Capítulo 09 Luísa

1413 Words
Luísa Narrando Espalhei o creme pelo rosto, pescoço, ombros e braços. Yasmin estava encostada na porta observando. — Amiga, você demora mais se arrumando pra praia do que eu pra sair pra balada. — Porque eu gosto de fazer tudo direito — respondi, rindo. Luara cruzou os braços. — Ela não demora. Ela faz um ritual. — Exatamente — falei, apontando para ela. Terminei de guardar as coisas na bolsa e pendurei no suporte da cadeira. — Pronto. Minha mãe suspirou. — Vocês três… juízo, hein? — Sempre temos — Yasmin respondeu com uma cara tão falsa que eu quase ri. Minha mãe se aproximou de mim e ajeitou uma mecha do meu cabelo cacheado. — Qualquer coisa me liga. — Pode deixar. Saímos de casa alguns minutos depois. O sol já estava quente, e o movimento da rua começava a aumentar. Pegamos um carro por aplicativo, e em pouco tempo estávamos descendo perto da orla. Yasmin olhou para mim enquanto ajustava os óculos de sol. — E aí… vamos para a mesma praia de ontem ou vamos ficar por aqui mesmo? Meu coração deu um pequeno salto. Olhei na direção do mar. — Vamos pra mesma. As duas sorriram ao mesmo tempo. — Eu sabia — Luara falou. Começamos a seguir pelo calçadão até o ponto onde ficamos no dia anterior. A praia estava cheia. Sol brilhando. Gente caminhando. Crianças correndo na areia. E como sempre… olhares. Algumas meninas arrumadinhas, cheias de maquiagem e roupa de marca, olharam para mim de cima a baixo quando passei. Uma delas cochichou alguma coisa no ouvido da outra. — "Patricinhas" — pensei, revirando os olhos mentalmente. Um pouco mais à frente, um grupo de mauricinhos encostados perto de um quiosque começou a olhar também. — Ih… — murmurou Yasmin. Um deles falou alto o suficiente pra gente ouvir. — Pô, mano… olha aí. Outro riu. — Essa praia tem de tudo mesmo. Revirei os olhos de novo. Yasmin parou na hora. — Quer saber? Eu vou ali falar com esses idiotas. — Yasmin… — falei, segurando o braço dela. — Não, porque isso já passou do limite! — Deixa pra lá. Ela me olhou irritada. — Como assim deixa pra lá? — Porque não me incomoda. Ela piscou. — Não incomoda? Balancei a cabeça. — Não. Luara bufou. — Pois devia incomodar. — Por quê? Ela cruzou os braços, olhando feio para o grupo de rapazes. — Porque dá vontade de sair metendo a mão na cara de todo mundo. Acabei rindo. — Vocês duas são doidas. Mas, mesmo com tudo isso acontecendo ao redor… Meu olhar continuava procurando uma coisa. Ou melhor… Uma pessoa. Chegamos no mesmo ponto da noite anterior. A areia mais fofa, o mar mais perto. Yasmin e Luara começaram a estender a canga enquanto eu ficava ali, parada, os olhos passeando pela multidão. — Tá procurando alguém? — Luara perguntou com um sorriso maroto. — Tô não — respondi rápido demais. — "Tô sim" — pensei comigo mesma, irritada por ter sido tão óbvia. Yasmin se sentou na canga e abriu o protetor solar. — Ele vai aparecer. — Você não sabe disso. — Sei. — Como? Ela ergueu uma sobrancelha. — Porque homem quando fica interessado não sossega enquanto não encontra a mulher de novo. — "Será que ele tá interessado mesmo?" — pensei, o coração acelerando. — "Ou tudo isso é coisa da minha cabeça?" Luara concordou com a cabeça. — Ela tem razão. E olha que eu odeio concordar com ela. — Ei! — Yasmin reclamou. Ri baixinho. Fiquei sentada na minha cadeira, o sol aquecendo minha pele, os olhos passeando pelo movimento da praia. O tempo foi passando. O sol subindo. O movimento aumentando. Depois de um tempo, Luara se levantou espreguiçando. — Gente, tô morrendo de fome. Vou lá no quiosque comprar alguma coisa. Yasmin levantou a cabeça da canga na hora. — Compra camarão frito! Aquele que a gente comeu semana passado, tava maravilhoso. — E pastel? — Luara perguntou. — Pode trazer também. — Yasmim falou e a Luara olhou para mim. — Lu, quer o quê? — Pode trazer só uma água de coco pra mim. — Só isso? — Só. — "Não tô com fome mesmo" — pensei. — "Meu estômago tá embrulhado de ansiedade." Luara saiu andando em direção ao quiosque colorido que ficava a alguns metros. Fiquei observando ela se afastar, o cabelo balançando no vento. Yasmin se sentou na areia perto de mim. — Tá nervosa? — Não. — Tá sim. — "Tô" — admiti mentalmente. — "Tô nervosa, ansiosa, com o coração na mão." — Yasmin… e se ele não vier? Ela me olhou com calma. — Aí a gente volta amanhã. — Falei tentando ser positiva. — E se ele nunca vier? — Aí a gente descobre onde ele mora e manda uma carta. — Falei sorrindo. — Doida. — Doida igualzinho vocês. — Falei e ficamos em silêncio por um momento, vendo o movimento da praia. Luara voltou alguns minutos depois com uma bandeja de isopor cheia de quentinhas. O cheiro do camarão frito invadiu o ar e até eu, que não tava com fome, senti água na boca. — Chegou o banquete! — ela anunciou, se jogando na canga. Abriu as quentinhas e distribuiu. Camarão crocante, pastel de queijo, molho vinagrete e as águas de coco geladas. Yasmin atacou a comida como se não comesse há dias. — Nossa, tava com saudade desse camarão. Luara concordou de boca cheia. — Melhor da vida. Comemos e conversando. Yasmin voltou a falar sobre o cara que tinha conhecido no último fim de semana. Luara reclamou do chefe no trabalho. Eu ouvia, ria, comentava. Mas meus olhos… meus olhos nunca paravam de passear pela multidão. — "Onde você está?" — pensei, mastigando sem sentir o gosto. Yasmin percebeu. — Amiga, para de procurar. Se ele tiver que aparecer, aparece. Respirei fundo. — Tá bom. Terminamos de comer. Luara juntou as embalagens e levou até o lixeiro mais próximo. Yasmin deitou na canga de novo. O sol começou a descer. A tarde foi virando fim de tarde. E nada. Yasmin e Luara entraram no mar mais uma vez, voltaram, se secaram. E eu fiquei. Esperando. — "i****a" — pensei comigo mesma. — "Você é uma i****a. Veio pra praia esperar um homem que nem sabe seu nome direito." Até que Yasmin se sentou na areia perto de mim, me olhando com cuidado. — Amiga… — Fala. — Tá na hora da gente ir. Olhei pro mar. — Já? — Já. Suspirei fundo. — Tá bom. Guardamos as coisas em silêncio. Luara olhou pra mim com um olhar de quem queria dizer alguma coisa, mas não sabia o quê. No caminho de volta pelo calçadão, Yasmin quebrou o silêncio. — Pode ser que ele não tenha vindo hoje. — Pode. — Ou pode ser que ele venha amanhã. Dei de ombros. — Talvez. — "Ou talvez ele nunca mais apareça" — pensei, sentindo um aperto no peito que eu não queria admitir. Entramos no carro. A praia ficou pra trás. E com ela, a esperança boba de rever aquele homem. Cheguei em casa, tomei um banho demorado, tentei desligar a cabeça. Comi qualquer coisa na cozinha enquanto minha mãe comentava sobre o dia. Depois fui pro quarto. Deitei na cama. O escuro do quarto me engoliu. E foi aqui no silêncio absoluto, que eu deixei a mente viajar. A imagem dele voltou. O jeito que me olhou. A forma como segurou a cadeira. A voz grave perguntando se eu tava bem. — "Por que você não veio?" — pensei, como se ele pudesse ouvir. — "Por que me fez esperar?" O telefone vibrou. Peguei o celular. Mensagem de número desconhecido. Abri. "Hoje você tava mais bonita que ontem." Meu coração parou. Meu dedo tremia enquanto lia de novo. E então outra mensagem chegou. "Só que eu tava ocupado. Não pude ir." Fiquei olhando pra tela sem saber o que responder. — "Ele me viu" — pensei, o coração disparado. — "Ele tava lá." E antes que eu conseguisse digitar qualquer coisa… Outra mensagem. "Amanhã eu vou. E dessa vez não vou deixar você escapar." O celular quase caiu da minha mão. Fiquei no escuro do quarto, o coração batendo tão forte que parecia querer sair do peito. — "Quem é você?" — pensei, os olhos fixos na tela. Mas no fundo… No fundo eu já sabia quem era. Continua...
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