Luísa Narrando
Espalhei o creme pelo rosto, pescoço, ombros e braços.
Yasmin estava encostada na porta observando.
— Amiga, você demora mais se arrumando pra praia do que eu pra sair pra balada.
— Porque eu gosto de fazer tudo direito — respondi, rindo.
Luara cruzou os braços.
— Ela não demora. Ela faz um ritual.
— Exatamente — falei, apontando para ela.
Terminei de guardar as coisas na bolsa e pendurei no suporte da cadeira.
— Pronto.
Minha mãe suspirou.
— Vocês três… juízo, hein?
— Sempre temos — Yasmin respondeu com uma cara tão falsa que eu quase ri.
Minha mãe se aproximou de mim e ajeitou uma mecha do meu cabelo cacheado.
— Qualquer coisa me liga.
— Pode deixar.
Saímos de casa alguns minutos depois. O sol já estava quente, e o movimento da rua começava a aumentar.
Pegamos um carro por aplicativo, e em pouco tempo estávamos descendo perto da orla.
Yasmin olhou para mim enquanto ajustava os óculos de sol.
— E aí… vamos para a mesma praia de ontem ou vamos ficar por aqui mesmo?
Meu coração deu um pequeno salto.
Olhei na direção do mar.
— Vamos pra mesma.
As duas sorriram ao mesmo tempo.
— Eu sabia — Luara falou.
Começamos a seguir pelo calçadão até o ponto onde ficamos no dia anterior.
A praia estava cheia. Sol brilhando. Gente caminhando. Crianças correndo na areia. E como sempre… olhares.
Algumas meninas arrumadinhas, cheias de maquiagem e roupa de marca, olharam para mim de cima a baixo quando passei.
Uma delas cochichou alguma coisa no ouvido da outra.
— "Patricinhas" — pensei, revirando os olhos mentalmente.
Um pouco mais à frente, um grupo de mauricinhos encostados perto de um quiosque começou a olhar também.
— Ih… — murmurou Yasmin.
Um deles falou alto o suficiente pra gente ouvir.
— Pô, mano… olha aí.
Outro riu.
— Essa praia tem de tudo mesmo.
Revirei os olhos de novo.
Yasmin parou na hora.
— Quer saber? Eu vou ali falar com esses idiotas.
— Yasmin… — falei, segurando o braço dela.
— Não, porque isso já passou do limite!
— Deixa pra lá.
Ela me olhou irritada.
— Como assim deixa pra lá?
— Porque não me incomoda.
Ela piscou.
— Não incomoda?
Balancei a cabeça.
— Não.
Luara bufou.
— Pois devia incomodar.
— Por quê?
Ela cruzou os braços, olhando feio para o grupo de rapazes.
— Porque dá vontade de sair metendo a mão na cara de todo mundo.
Acabei rindo.
— Vocês duas são doidas.
Mas, mesmo com tudo isso acontecendo ao redor… Meu olhar continuava procurando uma coisa.
Ou melhor… Uma pessoa.
Chegamos no mesmo ponto da noite anterior. A areia mais fofa, o mar mais perto. Yasmin e Luara começaram a estender a canga enquanto eu ficava ali, parada, os olhos passeando pela multidão.
— Tá procurando alguém? — Luara perguntou com um sorriso maroto.
— Tô não — respondi rápido demais.
— "Tô sim" — pensei comigo mesma, irritada por ter sido tão óbvia.
Yasmin se sentou na canga e abriu o protetor solar.
— Ele vai aparecer.
— Você não sabe disso.
— Sei.
— Como?
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Porque homem quando fica interessado não sossega enquanto não encontra a mulher de novo.
— "Será que ele tá interessado mesmo?" — pensei, o coração acelerando. — "Ou tudo isso é coisa da minha cabeça?"
Luara concordou com a cabeça.
— Ela tem razão. E olha que eu odeio concordar com ela.
— Ei! — Yasmin reclamou.
Ri baixinho.
Fiquei sentada na minha cadeira, o sol aquecendo minha pele, os olhos passeando pelo movimento da praia.
O tempo foi passando. O sol subindo. O movimento aumentando.
Depois de um tempo, Luara se levantou espreguiçando.
— Gente, tô morrendo de fome. Vou lá no quiosque comprar alguma coisa.
Yasmin levantou a cabeça da canga na hora.
— Compra camarão frito! Aquele que a gente comeu semana passado, tava maravilhoso.
— E pastel? — Luara perguntou.
— Pode trazer também. — Yasmim falou e a Luara olhou para mim.
— Lu, quer o quê?
— Pode trazer só uma água de coco pra mim.
— Só isso?
— Só.
— "Não tô com fome mesmo" — pensei. — "Meu estômago tá embrulhado de ansiedade."
Luara saiu andando em direção ao quiosque colorido que ficava a alguns metros. Fiquei observando ela se afastar, o cabelo balançando no vento.
Yasmin se sentou na areia perto de mim.
— Tá nervosa?
— Não.
— Tá sim.
— "Tô" — admiti mentalmente. — "Tô nervosa, ansiosa, com o coração na mão."
— Yasmin… e se ele não vier?
Ela me olhou com calma.
— Aí a gente volta amanhã. — Falei tentando ser positiva.
— E se ele nunca vier?
— Aí a gente descobre onde ele mora e manda uma carta. — Falei sorrindo.
— Doida.
— Doida igualzinho vocês. — Falei e ficamos em silêncio por um momento, vendo o movimento da praia.
Luara voltou alguns minutos depois com uma bandeja de isopor cheia de quentinhas. O cheiro do camarão frito invadiu o ar e até eu, que não tava com fome, senti água na boca.
— Chegou o banquete! — ela anunciou, se jogando na canga.
Abriu as quentinhas e distribuiu. Camarão crocante, pastel de queijo, molho vinagrete e as águas de coco geladas.
Yasmin atacou a comida como se não comesse há dias.
— Nossa, tava com saudade desse camarão.
Luara concordou de boca cheia.
— Melhor da vida.
Comemos e conversando. Yasmin voltou a falar sobre o cara que tinha conhecido no último fim de semana. Luara reclamou do chefe no trabalho. Eu ouvia, ria, comentava.
Mas meus olhos… meus olhos nunca paravam de passear pela multidão.
— "Onde você está?" — pensei, mastigando sem sentir o gosto.
Yasmin percebeu.
— Amiga, para de procurar. Se ele tiver que aparecer, aparece.
Respirei fundo.
— Tá bom.
Terminamos de comer. Luara juntou as embalagens e levou até o lixeiro mais próximo.
Yasmin deitou na canga de novo.
O sol começou a descer.
A tarde foi virando fim de tarde.
E nada.
Yasmin e Luara entraram no mar mais uma vez, voltaram, se secaram.
E eu fiquei.
Esperando.
— "i****a" — pensei comigo mesma. — "Você é uma i****a. Veio pra praia esperar um homem que nem sabe seu nome direito."
Até que Yasmin se sentou na areia perto de mim, me olhando com cuidado.
— Amiga…
— Fala.
— Tá na hora da gente ir.
Olhei pro mar.
— Já?
— Já.
Suspirei fundo.
— Tá bom.
Guardamos as coisas em silêncio. Luara olhou pra mim com um olhar de quem queria dizer alguma coisa, mas não sabia o quê.
No caminho de volta pelo calçadão, Yasmin quebrou o silêncio.
— Pode ser que ele não tenha vindo hoje.
— Pode.
— Ou pode ser que ele venha amanhã.
Dei de ombros.
— Talvez.
— "Ou talvez ele nunca mais apareça" — pensei, sentindo um aperto no peito que eu não queria admitir.
Entramos no carro.
A praia ficou pra trás.
E com ela, a esperança boba de rever aquele homem.
Cheguei em casa, tomei um banho demorado, tentei desligar a cabeça.
Comi qualquer coisa na cozinha enquanto minha mãe comentava sobre o dia.
Depois fui pro quarto. Deitei na cama. O escuro do quarto me engoliu.
E foi aqui no silêncio absoluto, que eu deixei a mente viajar.
A imagem dele voltou. O jeito que me olhou. A forma como segurou a cadeira. A voz grave perguntando se eu tava bem.
— "Por que você não veio?" — pensei, como se ele pudesse ouvir. — "Por que me fez esperar?"
O telefone vibrou. Peguei o celular. Mensagem de número desconhecido.
Abri.
"Hoje você tava mais bonita que ontem."
Meu coração parou. Meu dedo tremia enquanto lia de novo. E então outra mensagem chegou.
"Só que eu tava ocupado. Não pude ir."
Fiquei olhando pra tela sem saber o que responder.
— "Ele me viu" — pensei, o coração disparado. — "Ele tava lá."
E antes que eu conseguisse digitar qualquer coisa…
Outra mensagem.
"Amanhã eu vou. E dessa vez não vou deixar você escapar."
O celular quase caiu da minha mão.
Fiquei no escuro do quarto, o coração batendo tão forte que parecia querer sair do peito.
— "Quem é você?" — pensei, os olhos fixos na tela.
Mas no fundo…
No fundo eu já sabia quem era.
Continua...