Magnata Narrando
Nandinho ainda tava parado na minha frente quando eu dobrei o papel com as informações da garota e enfiei no bolso da calça. O moleque ficou me olhando, meio sem saber se falava mais alguma coisa ou se vazava. Eu levantei o olhar devagar pra ele.
— Já acabou o show? — falei num tom seco.
Ele piscou duas vezes.
— Já, chefe.
— Então vai procurar o que fazer. A boca não gira sozinha não.
Nandinho assentiu rápido.
— Tá certo, chefe.
Ele virou e saiu andando quase trotando, como todo moleque faz quando sente que já ficou tempo demais perto de mim. Fiquei parado ali alguns segundos olhando o movimento da boca. Gente indo e vindo, rádio chiando, moto passando, cria trocando ideia. Tudo funcionando do jeito que sempre funcionou.
Mas minha cabeça… tava em outro lugar.
Soltei um suspiro baixo e caminhei até a cadeira de plástico encostada perto da parede. Me sentei, puxei um baseado do bolso e acendi devagar. A primeira tragada veio pesada, a fumaça queimando o peito antes de sair pelo nariz.
Fiquei olhando pro nada enquanto a mente começava a viajar.
A imagem voltou.
A cadeira de rodas. A roda afundando na areia. O barulho do mar quebrando perto. O vento batendo no cabelo dela.
Balancei a cabeça irritado comigo mesmo.
— p***a…
Passei a mão pelo rosto.
— Já tive mulher pra caralhø nessa vida… — murmurei baixo. — Qualquer mulher que eu quiser eu tenho.
Puxei mais um trago do baseado.
— Então por que essa tá me tirando o juízo?
Soltei a fumaça devagar.
— Alguma coisa nos olhos dela…
Fiquei alguns segundos em silêncio.
— Mexeu comigo.
Aquilo me irritou ainda mais. Porque eu não gosto de coisa que eu não entendo. E aquela sensação ali, crescendo no peito sem avisar, sem pedir licença, sem se importar com quem eu sou ou o que eu represento… era exatamente o tipo de bagulho que me tirava do sério.
Peguei o celular do bolso e fiquei olhando pra tela. O número dela tava ali, anotado junto com as outras informações que o Nandinho puxou. Fiquei alguns segundos encarando aquilo. Depois apertei o botão de ligar.
O telefone começou a chamar.
Uma vez. Duas. Três.
Quando ela atendeu, eu não falei nada. Fiquei em silêncio.
Ligação On
— Alô? — a voz dela saiu do outro lado da linha.
Continuei quieto.
— Alô?
Mais silêncio.
— Olha… se você for mudo, manda uma carta — disse ela num tom meio impaciente. — Porque ficar respirando no telefone é meio estranho.
Eu não aguentei. Soltei uma gargalhada curta.
E desliguei.
Ligação Off
Fiquei olhando pro celular na minha mão por alguns segundos enquanto a fumaça do baseado ainda subia devagar no ar.
— Maluca…
Levantei da cadeira e fui até a mesa de madeira no canto da sala da boca onde ficava um computador que a gente usa pra algumas paradas. Sentei, liguei a máquina e comecei a digitar as informações que o Nandinho tinha me passado.
Nome. Endereço. Faculdade. Tudo.
Fiquei olhando aquilo na tela como se estivesse tentando entender alguma coisa que ainda não tava clara. Depois peguei o celular de novo. E liguei outra vez.
Dessa vez ela atendeu mais rápido.
Ligação On
— Alô?
— Chegou bem em casa? — perguntei direto.
Silêncio.
— Quem tá falando? — ela perguntou baixo.
— Só responde a pergunta.
— Você tava me observando?
— Chegou bem em casa? — repeti com a voz firme.
Do outro lado da linha veio um suspiro.
— Cheguei.
Puxei o baseado e soltei a fumaça devagar.
— Ótimo.
— Agora responde você — ela disse. — Você tava na praia ontem?
— Isso não interessa.
— Interessa sim.
— Não interessa.
— Então por que você tá ligando pro meu número e sendo grosso desse jeito?
Eu soltei uma gargalhada baixa. Grosso. Ela não fazia ideia.
— Grosso ela não viu o que eu tenho de grosso — pensei comigo mesmo, divertido com a própria ideia enquanto o pensamento passava rápido.
— Falou o quê? Tá rindo do quê? — ela perguntou.
— Nada.
Fiquei alguns segundos em silêncio antes de falar de novo.
— Tem horas que eu reclamo da minha vida.
— E…?
— Mas ontem vendo você tentar entrar na água…
Parecia que eu mesmo tava pensando enquanto falava.
— Percebi uma coisa.
— O quê?
— Que p***a… viver em cima de duas pernas… com dois braços… podendo fazer o que eu quiser…
Dei mais um trago no baseado.
— Não é tão r**m quanto eu sempre falei.
Silêncio.
— Porque pode ter gente pior que eu do outro lado da linha.
Ela soltou uma gargalhada.
— Por que você acha que eu tô pior do que você?
Franzi a testa.
— Ué…
— Eu não tô não — ela continuou rindo leve. — Tô muito bem, obrigada.
— Mas você…
— Tá, eu não posso andar — ela interrompeu. — Tenho minhas limitações.
A voz dela continuava tranquila.
— Mas eu não reclamo da vida.
Fiquei em silêncio ouvindo.
— E muito menos tô pior que você — ela completou.
Encostei na cadeira.
— Se você tem duas pernas pra se sustentar e ainda acha que tá pior que eu…
Ela riu de novo.
— Então o problema é com você.
Aquilo me pegou desprevenido.
— E não comigo.
Fiquei alguns segundos quieto. Depois soltei um pequeno sorriso.
— Tu fala pra caralhø, sabia? — quebrei o silêncio.
— E você fala pouco demais. — Respondi.
— Eu gosto de ouvir.
— Mentira. — Ela soltou me deixando intrigado.
— Por quê? — mandei a pergunta querendo saber o porquê.
— Porque você passou a primeira ligação inteira mudo.
Acabei rindo.
A conversa começou a fluir como se a gente se conhecesse há anos. Coisa estranha pra caralhø. Eu respondia uma coisa, ela respondia outra, e quando vi já tava trocando ideia com ela como se fosse um parceiro antigo de resenha.
Até que ela perguntou:
— Mas vem cá…
— Fala.
— Quem é você? — ela meteu a pergunta e eu fiquei em silêncio. — Onde você achou meu número?
Soltei a fumaça devagar.
— E como você sabe que eu tava na praia ontem? — ela continuou. — Foi você que tava lá?
Dei um meio sorriso.
— Deixa baixo. — Soltei lembrando do cheiro dela.
— Deixa baixo? — ela perguntou.
— É.
— Quem é você então?
Olhei pro teto antes de responder.
— Só um anjo.
Do outro lado da linha ela deu uma gargalhada.
— Um anjo?
— Uhum.
— Desde quando anjo tem um timbre de voz grosso desse jeito? — ele meteu essa pørra de novo.
Soltei outra gargalhada.
— Qual foi?
— Nada não.
Mas dentro da minha cabeça veio o pensamento na hora.
Se ela soubesse o que é grosso de verdade… não repetia isso.
— Tá rindo de quê? — ela perguntou.
— Nada.
Ela voltou pro assunto.
— Agora responde direito.
— O quê?
— Onde você achou meu número? — ela voltou perguntar.
— Isso não interessa.
— Interessa sim. — Falou e dessa vez com o tom de voz diferente.
— Não interessa.
— Interessa sim, foi você quem veio falar comigo.
— Você atendeu porque quis. — Respondi e veio o silêncio.
No segundo seguinte…
TU.
Ela desligou.
Ligação Off
Fiquei olhando pra tela do celular enquanto o som de chamada encerrada ecoava no aparelho. Foi rápido. Seco. Ela não hesitou um segundo.
— Séria mesmo…
O telefone ainda fazia aquele barulhinho irritante.
Levantei a mão.
E joguei o celular com força na parede.
O aparelho bateu e caiu no chão, a tela estilhaçada.
Peguei o resto do baseado, dei a última tragada e apaguei no cinzeiro. Encostei na cadeira olhando pro teto. A mente rodando de novo.
“Quem disse que a vida dela é r**m só porque ela tá numa cadeira de roda?”
As palavras dela voltaram na minha cabeça.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
Pensando.
Talvez ela não tivesse falado aquilo só pra mim. Talvez fosse a forma que ela criou… pra se proteger do mundo.
— Pørra… — murmurei baixo.
Ela me desligou na cara. E eu tô aqui, sentado, pensando nela de novo.
Isso não é normal.
Isso não sou eu.
Levantei da cadeira decidido a esquecer aquilo. Peguei o rádio na cintura.
— Quem tiver na contenção da laje, responde.
— Aqui é o Biel, chefe.
— Vou subir.
— Tá limpo.
Guardei o rádio e caminhei em direção à escada. Mas antes de começar a subir, parei.
O papel com o endereço dela ainda estava no meu bolso.
Passei a mão sentindo a dobra.
E uma voz dentro de mim falou alguma coisa que eu tentei ignorar.
Mas não consegui.
— Ela não quer me ver? — pensei comigo mesmo, os olhos fixos no nada. — Vai ver.
Continuei subindo.
Mas a imagem dela não subiu comigo.
Ficou lá embaixo.
Me esperando.
Continua...