se mexeram sozinhas, como se fossem agitadas por um vento invisível. Letras começaram a surgir lentamente. “A curiosidade sempre encontra uma fresta.” — Não! — ela sussurrou, pegando a caneta com mãos trêmulas. Começou a escrever rapidamente: “A sombra não pode sair da casa. Nenhuma parte dela pode atravessar o portão.” Por alguns segundos, nada aconteceu. Então o ar ficou mais pesado. O chão pareceu vibrar levemente. E o gato começou a miar alto. Amara correu novamente até a janela. Do lado de fora, algo se arrastava pelo chão da rua. Uma forma escura, fina, quase líquida, movendo-se lentamente de volta na direção da casa. Quando chegou perto do portão… simplesmente deslizou por baixo dele. Amara sentiu um arrepio subir pela coluna. A sombra estava obedecendo. Mas demorou. Isso significava que ela podia resistir por algum tempo. A forma escura atravessou o quintal e desapareceu sob a porta da casa como um fio de tinta derramado. Alguns segundos depois, no quarto, a sombra no canto se expandiu novamente. Completa. Como se nunca tivesse saído. Mas Amara sabia. Ela tinha visto. E pior… aquilo significava que a sombra podia alcançar o mundo lá fora, mesmo que por pouco tempo. Ela voltou para a mesa, tentando controlar a respiração. O diário estava aberto. Novas palavras estavam surgindo. “O mundo é grande. As sombras querem conhecê-lo.” — Você não vai conhecer nada — disse Amara com firmeza, embora sua voz tremesse. Ela começou a escrever novamente. “A sombra não sai da casa. A sombra não assusta pessoas. A sombra não toca nada vivo.” A tinta demorou a secar. Era como se o diário estivesse… pensando. Então as letras desapareceram lentamente. O silêncio voltou ao quarto. Por alguns minutos, tudo ficou parado. Amara sentiu o corpo relaxar um pouco. Talvez tivesse conseguido controlar novamente. Mas então— BANG! Um grito ecoou na rua. Amara correu até a janela. Uma luz se acendeu na casa da vizinha. A senhora Marta, que morava duas casas depois, estava na varanda olhando para o chão com expressão confusa. — Tem alguém aí? — ela gritou para a rua. Amara sentiu o coração gelar. A sombra… tinha tocado algo lá fora. Talvez uma lata. Talvez um portão. Talvez pior. A vizinha olhava ao redor, claramente nervosa. Depois de alguns segundos, entrou novamente em casa. A rua voltou ao silêncio. Amara fechou a cortina lentamente. Agora ela tinha certeza de algo que a assustava profundamente. O controle que ela tinha sobre a sombra não era absoluto. Ela voltou para a mesa e ficou olhando o diário por um longo tempo. Uma ideia começou a surgir em sua mente. Se ela podia criar regras… Talvez também pudesse criar barreiras. Ela abriu uma nova página. Respirou fundo. E começou a escrever algo muito mais elaborado. Uma descrição detalhada da casa. Das paredes. Das portas. Das janelas. Das fronteiras invisíveis que nenhuma criatura criada por aquele livro poderia atravessar. Cada palavra parecia exigir esforço. Como se o diário estivesse resistindo. Como se algo dentro dele não quisesse ser limitado. Quando terminou, sentiu uma tontura leve. Fechou os olhos por alguns segundos. O quarto estava silencioso novamente. A sombra permanecia no canto. Imóvel. Observando. Mas agora parecia… irritada. Ondulações pequenas percorriam sua forma escura, como se estivesse respirando com mais força. Amara engoliu seco. — Eu criei você… — murmurou. A sombra não respondeu. Mas o diário se abriu sozinho mais uma vez. Uma frase surgiu lentamente na página. “Toda criação acredita que controla o que criou.” Amara sentiu um frio percorrer todo o corpo. Ela não sabia se aquilo era apenas uma provocação… Ou um aviso. Lá fora, o céu começava a clarear lentamente. O amanhecer estava chegando. Mas Amara sabia que aquela noite tinha mudado tudo. A sombra tinha tocado o mundo. E agora… talvez o mundo também pudesse começar a reagir. Ela fechou o diário com força. Mas, no fundo, algo dentro dela sabia a verdade. Aquilo era apenas o começo. *** Amara fechou o diário com força. Mas, no fundo, algo dentro dela sabia a verdade. Aquilo era apenas o começo. Ela ficou parada diante da mesa por alguns segundos, olhando para a capa escura do diário. O couro parecia antigo, gasto nas bordas, mas ao mesmo tempo havia algo estranho nele — como se estivesse… vivo. Amara passou os dedos lentamente sobre a capa. Estava fria. Mais fria do que qualquer objeto deveria estar. — O que você realmente é…? — ela murmurou, quase sem perceber que estava falando em voz alta. O gato levantou a cabeça novamente, olhando primeiro para ela, depois para o canto do quarto. A sombra continuava ali, mas agora parecia mais densa, como uma mancha de tinta que havia secado na parede. Mas Amara sabia que aquilo era apenas aparência. Ela já tinha visto aquela coisa se mover. Já tinha visto uma parte dela sair da casa. E aquilo não deveria ser possível. Amara puxou a cadeira e sentou-se devagar. O corpo inteiro parecia pesado, como se tivesse corrido quilômetros, mesmo sem sair do quarto. Ela abriu o diário outra vez. As páginas estavam em branco. Nenhuma palavra nova. Nenhuma resposta. Por um momento, Amara pensou que talvez aquilo tudo tivesse sido um tipo de… reação exagerada. Talvez o medo estivesse fazendo sua mente imaginar coisas. Mas então lembrou-se da forma escura na rua. Da lata que caiu. Do grito da senhora Marta. Não. Aquilo tinha sido real. Muito real. Ela passou a mão pelo rosto, tentando organizar os pensamentos. Se o diário criava coisas a partir das palavras… Então cada frase que ela escrevesse era como abrir uma porta. Uma porta que talvez ela não soubesse fechar depois. O céu do lado de fora estava começando a clarear. Um tom azul pálido surgia lentamente atrás das casas, e alguns pássaros começaram a cantar ao longe. O amanhecer normalmente trazia uma sensação de segurança. Mas não naquela manhã. Naquela manhã, Amara tinha a sensação de que o mundo estava um pouco… diferente. Ela olhou novamente para o canto do quarto. A sombra parecia quieta. Mas algo chamou sua atenção. Ela não estava apenas parada. Ela estava… maior. Muito pouco. Quase imperceptível. Mas maior. Amara levantou-se lentamente e deu alguns passos em direção ao canto. O coração batia rápido, como se estivesse avisando para não se aproximar. Mesmo assim, ela foi. Parou a poucos passos da sombra. O ar estava mais frio ali. Muito mais frio. Ela estendeu a mão devagar. Por um instante, pensou em tocar. Mas algo dentro dela gritou para não fazer aquilo. Então recuou. — Você está crescendo… — ela murmurou. Nenhuma resposta. Mas o diário atrás dela fez um som baixo. ** Uma página havia virado sozinha. Amara se virou rapidamente. O diário estava aberto na mesa. E novas palavras estavam aparecendo. Devagar. Como se alguém estivesse escrevendo do outro lado da página. “Sombras crescem onde há medo.” Amara sentiu um arrepio forte atravessar seus braços. — Então pare de crescer — disse ela, tentando parecer firme. Pegou a caneta novamente. Mas quando encostou a ponta no papel… hesitou. Pela primeira vez, ela sentiu medo de escrever. Medo de que qualquer palavra pudesse piorar a situação. O silêncio do quarto parecia pressioná-la. O gato se levantou da cama e caminhou até a porta do quarto, olhando para o corredor como se estivesse ouvindo algo distante. Amara percebeu que sua mente estava começando a funcionar de outra forma. Antes, o diário era apenas uma curiosidade. Um objeto estranho. Agora… era uma responsabilidade. Se ela escrevesse algo errado, poderia criar algo muito pior do que uma simples sombra. E se ela escrevesse algo certo… talvez pudesse aprender a controlar aquilo. Ela respirou fundo. E decidiu tentar algo diferente. Em vez de escrever uma ordem direta, começou a escrever uma descrição. “A sombra existe, mas é limitada. Ela não cresce sem permissão. Ela não se torna mais forte sem autorização. Ela permanece estável.” A tinta parecia pesada no papel. Cada palavra exigia esforço. Quando terminou, Amara sentiu novamente aquela leve tontura. Era como se escrever no diário drenasse um pouco de sua energia. Ela encostou na cadeira, tentando recuperar o fôlego. O quarto ficou em silêncio por alguns segundos. Então algo mudou. A sombra no canto ondulou levemente. Depois… ficou imóvel novamente. Amara olhou com atenção. Ela não parecia maior agora. Parecia exatamente do mesmo tamanho de antes. Amara soltou o ar lentamente. Talvez tivesse funcionado. Talvez ela estivesse aprendendo. Mas enquanto pensava nisso, uma dúvida começou a surgir em sua mente. Uma dúvida que a deixou inquieta. Ela abriu novamente o diário e folheou algumas páginas. Todas estavam vazias. Mas havia algo estranho. Muito estranho. Algumas páginas no meio do livro tinham marcas leves, como se algo tivesse sido escrito ali muito tempo atrás… e depois apagado. Amara passou os dedos sobre uma dessas páginas. O papel estava levemente mais áspero. Como se tivesse sido usado muitas vezes. O coração dela acelerou. Uma possibilidade começou a surgir em sua cabeça. E se… Ela não fosse a primeira pessoa a usar aquele diário? E se alguém, antes dela, já tivesse escrito nele? Já tivesse criado coisas? Já tivesse tentado controlar… sombras? Amara sentiu um frio no estômago. Se isso fosse verdade, então talvez existissem respostas escondidas nas páginas do livro. Respostas sobre o que aquele diário realmente era. Respostas sobre o que poderia acontecer se ela cometesse um erro. Ela virou mais algumas páginas. Nada. Apenas papel vazio. Mas, no fundo, ela tinha certeza de uma coisa. Aquele diário tinha uma história. Uma história que ainda não tinha sido revelada. E talvez… uma história muito mais perigosa do que ela imaginava. Amara fechou o livro lentamente. A luz do amanhecer agora iluminava o quarto através da janela. Mas, mesmo com o dia chegando, a sensação de escuridão ainda permanecia ali. Porque no canto do quarto… A sombra continuava observando. Em silêncio. Esperando.
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