Paulinha Narrando
Ela me olhou com aquela expressão de quem já viu essa novidade se repetir várias vezes.
— Paulinha… esse homem tá querendo ser pai desde que eu me conheço por gente. — ela falou, e não tava errada.
— Eu sei. — respondi baixinho.
— Então por que tu não resolve isso logo? — Amanda perguntou, direta como sempre.
Encostei na cadeira.
— Porque eu não quero fazer as coisas correndo, Amanda. — falei, tentando explicar algo que parecia simples pra todo mundo, menos pra mim.
Ela ficou me olhando, esperando eu continuar.
— Eu gosto do que eu faço. Eu lutei muito pra chegar onde cheguei. Agora minha agenda tá cheia, contratos fechados… não posso simplesmente parar do nada. — desabafei.
— Mas tu quer ser mãe? — Amanda perguntou, direto ao ponto.
Olhei pra pista de dança antes de responder.
— Quero. — falei, e dessa vez senti firmeza na minha própria voz.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Então qual é o problema? — Amanda insistiu.
— O problema é o tempo. — respondi, sentindo que essa era a resposta mais honesta que eu podia dar.
Ela ficou pensativa.
— E o Vitor não entende isso? — Amanda perguntou, com um tom mais calmo agora.
Soltei um riso pequeno.
— Pra ele é simples. Ele acha que é só engravidar e pronto. — falei, balançando a cabeça.
— Homem é assim mesmo. — Amanda concordou.
— Mas eu não sou assim. — rebati.
Olhei pra ela.
— Eu quero fazer as coisas no momento certo. Quero poder curtir gravidez sem preocupação de campanha, contrato, prazo. — expliquei, esperando que ela entendesse.
Amanda cruzou os braços.
— Então por que tu não fala isso desse jeito pra ele? — ela questionou.
— Porque ele escuta metade e já se irrita. — falei, lembrando das últimas discussões.
Ela riu.
— Isso é verdade. — Amanda concordou.
Peguei a cerveja e dei um gole longo.
— Eu amo aquele homem, Amanda. Muito. — falei, sentindo meu peito apertar.
— Eu sei. — ela respondeu suave.
— Mas às vezes parece que ele esquece que eu também tenho sonhos. — desabafei.
Ela me encarou com um sorriso leve.
— Vocês dois são teimosos. — Amanda falou.
— Muito. — concordei.
— Mas também se amam pra c*****o. — ela completou.
Olhei em volta procurando ele.
Lá do outro lado do pagode, Vitor tava com os meninos, rindo de alguma coisa.
Meu peito apertou um pouco mais.
— Ele vai ser um pai incrível. — falei, quase sem perceber que tava pensando alto.
Amanda sorriu.
— Então um dia esse bebê vem. — ela falou com convicção.
Dei um gole na cerveja.
— Vai vir. — respondi.
— Só que no tempo certo. — completei.
Ela levantou a garrafa dela.
— Então brinda comigo. — Amanda me provocou.
— Pelo quê? — perguntei.
Ela piscou.
— Pelo bebê que ainda nem existe… mas que já tá dando trabalho. — Amanda soltou a frase e eu não segurei o riso.
— Tu é doida. — falei rindo.
— Doida, mas tô certa. — ela rebateu.
Ficamos em silêncio por um momento, observando o movimento do pagode.
— Amanda… — chamei.
— Fala. — ela respondeu.
— Você acha que eu tô errada? — perguntei, precisando ouvir a opinião dela.
Ela me olhou com calma.
— Acho que não existe certo ou errado nisso. — Amanda falou.
— Como assim? — questionei.
— Cada um tem seu tempo. Você quer ser mãe, mas quer também realizar seus sonhos. Isso não tem nada de errado. — ela explicou.
Respirei fundo.
— E o Vitor? — perguntei.
— O Vitor te ama. Ele vai entender. — Amanda respondeu com segurança.
— Ele não demonstra isso hoje. — falei, lembrando da cara fechada dele ao sair de casa.
Ela deu de ombros.
— Homem é bicho estranho. Quando não consegue o que quer, fecha a cara. — Amanda falou.
— Ele quase saiu de casa sozinho. — falei olhando para ela.
— Mas não saiu. — Amanda falou, me fazendo pensar.
Olhei pra ela.
— Ficou te esperando. — ela completou.
— Porque eu disse que ia. — respondi.
— Exato. — ela confirmou.
Ela se inclinou pra frente.
— Olha, Paulinha. Vou te falar uma coisa. — Amanda começou.
— Fala. — respondi, curiosa.
— O Vitor não é qualquer homem. Ele é cria do morro, tem responsabilidade, cuida de você, respeita sua mãe, trabalha igual um condenado. Um homem desses querer um filho… é porque ele quer construir algo com você. — Amanda falou e cada palavra dela fazia sentido.
— Eu sei. — admiti.
— Então conversa. De verdade. Sem briga. — ela pediu.
Pensei nas palavras dela.
— Vou tentar. — prometi.
Ela sorriu.
— É tudo que peço. — Amanda falou.
Levantei a garrafa de novo.
— Pelo bebê, então. — brinquei.
Ela riu.
— Pelo bebê. — Amanda repetiu.
No fundo, eu sei que ela está certa.
O problema nunca foi não querer. O problema sempre foi quando.
Eu sei… vamos encontrar esse tempo juntos.
— Vamos esquecer as coisas tristes, Amanda. — falei, me levantando da cadeira com a energia renovada. — A vida não é movida só com pensamentos negativos.
Amanda arregalou os olhos.
— Agora sim! Essa é a Paulinha que eu conheço! — ela exclamou, já se levantando também.
Puxei ela pelo braço e fomos direto pro meio do espaço onde as mina já tavam dançando soltas, sem preocupação. O pagode tava num pico bom, aquele que faz o corpo responder sozinho. Comecei a rebolada devagar, sentindo a música entrar pelos ossos.
Amanda entrou na onda comigo, as duas se olhando e rindo igual doida.
— Isso aqui que é vida! — ela gritou no meu ouvido, porque o som tava alto.
Balancei os braços, soltei o cabelo, deixei os cachos voarem pro lado. A noite era nova e eu não ia deixar briga estragar meu rolê. Não podia.
Em poucos minutos, mais mina chegou junto. A gente formou uma roda, cada uma com seu rebolado, cada uma no seu jeito. Era só alegria. Só suor. Só som.
Foi quando a Jéssica apareceu do nada com dois copos na mão.
— Ó as rainhas! — ela disse, entregando uma pra mim e outra pra Amanda.
Peguei o copo agradecendo com o olhar. Jéssica é irmã do Caveira, mas não tem nada a ver com o mundão. É suave, tranquila, daquelas que tão sempre junto.
Ela chegou perto, já me analisando.
— Posso saber o motivo dessa cara feia? — Jéssica perguntou, franzindo a testa.
— Depois a gente conversa. — falei, virando o copo. — Vamos curtir agora.
Ela fez cara de quem não engoliu muito bem, mas deixou passar.
Foi aí que eu senti.
Aquele calor nas costas.
O cheiro.
O braço envolvendo minha cintura por trás.
O corpo grande colado no meu.
— Então já é linda parada… imagina balançando essa b***a. — a voz dele sussurrou no meu ouvido, grave, quente, fazendo meu corpo todo arrepiar.
Virei o rosto devagar.
Vitor.
Meu homem.
— Já passou a raiva, meu amor? — perguntei, os olhos nos olhos dele.
Ele me puxou mais pra perto.
— Tô com raiva não. — ele falou, a boca perto da minha orelha de novo. — Só tô bolado.
Mordi o canto da boca.
— Mesma coisa.
Ele riu baixinho.
— É diferente.
— Então me mostra a diferença. — provoquei.
Ele me apertou mais forte.
Continua....