Capítulo 03 Luisa

1157 Words
Luisa Narrando Yasmim soltou uma risada curta, cheia de malícia, como se já soubesse exatamente o que estava passando pela minha cabeça. — Ah, para, Luísa. Não se faz de desentendida. — Yasmin fala mudando o tom de voz. — Eu realmente não sei do que vocês estão falando. Laura, que estava sentada na calçada, soltou uma gargalhada divertida. — Não sabe mesmo? — Laura fala com uma voz de interrogação. — Eu realmente não sei do que vocês estão falando. Yasmim se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos enquanto me encarava com um sorriso provocador. — Então deixa eu refrescar sua memória — disse ela. — Quando eu e a Laura fomos dar aquele mergulho… você ficou aqui conversando com aquele gostoso. Meu coração deu uma batida um pouco mais forte, o que me irritou imediatamente. — Não aconteceu nada — respondi, tentando parecer o mais natural possível. — Nada? — Laura falou erguendo uma sobrancelha, claramente não acreditando em mim. Yasmim cruzou os braços. — Então aquele grandão gostoso e todo tatuado que estava falando com você era fruto da nossa imaginação? Senti meu rosto esquentar um pouco, o que só piorou a situação. — Vocês estão exagerando. — Aham… — Laura respondeu, arrastando a palavra com um sorriso divertido. Yasmim continuou me observando com aquele olhar curioso que parecia enxergar mais do que eu gostaria. — Então conta — insistiu ela. — O que ele queria? Por um segundo eu hesitei. A lembrança voltou de novo na minha cabeça. O jeito calmo com que ele falou comigo. A forma como simplesmente ajudou quando a roda da cadeira afundou na areia, sem fazer drama, sem chamar atenção, sem tentar parecer herói. — Nada demais — respondi por fim. — A cadeira travou na areia e ele só ajudou. — Só isso? — Laura perguntou, claramente desconfiada. — Só. Laura inclinou um pouco a cabeça, me analisando como se estivesse tentando montar um quebra-cabeça. — Engraçado… — murmurou ela. — O quê? — Você ficou com essa cara pensativa por causa de “só isso”. Soltei um suspiro, desviando o olhar por um instante. Porque nem eu mesma sei explicar direito o motivo disso ter ficado na minha cabeça. Talvez porque esse encontro simples tivesse deixado uma sensação estranha que eu ainda não consegui definir. Laura abriu um sorriso lento e provocador. — Aí, Luísa… — disse ela, se inclinando um pouco para frente. Ela me olhou com aquele brilho curioso nos olhos antes de completar: — Não vai me dizer que você se encantou pelo grandão lá, né? Eu balancei a cabeça na mesma hora. Mas antes mesmo de responder… acabei soltando um suspiro. E, para ser sincera, aquilo me incomodou mais do que deveria. — Encantar é uma palavra muito forte — respondi, tentando disfarçar. — Eu só achei ele… diferente. Yasmim arregalou os olhos, trocando um olhar rápido com Laura antes de voltar a me encarar. — Diferente? — ela repetiu, como se tivesse acabado de ouvir uma confissão gravíssima. — Luísa, você nunca acha ninguém diferente. Você m*l olha pra cara de homem. Laura concordou, balançando a cabeça. — Ela tem razão. A última vez que você disse que alguém era "diferente" foi quando a gente viu aquele ator no cinema e você falou que ele era bonito. Mas olha que eu tô falando de tela de cinema, hein? Nem real era. Soltei uma risada sem graça, passando a mão nos cabelos. — Tá bom, vocês venceram. Ele era bonito. Muito bonito. Feliz? Yasmim abriu um sorriso vitorioso. — Muito. Mas quero mais detalhes. O que mais você reparou? Olhei para o mar por um instante, tentando organizar as palavras sem parecer que eu tinha prestado atenção demais. — Ele era alto. Muito alto. Eu precisei erguer bastante o rosto pra olhar pra ele. Tinha tatuagens nos braços, muitas. E os olhos dele eram escuros, meio profundos, sei lá. E o cheiro… — Cheiro? — Laura praticamente gritou, se inclinando tanto pra frente que quase caiu da calçada. — Tinha cheiro? Você chegou perto o bastante pra sentir cheiro? — Ele se abaixou pra ajudar com a cadeira — expliquei rápido, sentindo minhas bochechas esquentarem. — Não foi nada demais. Yasmim colocou a mão no peito, fingindo dramaticidade. — Amiga, você reparou no cheiro de um homem. Isso é gigante. Isso é histórico. Isso merece até comemoração. — Vocês duas são ridículas — falei, mas não consegui segurar o sorriso que teimava em aparecer. Laura se levantou da calçada, espreguiçando. — Bom, independente de ser ridícula ou não, a noite foi um sucesso. Pena que tá na hora de ir embora. Olhei pro relógio do celular e me surpreendi. Quase três da manhã. O tempo tinha passado voando. — Nossa, minha mãe vai me matar — murmurei, já me preparando pra ir. Yasmim se levantou e estendeu a mão pra pegar minha bolsa, um gesto tão automático entre nós que eu nem reclamei mais. — Vamos, princesa. Vou levar você pra casa antes que sua mãe mande a polícia atrás da gente. As duas caminharam ao meu lado enquanto eu guiava a cadeira pela areia mais compacta, seguindo em direção ao calçadão. A noite estava mais fria agora, o vento trazendo aquele cheiro salgado que grudava na pele. — Foi bom ter vindo — admiti baixinho, quase pra mim mesma. Yasmim me olhou de lado, um sorriso sincero no rosto. — Sabia que você ia gostar. — Não fala como se você fosse minha mãe. — Alguém precisa ser. Revirei os olhos, mas ri. Chegamos no ponto onde o carro de aplicativo que Yasmim chamou já estava esperando. Laura abriu a porta de trás enquanto eu destravava as rodas da cadeira e me transferia com um movimento treinado. Era automático pra mim: travar, apoiar, deslizar. Anos de prática. Yasmim e Laura dobraram a cadeira com cuidado e colocaram no porta-malas, um trabalho que já faziam tão naturalmente quanto eu me transferia. — Pronto — Laura falou, batendo as mãos uma na outra. — Viagem segura, princesa. — Vocês não vão entrar? — A gente vai de metrô amanhã cedo buscar o carro — explicou Yasmim. — Relaxa. Despedidas rápidas, beijos no ar, promessas de mensagens no grupo. E então o carro partiu, me levando de volta pra realidade. A chave girou na fechadura com um clique baixo. Tentei fazer o mínimo de barulho possível, mas minha mãe tem um radar pra essas coisas. Antes mesmo que eu conseguisse cruzar a sala, a luz da cozinha acendeu e ela apareceu no corredor, de camisola e cabelo preso. — Luísa? — a voz dela veio misturada entre preocupação e alívio. — Menina, quase três e meia da manhã! Eu tava doida pra ligar. — Tô bem, mãe — respondi, manobrando a cadeira em direção a ela. — Foi só a noite que se estendeu. A gente tava na praia. Continua...
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