Magnata Narrando
Desci as escadas do quarto ainda ajeitando a corrente no pescoço. A noite tava longe de acabar e o pagode continuava lá embaixo, firme e forte, do jeito que eu gosto.
— "Jéssica deve tá tomando banho ainda" — pensei, acendendo um baseado no caminho. — "Ela que desça quando quiser. Eu tenho coisa pra resolver."
Cheguei na mesa e os cria já tinham trazido mais bebida. Uma garrafa nova de whisky, gelo, copo limpo. Outro menor chegou com uma bandeja de petiscos — aquela porção de camarão que eu gosto, pastel de carne, mandioca frita.
Sentei, servi um gole e recostei na cadeira.
O movimento do pagode tava bom. Muita mina bonita, os cria rindo, o som alto. Exatamente o que eu precisava depois daquela semana de corre e tensão.
Caverna apareceu do nada, voltando de algum lugar. Vinha com uma loira do lado — não a Jéssica, outra. Ele olhou pra mim com aquela cara de interrogação, como se perguntasse "cadê minha irmã?"
Fingi demência.
Peguei o copo, bebi mais um gole. Olhei pro lado oposto, pro movimento da pista.
— "Pergunta se quiser, Caverna" — pensei, sentindo ele me analisando. — "Mas não tô afim de falar sobre isso agora. O que aconteceu, aconteceu. Ela que conte se quiser."
Ele continuou ali por perto, mas não perguntou nada. Só sentou com a loira e começou a conversar.
Eu fiquei na minha, bebendo, observando.
Foi quando o Nandinho apareceu. Moleque novo, mas responsa. Um dos que tão sempre na boca, segurando as pontas. Chegou na mesa e fez o toque — aquela saudação rápida de quem respeita mas não quer encheção.
— Tudo em cima, Nandinho? — perguntei, sem tirar os olhos do movimento.
— Tudo em cima, chefe. — ele respondeu, já pegando uma cerveja que ofereci.
— Como é que tá na barreira?
Ele deu um gole antes de responder.
— Tudo tranquilo. Dei um pulo aqui pra curtir um pouco, fazer aquele revezamento. Pra geral poder dar uma relaxada também.
Balancei a cabeça, aprovando.
— É assim que eu gosto. Trabalhar é bom, mas curtir faz parte da vida.
Nandinho riu, concordando.
— Pode crer, chefe.
A gente tava nessa quando eu vi.
Jéssica descendo as escadas.
O vestido preto curto, o cabelo loiro meio amassado, o corpo ainda com aquele mole de quem tinha acabado de sair da cama. Linda pra caralhø, mas eu não podia demonstrar nada.
Mantive a postura. A mesma de sempre. Como se tivesse ficado com qualquer outra mulher. Como se não tivesse acontecido nada demais.
Olhei de relance pro Caverna.
Ele tava olhando ela também, com aquela cara de quem tava ligado que alguma coisa tinha rolado. Mas Jéssica chegou na mesa e só falou por cima:
— Tava por aí.
— "Boa" — pensei, satisfeito. — "Ela sabe como funciona. Não força, não cria clima, não faz questão."
Caverna franziu a testa, mas não perguntou. Só continuou ali, com a loira no colo, observando.
Foi aí que a Kelly apareceu.
Índia, como todo mundo chama. Loira também, mas diferente da Jéssica. Mais oferecida, mais dada. Ela chegou dançando de leve perto da mesa, rebolando, provocando.
Jéssica olhou pra ela e soltou na hora:
— Nossa, já vi que as oferecidas chegaram.
A Índia nem respondeu, mas o Nandinho virou pra Jéssica.
— Oferecida por oferecida, de porte maior… — ele falou, com aquele sorriso de canto.
Jéssica virou na hora.
— Menor, por acaso tu tá falando de mim?
Neguinho levantou as mãos.
— Não falei de ninguém, não, né. Mas a carapuça tá aí. Quem quiser é só vestir.
O clima mudou na hora.
Caverna levantou da cadeira, empurrando a loira pro lado.
— Qual é, Nandinho? Por que tu tá falando assim com a minha irmã?
Nandinho viu a fera e recuou rápido.
— Desculpa aí, chefe. Não falei nada demais. Se ofendeu, desculpa aí.
A Índia se achegou, toda querendo causar.
— É porque aqui marmita só é taxada de marmita porque é pobre, moradora normal. Herdeira de morro não é p**a, não é marmita. Qual o nome que será que dá?
Antes dela terminar a frase, Jéssica avançou.
Não teve conversa.
Ela deu um murro na cara da Índia que jogou a mulher no chão. O copo voou, gente gritou, e as duas se engancharam no meio do pagode.
— Putä que pariu! — gritei, levantando da cadeira.
Puxei a Glock da cintura.
O primeiro tiro ecoou no meio do pagode. Gente gritou, alguns correram, outros congelaram.
Mais dois tiros pro alto.
— PARA TUDO! — gritei, a voz ecoando.
Todo mundo parou.
Jéssica e a Índia ainda tavam se agarrando no chão, mas com os tiros, até elas travaram.
— Jéssica, se fecha! — mandei. — Caverna, segura tua irmã!
Caverna avançou, puxando Jéssica pelos braços. Ela ainda tentou dar um chute, mas ele segurou firme.
Olhei pra Índia, que tava no chão, o nariz sangrando.
— Você, rala peito. Agora. Se não quiser apanhar mais.
Ela levantou rápido, os olhos arregalados, e sumiu no meio do povo.
Respirei fundo, guardando a Glock.
Foi quando o telefone vibrou no bolso.
Ignorei.
Olhei pro pagode. O clima tinha mudado completamente. Gente assustada, olhando pra mim, esperando o que ia acontecer.
O telefone vibrou de novo.
Peguei ele, olhei a tela.
"Anjo"
Travei.
— "Pørra" — pensei, sentindo o corpo mudar. — "Ela."
Fiquei um segundo olhando pro nome, a imagem dela vindo na cabeça. Cabelo cacheado. Olhos que me enfrentaram. A voz firme no telefone.
Nandinho percebeu minha reação.
— Chefe… — ele falou baixo. — Eu acho que tu vai querer atender.
Olhei pra ele.
Depois pro telefone.
O nome ainda pulsando na tela.
— "Luísa."
— Preciso atender. — falei, a voz baixa, mas firme.
Valente apareceu do nada, chegando junto com o Blindado. Os dois deviam ter ouvido os tiros e vindo ver o que tava rolando.
— Atende, chefe. — Valente falou, olhando em volta. — Pode deixar que eu cuido aqui.
— Onde cê tava, Blindado? — perguntei, já afastando.
Ele deu de ombros.
— Tava por aí.
Valente soltou uma risada curta.
— Comendo bøceta, fala logo.
— Cala a boca, Valente. — Blindado rebateu, sem paciência.
Parei e olhei pros dois.
— Cala a boca vocês dois. — mandei, a voz cortando qualquer discussão. — Resolvam isso aqui. Vou atender o telefone e já volto.
Os dois se entreolharam, mas ficaram quietos.
Afastei um pouco da mesa, longe do burburinho, e atendi.
— Alô?
Continua...