Capítulo 04 Luísa

1320 Words
Luísa Narrando Minha mãe cruzou os braços, me analisando daquele jeito que só mãe consegue. — Na praia? Essa hora? — Tinha gente, mãe. Não era perigoso. Ela suspirou, claramente dividida entre querer brigar e ficar feliz por eu ter saído. — Pelo menos se divertiu? Sorri, e dessa vez foi sincero. — Foi bom. Diferente. Minha mãe inclinou a cabeça, curiosa. — Diferente como? Antes que eu pudesse responder, a campainha tocou. As duas se entreolharam. Minha mãe foi atender, e eu ouvi a voz familiar de Yasmim antes mesmo de ver. — Boa noite, dona Lúcia! Só vim buscar o celular que a Luísa esqueceu no carro. Minha mãe abriu a porta e Yasmim entrou como se fosse a segunda casa dela, que de certa forma era. Meu quarto sempre foi point oficial do grupo. — Lu, você largou o celular no banco — Yasmim disse, jogando o aparelho no meu colo. Mas antes que eu agradecesse, ela já estava se jogando no sofá da sala com a maior naturalidade do mundo. Minha mãe arqueou uma sobrancelha. — Yasmin, não vai pra sua casa não, menina? — Vou, dona Lúcia. Mas antes preciso de um copo d'água e de uma fofoca. Meu estômago embrulhou na hora. — Yasmim… — Fofoca? — minha mãe repetiu, o interesse instantaneamente despertado. Ela se sentou na ponta da poltrona, me encarando. — Que fofoca? Yasmim abriu um sorriso largo, daqueles que eu conhecia bem. — Dona Lúcia, a senhora não vai acreditar. A Luísa conheceu um homem hoje. — YASMIM! — Um homem? — Minha mãe arregalou os olhos, um sorriso começando a se formar. — Que homem? Onde? Como? — Na praia — Yasmim continuou, ignorando completamente minhas tentativas de interromper. — Um grandão, tatuado, todo gostoso. Atendeu ela quando a cadeira afundou na areia. Minha mãe virou o rosto tão rápido pra mim que quase ouvi o pescoço estalar. — Luísa, é verdade? Passei a mão no rosto, exausta. — Mãe, não foi nada disso que ela tá falando. Ele só ajudou com a cadeira. — E ficou olhando pra ela com um olhar diferente — Yasmim completou, cruzando as pernas no sofá como se estivesse contando a novela das nove. — E ela reparou no cheiro dele. — No cheiro? — minha mãe repetiu, claramente adorando cada segundo daquilo. — Gente, pelo amor de Deus — implorei, sentindo meu rosto queimar. Yasmim riu, satisfeita com o caos que tinha criado. — Tô só contando a verdade, dona Lúcia. A menina passou a noite inteira com a cabeça longe por causa do tal do desconhecido. Minha mãe me olhou com um brilho nos olhos que eu não via há muito tempo. Era daqueles olhares misturados entre surpresa, alegria e aquela esperança silenciosa que toda mãe carrega. — Luísa… — ela começou, mas eu a interrompi antes. — Mãe, não foi nada. Gente, pelo amor de Deus, eu tô numa cadeira de rodas. Que homem vai se interessar por mim? O silêncio que seguiu foi pesado por um segundo. Foi Yasmim quem quebrou ele, se levantando do sofá e vindo na minha direção. Ela se agachou na frente da cadeira, me olhando séria. — Luísa, escuta aqui. Você tá viva, você é linda, você é inteligente, você é engraçada. A cadeira não apaga nada disso. Balancei a cabeça, um sorriso amargo nos lábios. — Mais ou menos. Porque quando alguém me vê, a primeira coisa que nota é a cadeira. Depois pensa "coitadinha". Depois desvia o olho. Essa é a regra. — Esse homem não desviou — Yasmim rebateu na hora. — Você mesma falou que ele te olhou diferente. Abri a boca pra responder, mas fechei de novo. Porque ela tinha razão. Ele não desviou. Ele não teve pena. Ele só me olhou. Minha mãe se levantou da poltrona e veio até mim, colocando a mão no meu ombro. — Filha, você merece ser vista. E não só pela cadeira. Por quem você é. Desviei o olhar, engolindo seco. — Não tô afim de criar expectativa, mãe. Foi um encontro de cinco minutos com um estranho. Provavelmente nunca mais vou ver ele na vida. Yasmim abriu um sorriso misterioso. — Ou talvez veja sim. Olhei feio pra ela. — O que significa esse sorriso? — Nada, nada — ela respondeu, se levantando e indo em direção à porta. — Vou nessa, dona Lúcia. Foi bom ver a senhora. Lu, amanhã a gente se fala. Ela saiu antes que eu pudesse questionar. Minha mãe me olhou, ainda com aquele brilho nos olhos. — Vai dormir, filha. Amanhã a gente conversa melhor. Balancei a cabeça, indo em direção ao meu quarto. Mas enquanto rolava pela noite, tentando encontrar sono, uma coisa não saía da minha cabeça. Aquele olhar. O cheiro. O jeito que ele disse "calma" antes mesmo de me tocar. Balancei a cabeça, irritada comigo mesma. — Para com isso, Luísa — murmurei no escuro. — Não vai dar em nada. Mas meu coração, teimoso, não pareceu acreditar muito nisso. Deitei na cama depois de me arrumar, o corpo ainda desperto mesmo com a hora avançada. O quarto estava escuro, apenas a luz fraca do poste lá fora entrando pela fresta da cortina. Fiquei olhando pro teto por alguns minutos, tentando forçar o sono a vir. Não veio. Em vez disso, veio ele. Fechei os olhos e a imagem se formou sozinha, nítida demais pra ser coincidência. Ele se aproximando da cadeira. O movimento calmo, seguro, como se nada no mundo pudesse apressar ele. O jeito que segurou a cadeira com firmeza, sem hesitar, sem perguntar se podia. Só fez. Revirei na cama, apertando o travesseiro. Na minha mente, ele ainda estava ali. Os olhos escuros me encarando de volta quando eu olhei pra trás. A altura dele contra a luz do poste. As tatuagens escuras descendo pelo braço quando ele segurou a cadeira. E o cheiro. Incrível como um detalhe tão b***a ficou gravado. Puxei o cobertor até o queixo, irritada comigo mesma. — Pelo amor de Deus, Luísa — sussurrei no escuro. — Foi um desconhecido. Mas quando fechei os olhos de novo, ele ainda estava lá. Me observando. Como se esperasse alguma coisa. Balancei a cabeça, virei de lado e forcei o sono. Mas no fundo, bem no fundo, uma parte de mim sabia que aquela noite tinha mudado alguma coisa. E que, de algum jeito, aquele homem ia voltar. O sonho veio sem avisar. Eu estava no playground do prédio, naquele balanço que não uso desde criança. O vento soprava frio, mas não mexia nos meus cabelos. Nada se mexia. Era como se o mundo tivesse pausado. E então ele apareceu. Simplesmente surgiu do nada, parado na minha frente com aquele olhar escuro e profundo que não saía da minha cabeça desde a praia. As tatuagens nos braços pareciam maiores agora, mais escuras. Ele não falava nada. Só me observava, daquele jeito que parecia enxergar dentro de mim. Meu coração acelerou no sonho. — O que você quer? — perguntei, mas minha voz não saiu. Ele se aproximou. Devagar. Decidido. Como se já soubesse exatamente o que ia fazer. Parou na minha frente, tão perto que eu conseguia sentir o calor do corpo dele. O cheiro. Aquele mesmo da praia. A mão dele ergueu devagar, os dedos tocando meu rosto com uma leveza que não combinava com o tamanho dele. Meu queixo foi erguido bem devagar, me forçando a olhar nos olhos dele. — Luísa — ele murmurou, e foi a primeira vez que ouvi minha própria voz saindo da boca dele. Ele inclinou o rosto. Os lábios dele encostaram nos meus. Acordei com o coração disparado, o corpo quente e a respiração presa na garganta. O quarto escuro. Silencioso. Vazio. Levei a mão aos lábios, como se pudesse sentir o que não aconteceu. Eu fiquei paralisada, tentando entender por que o sonho parecia tão real. Continua...
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