Valente Narrando
Papo reto… acordei bolado.
Mas bolado nível máximo mesmo, daquele jeito que qualquer coisa atravessada já dá vontade de mandar todo mundo se füder. Levantei da cama e a Paula nem tava mais lá. Só o cheiro dela no travesseiro e o silêncio do quarto.
— "Ela levantou sem falar nada" — pensei, passando a mão no rosto. — "Já sabe que eu tô bolado e preferiu não encarar de manhã."
Fui direto pro closet. Precisava me arrumar. Sexta-feira no morro é dia sagrado e o pagode já ia começar. Mas minha cabeça não tava na festa. Minha cabeça tava nela. Paulinha.
Passei a mão pela barba devagar, encarando o espelho. Meu reflexo voltou o olhar na mesma intensidade.
— "Pørra…" — pensei, os olhos fixos na própria imagem. — "Toda semana a mesma novela. Será que ela não enxerga o quanto isso é importante pra mim?"
Essa parada de filho tá virando assunto recorrente. E toda semana era a mesma resposta. "Agora não." "Depois." "Na hora certa."
Só que, na moral? Eu já tava cansado desse "depois".
— "Depois quando?" — questionei mentalmente, pegando a camisa preta. — "Depois que a carreira dela bombar? Depois que ela se sentir pronta? Depois que for tarde demais?"
Terminei de colocar o relógio no pulso e fiquei parado olhando minhas tatuagens refletidas no espelho. Cada uma delas contava um pedaço da minha história. E todas elas tinham um espaço reservado pro dia que eu fosse pai.
— "Meu sonho sempre foi ter um moleque" — pensei, ajustando a corrente no pescoço. — "Ensinar a ser homem. Ensinar a viver nesse mundo doido. Mostrar que o morro não define quem a gente é."
Meu sonho sempre foi ser pai. Desde moleque. E não é porque eu sou cria do morro que não posso ter sonho não. Muito pelo contrário. Quero um filho pra ensinar a ser homem. Pra ensinar a viver nesse mundo doido.
Só que Paulinha parece que não entende isso.
Ou pior…
Entende e foge.
— "Tu acha que eu não percebo, né…" — falei baixo, balançando a cabeça. — "Tu acha que eu não sei que é por causa do trampo?"
Eu quase tenho certeza que é por causa da carreira dela. Ela nunca falou diretamente. Mas eu conheço minha mulher. Conheço cada olhar, cada silêncio, cada desvio de assunto.
— "Ela desvia o olhar toda vez que eu toco no assunto" — lembrei, sentindo um aperto no peito. — "Como se fosse um tema proibido."
Ela acha que eu não sei. Ela acha que eu não percebo que é por causa do trabalho dela, dessa vida que ela construiu antes de mim.
E o pior?
Ela nem precisa trabalhar.
— "Isso que me quebra" — pensei, fechando os olhos por um segundo. — "Ela pode fazer o que quiser, quando quiser. E ainda assim escolhe o trabalho."
Eu banco tudo. Sempre banquei. Mas também nunca quis tirar dela o direito de correr atrás das coisas dela. Quando eu conheci Paulinha… ela já era independente. E foi justamente isso que me fez olhar pra ela diferente.
— "Foi a independência dela que me atraiu" — refleti. — "Mas agora é a mesma independência que afasta a gente de ter um filho."
Mas pørra…
— "Filho não é prisão" — pensei, passando a mão no rosto. — "É família. É continuar. É deixar algo no mundo. É provar que, mesmo vindo do caos, a gente pode construir algo bonito."
Respirei fundo e saí do closet.
E foi exatamente nessa hora que dei de cara com ela saindo do banheiro.
Cabelo molhado, toalha nos ombros, aquele perfume que eu reconheceria em qualquer lugar. Linda pra c*****o. Linda demais.
— "Meu Deus, como essa mulher é linda" — pensei, sentindo o coração acelerar mesmo depois de anos juntos. — "Por que tem que ser tão difícil?"
Mas nesse momento… eu tô muito bolado.
— Paula.
Ela parou na hora. Franziu a testa.
— "Paula?" — questionei mentalmente, vendo a expressão dela mudar. — "Ela sentiu. Ela sabe que quando eu chamo assim é porque tem algo errado."
— Me chamando de Paula?
Os olhos dela se estreitaram.
— Desde quando você me chama assim? Sempre foi Paulinha.
Passei por ela pegando a corrente em cima da cômoda.
— Fica na tua, tá pô.
Ela abriu a boca indignada.
— "Ela não vai deixar passar" — pensei, sentindo o clima esquentar. — "Ela nunca deixa."
— Não… tu só pode tá de lombra. Tá de curtição com a minha cara?
— Tô não.
Ela cruzou os braços.
— "Braços cruzados" — observei. — "Sinal de que ela já entrou em modo de defesa."
— Tu vai ficar bolado comigo só porque eu não quero ter filho agora?
Virei de frente pra ela.
Olhei nos olhos dela. Nos olhos dela que eram a primeira coisa que me fisgou quando a gente se conheceu. E falei o que tava entalado.
— Tô ligado que tu é linda.
Ela me olhou confusa.
— "Ela não esperava por essa" — percebi. — "Pensei que fosse partir pra briga, mas vim pelo afeto."
— Mas tu vai ficar mais perfeita ainda carregando meu filho na barriga.
Silêncio.
O quarto ficou quieto por uns segundos. O som do morro lá fora parecia ter sumido.
— "Fala alguma coisa, Paulinha" — implorei mentalmente. — "Me dá qualquer sinal que você também quer isso."
Ela respirou fundo.
— Na hora certa ele vem.
Balancei a cabeça rindo de lado. Daquele jeito que a gente ri quando não quer explodir.
— "Hora certa" — repeti amargamente dentro de mim. — "Sempre a p***a da hora certa. Como se o tempo esperasse a gente."
— Essa tal de hora certa nunca chega, né?
Ela suspirou.
— Vitor…
— Não me chama assim.
— Então para de me chamar de Paula.
Peguei o boné.
— Tô metendo o pé.
Ela arregalou os olhos.
— "Ela não esperava que eu fosse embora assim" — notei. — "Ela acha que eu sempre vou ficar."
— Tu não vai me esperar pro pagode?
Parei na porta. Olhei pra ela de canto.
— Ué… tu vai?
Ela arqueou a sobrancelha.
— Você disse que não ia.
Ela pegou a bolsa.
— Vou sim.
Chegou perto de mim e falou baixo:
— Homem meu não anda por aí sozinho não.
Balancei a cabeça, rindo de leve.
— Tu é doida.
Mas no fundo?
— "Eu amo essa mulher pra c*****o" — pensei, vendo ela passar por mim. — "Mas tem hora que ela tira qualquer um do sério. E o pior é que mesmo bolado, mesmo irritado, mesmo tudo… eu ainda quero ela."
Ela saiu na frente, indo encontrar as amigas. Eu fiquei ali mais um segundo, observando.
— "Um dia, Paulinha" — prometi a mim mesmo. — "Um dia você vai querer tanto quanto eu. E nesse dia… a hora certa vai chegar."
Pra quem não me conhece…
Meu nome é Vitor. Mas ninguém me chama assim. Aqui no morro todo mundo me conhece como Valente. Tenha 30 anos de idade e 15 anos de corre.
Tenho um metro e oitenta e seis, corpo grande, musculoso, cheio de tatuagem marcando a pele. Sou n***o mesmo, daqueles que quando entra no lugar o povo já abre caminho. Não é arrogância. É respeito.
— "Respeito que eu conquistei" — refleti, descendo as escadas. — "Não veio de graça. Veio com sangue, suor e decisão."
Eu cresci nesse morro. E comecei a ir pra boca ainda novo… igual meu pai. Foi ali que o nome Valente nasceu. Porque eu nunca arreguei pra nada.
Hoje? Sou o braço direito do Magnata. Quando ele tá resolvendo as paradas grandes do comando… sou eu que seguro os corre do morro. Sou eu que vejo movimento. Sou eu que organizo tudo.
— "No morro, meu nome pesa" — pensei, acendendo um baseado. — "Todo mundo respeita. Todo mundo obedece. Mas em casa… em casa eu sou só o Vitor que ama a Paulinha."
Mas fora do morro?
Sou só um homem apaixonado pela mulher dele.
E isso, às vezes, é o que mais complica.
Saímos de casa juntos. Paulinha encontrou as amigas no caminho e já foi andando na frente rindo com elas. Olhei ela se afastando, o rebolado dela que me pegou desde o primeiro dia.
— "Linda demais" — pensei. — "Mas teimosa pra c*****o. E é essa teimosia que me faz amá-la ainda mais."
Eu segui pra área do pagode onde os cria já estavam reunidos. O som tava alto, as luzes coloridas piscando, o cheiro de churrasquinho e maconha misturado no ar.
Magnata tava encostado na mesa, cerveja na mão, olhando o movimento. Quando me viu chegando, levantou a sobrancelha.
— E aí, Valente… que cara é essa?
— "Ele percebeu" — notei. — "Magnata percebe tudo. Por isso que é o chefe."
Antes que eu respondesse, Caveira soltou:
— Ih… a mulher deve ter dormido de calça jeans.
Os cria começaram a rir. Passei a mão na cabeça.
— "Se fosse só isso" — pensei amargamente.
— Se fosse isso tava bom.
Magnata deu um gole na cerveja.
— Então a parada é outra.
Ele inclinou a cabeça e deu um sorriso de canto.
— Com certeza tem a ver com mulher, né?
Olhei pro copo na minha mão. A espuma branca descendo devagar.
— "Tem sempre" — confirmei mentalmente. — "No morro, na guerra, na vida. Tudo sempre tem a ver com mulher."
— Sempre tem.
Caveira se aproximou, curioso.
— Fala aí, irmão. O que foi?
Respirei fundo.
— Ela não quer ter filho.
Silêncio.
Os cria se entreolharam. Magnata colocou a mão no meu ombro.
— Ela falou isso?
— Não diretamente. Mas eu sei. É o trampo dela. A carreira. Ela acha que vai atrapalhar.
Caveira balançou a cabeça.
— Mermão, mas tu banca ela. Ela nem precisava trabalhar.
— "É o que eu penso" — concordei em silêncio. — "Mas não posso forçar. Não posso obrigar. Senão vira obrigação, não escolha."
— Eu sei. Mas não é sobre dinheiro.
Magnata concordou.
— É sobre escolha.
— Exato.
Fiquei encarando o movimento do pagode. As mina dançando, os cria rindo, a vida seguindo.
Mas minha cabeça?
Minha cabeça tava lá atrás.
No quarto.
Na conversa.
No olhar dela quando eu falei sobre filho.
— "Ela desviou o olhar" — lembrei, sentindo o peso daquilo. — "Mais uma vez. Como sempre faz quando o assunto é esse."
— "Eu vou conseguir, Paulinha" — pensei, virando a cerveja de uma vez. — "Cê vai ver. Um dia você vai olhar pra mim e falar que tá pronta. E nesse dia… eu vou estar aqui. Esperando."
Continua...