Capítulo 14 Magnata

1221 Words
Magnata Narrando Papo reto… desde moleque eu já sabia como essa vida ia cobrar da gente. E não era só na guerra, não. Era em tudo. Principalmente quando o assunto envolvia mulher. Porque mulher mexe com a cabeça da gente de um jeito que nem tiro de fuzil consegue desalojar. Já vi homem cair por causa de mulher. Já vi amizade acabar por causa de mulher. Já vi decisão errada ser tomada por causa de mulher. E eu? Eu sempre me preservei. Sempre mantive distância. Sempre deixei claro que aqui é só passageiro, que sentimento não entra no pacote. Mas tem hora que a parada foge do controle. Tava sentado ali, encostado na cadeira, copo de whisky na mão, observando o movimento do pagode enquanto o Valente despejava mais uma vez o mesmo assunto de sempre. Filho. — Já falei, pô… — ele resmungava, passando a mão na cabeça — a mina só fala "na hora certa"… que hora certa é essa que nunca chega? Balancei a cabeça, dando um gole na bebida. O whisky desceu queimando, mas não aliviou o tédio de ouvir a mesma reclamação pela quinta vez na semana. — Tu também não se ajuda, né, Valente. — falei, apoiando o copo na mesa. Caverna riu do lado, todo folgado na cadeira. — Papo reto… tu fica pilhando a mina toda semana. — ele disse, cutucando o Valente. — Se eu fosse a Paulinha, já tinha te mandado pastar. Valente bufou, claramente irritado. — Não é pilha não, é sonho. — ele rebateu, os olhos vidrados no nada. Olhei pra ele de lado, analisando. Conheço o Valente desde moleque. Sei quando ele tá só reclamando por reclamar e sei quando ele tá sentindo de verdade. Ali? Ele tava sentindo. — E desde quando tu entrou nessa vida, tu já falava disso. — comentei. Ele me encarou. — Sempre falei mesmo. — Eu sei — respondi tranquilo, sem perder a calma — mas tu também falou que ia respeitar o tempo dela. Silêncio. Ele desviou o olhar. Pegou o copo, deu um gole longo. Engoliu seco. — Quando tu casou com a Paulinha, tu mesmo falou: "vou esperar o tempo dela". — Continuei e o Caverna concordou com a cabeça, todo sério agora. — Falou mesmo, parceiro. Eu tava lá. Lembro até hoje. — ele confirmou. Valente soltou o ar pesado, os ombros caídos. — E esperei, pô… esperei pra caralhø. — a voz dele saiu mais baixa agora, como se admitir aquilo doesse. — Então continua esperando — falei firme, mas sem grosseria — porque na hora certa o moleque vem. E vai vir do jeito certo, não na pressão. Ele ficou quieto, pensativo. A fumaça do baseado subia devagar entre a gente, e o pagode continuava alto ao redor, mas ali na mesa o clima era outro. Caverna bateu no ombro dele. — Relaxa, irmão. O Magnata tá certo. Se for pra ser, vai ser. Valente só balançou a cabeça, sem responder. Mas antes que o clima ficasse pesado demais, minha atenção mudou. Paulinha levantou da mesa com a Amanda e foi pro meio do pagode. Rebolando, rindo, daquele jeito leve que só ela tem. O cabelo cacheado voando, a cintura fina desenhando no ar, as amigas em volta. Ela tava solta. Tava feliz. Tava vivendo. Olhei pro Valente e ele olhou… e levantou na hora. — Vou lá na minha mulher. — ele falou, já se levantando. — Vai lá, romântico — Caverna zoou, rindo. Valente nem respondeu, só foi. Atravessou o pagode com aquele jeito dele, firme, direto, como quem sabe o que quer. E eu fiquei observando. Porque, no fundo, eu admiro isso nele. Mesmo com briga, mesmo com treta, ele não larga a mina dele. Ele vai atrás. Foi aí que eu vi. E não acreditei. Dei um leve tapa no braço do Caverna, chamando atenção. — Tu não falou que a Jéssica tava chegando? — perguntei, os olhos ainda na direção da pista. Ele virou o rosto pra mim, confuso. — Falei… mas é só amanhã. — ele respondeu, convicto. Inclinei a cabeça, olhando fixo pra frente. Um sorriso de canto começou a se formar. — Então ou ela se teletransportou… ou tem uma irmã gêmea. — falei devagar. Ele franziu a testa. — Por quê? Apontei discretamente com o queixo. — Porque quem tá ali bebendo com as meninas… não é a Jéssica? Caverna virou rápido. Tão rápido que quase derrubou o copo. Travou. — Que loira filha da putä… — ele murmurou, os olhos arregalados. Levantou na hora, a cadeira rangendo no chão. — Eu jurando que ela tava querendo fazer surpresa e ela me mete essa? Tá mentindo pra mim? — a voz dele misturava raiva e confusão. Eu balancei a cabeça, negandø. Dei mais um gole no whisky. — Vai lá, resolve teu B.O. — falei tranquilo. Ele já tava indo na direção dela, atravessando o meio do povo com pressa. Eu fiquei recostado na cadeira, observando. Chamei um dos menor que tava passando perto. — Ô, cria… traz uma garrafa de whisky aí. — pedi, sem tirar os olhos da confusão. — Já é, chefe. — o moleque respondeu, sumindo rápido. O pagode continuava. As mina dançando, os cria rindo, o baseado rodando. Tudo normal. O menor voltou rápido com balde, gelo, energético, água de coco e a garrafa. Colocou tudo na mesa, orgulhoso do serviço. Olhei pra mesa… depois pra ele. — Eu pedi uma garrafa de whisky. — falei, a voz baixa. Ele travou na hora. O sorriso sumiu. — Foi m*l, chefe. — a voz dele saiu pequena. — Relaxa — falei, puxando só a garrafa — o resto tu leva. Ele saiu ligeiro, aliviado por ter escapado. Servi mais um copo, recostando na cadeira. A bebida desceu quente, mas tranquila. E fiquei só observando o desenrolar. Minutos depois, Caverna voltou. E não voltou sozinho. Jéssica vinha com ele… rindo, daquele jeito folgado de sempre. O cabelo loiro solto, a pele bronzeada, o sorriso fácil. Ela tava diferente. Mais mulher. Mais segura. Assim que me viu, abriu um sorriso malicioso e veio direto. Nem pediu licença. Jogou os braços no meu pescoço. — Que saudade, chefe… — a voz dela saiu quente, perto demais. Beijou minha bochecha devagar. Depois o pescoço. Soltei um riso baixo, sentindo o perfume dela. — E aí, pequena… onde é que tu tava? — perguntei, mantendo a pose. Ela se afastou um pouco, me olhando de cima a baixo. — Tava no mundo… mas tava com saudade de você. — respondeu, os olhos brilhando. — Só dele é, pørra? — Caverna cortou, já emburrado, os braços cruzados. Olhei pra ele e ri. — Relaxa, Caverna… a saudade que ela tem de tu é de irmão. Aproximei um pouco mais dela, sentindo o calor do corpo. — Agora a de mim… é outra coisa. — Tu não me respeita mais não, né, caralhø? — ele resmungou, mas já tava rindo por dentro. Jéssica deu risada, a cabeça jogada pra trás. — Para de drama. — ela disse, passando a mão no ombro dele. — Fala aí, sumida — falei — tava por onde? Ela deu de ombros, toda despretensiosa. — Dei um rolê, fui ver umas coisas fora… respirar outro ar. Puxei a cadeira do lado. — Senta aí. Continua…
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