Capítulo 9

1581 Words
O café parecia menor. Mais silencioso. Como se tudo ao redor tivesse se afastado para dar espaço apenas àquele momento. Clara não conseguia tirar os olhos da carta sobre a mesa. Ou melhor, da forma como Henrique a segurava. Com cuidado. Com hesitação. Como se, ao abri-la, algo dentro dele pudesse mudar para sempre. E talvez pudesse mesmo. Ele passou o polegar lentamente pela borda do envelope. Reconhecendo. Sentindo. Lembrando. Clara percebeu o exato momento em que aquilo deixou de ser apenas um objeto. E voltou a ser memória. Henrique respirou fundo. Uma vez. Duas. Então abriu a carta. O som do papel sendo desdobrado pareceu alto demais para o silêncio que dominava o ambiente. Clara sentiu o coração apertar. Ela já tinha lido aquelas palavras. Mas, naquele momento, parecia que estava vendo tudo pela primeira vez. Porque agora… era ele. Era o autor. Era o homem que tinha escrito cada linha. Henrique começou a ler. Seus olhos percorriam o papel com atenção. Mas, aos poucos, algo foi mudando em sua expressão. No início, havia apenas concentração. Depois, reconhecimento. E então… Algo mais profundo. Mais difícil de esconder. Seus olhos pararam por um segundo no meio do texto. Como se tivessem encontrado algo específico. Algo que o fez desacelerar. Ele continuou. Mas agora mais devagar. Absorvendo. Revivendo. Clara observava em silêncio absoluto. Sem ousar interromper. Sem ousar dizer qualquer coisa. Ela não sabia exatamente o que esperar. Raiva. Tristeza. Indiferença. Mas o que via ali… era diferente. Era mais silencioso. Mais contido. E, justamente por isso, mais intenso. Quando Henrique terminou de ler, não falou nada. Não imediatamente. Apenas ficou olhando para o papel. Como se estivesse tentando encaixar aquele momento dentro de tudo o que já tinha vivido. Clara percebeu que as mãos dele estavam levemente tensas. Não tremendo. Mas firmes demais. Como se estivesse segurando mais do que apenas uma folha. Ela engoliu seco. — Henrique… Ele levantou a mão, pedindo silêncio. Não de forma rude. Mas clara. Ele ainda não estava pronto. Clara assentiu, mesmo sabendo que ele não estava olhando. O tempo passou. Talvez segundos. Talvez mais. Era difícil dizer. Henrique dobrou a carta com cuidado. Colocou-a sobre a mesa. E só então levantou os olhos. O olhar dele estava diferente. Mais profundo. Mais distante. Como se estivesse ali… mas ao mesmo tempo em outro lugar. — Eu lembrava — disse ele, finalmente. A voz estava baixa. Controlada. — Mas não assim. Clara permaneceu em silêncio. — Eu lembrava de ter escrito. Mas não lembrava de cada palavra. Ele olhou novamente para a carta. — É estranho… Fez uma pausa. — Ler algo que você escreveu… e perceber que ainda sente parte daquilo. Clara sentiu um aperto no peito. — Ainda sente? Henrique não respondeu imediatamente. Ele recostou-se na cadeira. Passou a mão pelo rosto. — Não da mesma forma. Mas não é algo que simplesmente desaparece. Clara assentiu lentamente. Aquilo fazia sentido. Mais do que ela gostaria. — Eu achei que o tempo ia resolver — continuou ele. — Que seguir em frente era suficiente. Ele deu um pequeno sorriso, quase imperceptível. — E talvez seja… na maior parte do tempo. Clara observava cada detalhe. Cada palavra. Cada pausa. — Mas tem coisas que ficam — disse ele. — Não como antes. Mas ficam. O silêncio voltou. Mas agora era diferente. Menos tenso. Mais pesado emocionalmente. Clara tomou coragem. — Por que você nunca entregou? Henrique ficou em silêncio por alguns segundos. Como se estivesse decidindo se queria mesmo responder. — Porque esperei o momento certo. Ele olhou para ela. — E quando percebi… já não existia mais momento. Clara franziu levemente a testa. — Ela já tinha ido? — Sim. A resposta foi simples. Direta. Mas carregada. — Eu soube que ela tinha recebido a oportunidade de estudar fora. Ele olhou novamente para a mesa. — E pensei que ia conseguir falar antes. Mas não consegui. Clara sentiu um nó na garganta. — Você tentou? Henrique soltou um pequeno suspiro. — Muitas vezes. Ele deu um leve sorriso sem alegria. — Na minha cabeça, sempre dava certo. Mas na realidade… Ele balançou a cabeça. — Eu travava. Clara não sabia o que dizer. Então apenas ouviu. — E depois que ela foi… parecia tarde demais. Ele fez uma pausa. — Então escrevi a carta. Clara olhou para o papel. — E deixou no livro? Henrique assentiu. — Era um dos livros que ela mais gostava. Clara sentiu um arrepio leve. — Você achou que ela voltaria? Ele deu de ombros. — Talvez. — Ou talvez eu só quisesse deixar aquilo em algum lugar. Clara pensou na carta escondida por tantos anos. Esperando. — Você voltou lá depois? Henrique negou. — Não. — Por quê? Ele olhou para ela. — Porque eu sabia que, se voltasse, ia acabar lendo de novo. Clara entendeu. Aquilo não era sobre o papel. Era sobre o que ele representava. — E você seguiu em frente? — perguntou ela, com cuidado. Henrique ficou em silêncio. Mais longo dessa vez. — Sim. Mas a resposta não veio com convicção. Clara percebeu. E ele percebeu que ela percebeu. — Seguir em frente não significa esquecer — acrescentou ele. Clara assentiu. — Eu sei. Outro silêncio. Mas agora havia algo diferente no ar. Algo mais pessoal. Mais próximo. Henrique olhou diretamente para ela. — Por que você fez isso? Clara respirou fundo. — Eu já disse… — Não disse tudo. A interrupção foi calma. Mas firme. Clara sentiu o coração apertar novamente. — Eu… não sei explicar direito. Henrique esperou. — Quando eu encontrei a carta… Ela olhou para o envelope. — Não parecia algo que devia ficar escondido. Ele não disse nada. — Parecia importante demais. Ela fez uma pausa. — E triste demais. Henrique observava com atenção. — E então eu quis entender. Clara levantou os olhos. — E depois quis ajudar. Henrique inclinou levemente a cabeça. — Ajudar? — Sim. — Como? Clara hesitou. Mas não desviou dessa vez. — Tentando encontrar um final. Henrique ficou em silêncio. Mas dessa vez não havia desconfiança no olhar. Havia… algo mais próximo de compreensão. Ou talvez curiosidade. — E você acha que existe um final? Clara respondeu sem pensar muito: — Acho que sempre existe. Henrique apoiou os braços na mesa. — Mesmo depois de tantos anos? Clara assentiu. — Talvez não o final que você imaginava. Mas algum. Ele ficou em silêncio. Pensando. De verdade. E aquilo fez Clara perceber algo importante. Ele não estava rejeitando a ideia. Ele estava considerando. — Você sabe alguma coisa sobre ela? — perguntou ele de repente. Clara hesitou. Mas dessa vez não mentiu. — Sei. Henrique ficou imóvel por um instante. — O quê? Clara respirou fundo. — Ela estudou fora. — Isso eu sei. — E depois voltou ao país. Henrique franziu levemente a testa. — Voltou? Clara assentiu. — Há alguns anos. O olhar dele mudou. — Você tem certeza? — Tenho. Henrique ficou em silêncio. Mas não era um silêncio vazio. Era carregado de pensamento. De possibilidades. De coisas que ele claramente não tinha considerado antes. — E… você sabe onde ela está? A pergunta veio mais baixa. Mais cuidadosa. Como se ele mesmo não soubesse se queria ouvir a resposta. Clara não respondeu imediatamente. Mas não desviou. — Sei onde ela esteve por último. Henrique respirou fundo. Passou a mão pelo cabelo. — Isso é… Ele parou. Tentando encontrar as palavras. — Muito mais do que eu esperava. Clara observava. Sabia que aquele momento era importante. Talvez decisivo. — O que você quer fazer? — perguntou ela. Henrique olhou para a carta novamente. Depois para ela. E ficou em silêncio. Um silêncio longo. Honesto. Quando finalmente falou, a voz estava diferente. Mais incerta. Mas também mais verdadeira. — Eu não sei. Clara assentiu. — Tudo bem não saber. Henrique soltou um pequeno suspiro. — Parte de mim acha que isso já passou. — E a outra? Ele olhou diretamente para ela. — Quer saber o que teria acontecido. Clara sentiu o coração apertar de leve. — Isso é normal. Henrique ficou em silêncio novamente. Mas dessa vez havia menos peso. Mais a******a. — Você complicou a minha vida — disse ele, de repente. Clara arregalou levemente os olhos. — Desculpa. Mas ele sorriu. De verdade. Pela primeira vez naquele encontro. — Não estou reclamando. Clara soltou um pequeno riso. — Não pareceu. — Eu sei. Ele pegou a carta novamente. — Mas talvez isso precisasse acontecer. Clara sentiu algo aquecer dentro dela. — Talvez. Henrique a observou por alguns segundos. — Você não desistiria, né? Clara deu um pequeno sorriso. — Provavelmente não. Ele assentiu. — Eu imaginei. O clima entre eles mudou. Não completamente. Ainda havia tensão. Ainda havia passado. Mas agora havia também… conexão. Mais clara. Mais real. Henrique levantou-se lentamente. — Eu preciso pensar. Clara assentiu. — Claro. Ele pegou a carta. Mas antes de sair, olhou para ela. — Obrigado. Clara ficou surpresa. — Por quê? — Por não ter ignorado. Ele fez uma pequena pausa. — E por ter sido honesta… no final. Clara sentiu o peso e o alívio daquelas palavras ao mesmo tempo. — Eu demorei. — Mas chegou lá. Ele deu um pequeno sorriso. E saiu. O sino tocou. Clara ficou sentada. O coração ainda acelerado. Mas mais leve. Porque, pela primeira vez desde que encontrou a carta… Ela não estava mais sozinha naquela história. E agora… A decisão não era só dela.
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