Capítulo 13 Paulinha

1258 Words
Paulinha Narrando Ela me olhou com aquela expressão de quem já viu essa novidade se repetir várias vezes. — Paulinha… esse homem tá querendo ser pai desde que eu me conheço por gente. — ela falou, e não tava errada. — Eu sei. — respondi baixinho. — Então por que tu não resolve isso logo? — Amanda perguntou, direta como sempre. Encostei na cadeira. — Porque eu não quero fazer as coisas correndo, Amanda. — falei, tentando explicar algo que parecia simples pra todo mundo, menos pra mim. Ela ficou me olhando, esperando eu continuar. — Eu gosto do que eu faço. Eu lutei muito pra chegar onde cheguei. Agora minha agenda tá cheia, contratos fechados… não posso simplesmente parar do nada. — desabafei. — Mas tu quer ser mãe? — Amanda perguntou, direto ao ponto. Olhei pra pista de dança antes de responder. — Quero. — falei, e dessa vez senti firmeza na minha própria voz. Ela arqueou a sobrancelha. — Então qual é o problema? — Amanda insistiu. — O problema é o tempo. — respondi, sentindo que essa era a resposta mais honesta que eu podia dar. Ela ficou pensativa. — E o Vitor não entende isso? — Amanda perguntou, com um tom mais calmo agora. Soltei um riso pequeno. — Pra ele é simples. Ele acha que é só engravidar e pronto. — falei, balançando a cabeça. — Homem é assim mesmo. — Amanda concordou. — Mas eu não sou assim. — rebati. Olhei pra ela. — Eu quero fazer as coisas no momento certo. Quero poder curtir gravidez sem preocupação de campanha, contrato, prazo. — expliquei, esperando que ela entendesse. Amanda cruzou os braços. — Então por que tu não fala isso desse jeito pra ele? — ela questionou. — Porque ele escuta metade e já se irrita. — falei, lembrando das últimas discussões. Ela riu. — Isso é verdade. — Amanda concordou. Peguei a cerveja e dei um gole longo. — Eu amo aquele homem, Amanda. Muito. — falei, sentindo meu peito apertar. — Eu sei. — ela respondeu suave. — Mas às vezes parece que ele esquece que eu também tenho sonhos. — desabafei. Ela me encarou com um sorriso leve. — Vocês dois são teimosos. — Amanda falou. — Muito. — concordei. — Mas também se amam pra c*****o. — ela completou. Olhei em volta procurando ele. Lá do outro lado do pagode, Vitor tava com os meninos, rindo de alguma coisa. Meu peito apertou um pouco mais. — Ele vai ser um pai incrível. — falei, quase sem perceber que tava pensando alto. Amanda sorriu. — Então um dia esse bebê vem. — ela falou com convicção. Dei um gole na cerveja. — Vai vir. — respondi. — Só que no tempo certo. — completei. Ela levantou a garrafa dela. — Então brinda comigo. — Amanda me provocou. — Pelo quê? — perguntei. Ela piscou. — Pelo bebê que ainda nem existe… mas que já tá dando trabalho. — Amanda soltou a frase e eu não segurei o riso. — Tu é doida. — falei rindo. — Doida, mas tô certa. — ela rebateu. Ficamos em silêncio por um momento, observando o movimento do pagode. — Amanda… — chamei. — Fala. — ela respondeu. — Você acha que eu tô errada? — perguntei, precisando ouvir a opinião dela. Ela me olhou com calma. — Acho que não existe certo ou errado nisso. — Amanda falou. — Como assim? — questionei. — Cada um tem seu tempo. Você quer ser mãe, mas quer também realizar seus sonhos. Isso não tem nada de errado. — ela explicou. Respirei fundo. — E o Vitor? — perguntei. — O Vitor te ama. Ele vai entender. — Amanda respondeu com segurança. — Ele não demonstra isso hoje. — falei, lembrando da cara fechada dele ao sair de casa. Ela deu de ombros. — Homem é bicho estranho. Quando não consegue o que quer, fecha a cara. — Amanda falou. — Ele quase saiu de casa sozinho. — falei olhando para ela. — Mas não saiu. — Amanda falou, me fazendo pensar. Olhei pra ela. — Ficou te esperando. — ela completou. — Porque eu disse que ia. — respondi. — Exato. — ela confirmou. Ela se inclinou pra frente. — Olha, Paulinha. Vou te falar uma coisa. — Amanda começou. — Fala. — respondi, curiosa. — O Vitor não é qualquer homem. Ele é cria do morro, tem responsabilidade, cuida de você, respeita sua mãe, trabalha igual um condenado. Um homem desses querer um filho… é porque ele quer construir algo com você. — Amanda falou e cada palavra dela fazia sentido. — Eu sei. — admiti. — Então conversa. De verdade. Sem briga. — ela pediu. Pensei nas palavras dela. — Vou tentar. — prometi. Ela sorriu. — É tudo que peço. — Amanda falou. Levantei a garrafa de novo. — Pelo bebê, então. — brinquei. Ela riu. — Pelo bebê. — Amanda repetiu. No fundo, eu sei que ela está certa. O problema nunca foi não querer. O problema sempre foi quando. Eu sei… vamos encontrar esse tempo juntos. — Vamos esquecer as coisas tristes, Amanda. — falei, me levantando da cadeira com a energia renovada. — A vida não é movida só com pensamentos negativos. Amanda arregalou os olhos. — Agora sim! Essa é a Paulinha que eu conheço! — ela exclamou, já se levantando também. Puxei ela pelo braço e fomos direto pro meio do espaço onde as mina já tavam dançando soltas, sem preocupação. O pagode tava num pico bom, aquele que faz o corpo responder sozinho. Comecei a rebolada devagar, sentindo a música entrar pelos ossos. Amanda entrou na onda comigo, as duas se olhando e rindo igual doida. — Isso aqui que é vida! — ela gritou no meu ouvido, porque o som tava alto. Balancei os braços, soltei o cabelo, deixei os cachos voarem pro lado. A noite era nova e eu não ia deixar briga estragar meu rolê. Não podia. Em poucos minutos, mais mina chegou junto. A gente formou uma roda, cada uma com seu rebolado, cada uma no seu jeito. Era só alegria. Só suor. Só som. Foi quando a Jéssica apareceu do nada com dois copos na mão. — Ó as rainhas! — ela disse, entregando uma pra mim e outra pra Amanda. Peguei o copo agradecendo com o olhar. Jéssica é irmã do Caveira, mas não tem nada a ver com o mundão. É suave, tranquila, daquelas que tão sempre junto. Ela chegou perto, já me analisando. — Posso saber o motivo dessa cara feia? — Jéssica perguntou, franzindo a testa. — Depois a gente conversa. — falei, virando o copo. — Vamos curtir agora. Ela fez cara de quem não engoliu muito bem, mas deixou passar. Foi aí que eu senti. Aquele calor nas costas. O cheiro. O braço envolvendo minha cintura por trás. O corpo grande colado no meu. — Então já é linda parada… imagina balançando essa b***a. — a voz dele sussurrou no meu ouvido, grave, quente, fazendo meu corpo todo arrepiar. Virei o rosto devagar. Vitor. Meu homem. — Já passou a raiva, meu amor? — perguntei, os olhos nos olhos dele. Ele me puxou mais pra perto. — Tô com raiva não. — ele falou, a boca perto da minha orelha de novo. — Só tô bolado. Mordi o canto da boca. — Mesma coisa. Ele riu baixinho. — É diferente. — Então me mostra a diferença. — provoquei. Ele me apertou mais forte. Continua....
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