Magnata Narrando
O morro nunca dorme. Quem dorme é quem não tem responsabilidade. Eu tenho um morro inteiro nas costas.
Hoje o cheiro era de pólvora fresca. Ainda dava pra sentir no ar aquela mistura de ferro queimado com medo espalhado. Mais um moleque querendo crescer onde não tem espaço pra dois chefes. Mais uma decisão que precisou ser tomada rápido. Eu não aumento a voz. Eu não discuto. Eu resolvo. Quem vive no Morro do Turano sabe que ordem minha não ecoa duas vezes. Ou cumpre, ou desce.
Sou dono do morro. Chefe do Comando. Não herdei isso de bandeja. Conquistei na marra, na estratégia e na frieza. Quem olha de fora acha que é só arma e grito, mas o que sustenta território é cabeça fria e cálculo. Se eu fosse explosivo, já tava morto. Se eu fosse sentimental, já tinham passado por cima de mim.
Hoje teve corre. Teve rádio estourando. Teve cara querendo testar limite. Não gosto de testar limite. Limite é coisa que eu estabeleço.
Depois que terminou, os cria queriam comemorar. Whisky caro apareceu na mesa da base, baseado já tava girando antes mesmo de alguém perguntar se eu queria. Um dos parceiros veio bater no meu ombro.
— Hoje foi vitória, chefe. Bora descer pro baile, relaxar.
Relaxar é coisa pra quem não carrega nome pesado.
Eu não tava afim de beber. Não tava afim de rir alto. Não tava afim de ouvir música estourando nem mulher disputando atenção. Não tava afim de nada que fizesse barulho.
— Vai vocês — eu falei, seco.
Eles já sabem. Quando eu falo pouco, é porque não quero companhia.
Subi na minha moto sem anunciar destino.
— Joga um capacete aí menor. — Gritei pro menor do caixa, ele jogou e eu segurei.
Capacete encaixado. Motor roncando grave. Desci o morro sozinho, passando pelas vielas iluminadas pela luz amarela dos postes. Criança ainda brincando na rua, mesmo tarde. Mulher sentada na porta conversando. Olhar de respeito quando eu passo. Não é amor. É consciência de quem manda. Pisei pro asfalto cruzei a avenida sem nem sentir.
Respirei fundo já sentindo a maresia, eu gosto da praia à noite.
Não aquela cheia de turista tirando foto do nada, nem aquela com ambulante gritando promoção. Gosto da vazia. Da escura. Da que parece que pertence só ao mar.
Copacabana fica diferente quando o movimento some. O vento fica mais frio. O som da água bate mais forte. Dá pra pensar.
Estacionei a moto perto do calçadão. Fiquei alguns segundos parado antes de tirar o capacete. Às vezes eu só preciso respirar onde ninguém me chama de chefe.
Vou mandar a real logo de cara porque eu não sou homem de ficar rodeando conversa.
Meu nome?
Isso aí não interessa pra ninguém.
Aqui no morro, na cidade, no asfalto, nos becos e nas vielas, ninguém me chama pelo nome de batismo. Ninguém precisa saber. O nome que o mundo conhece é outro.
Magnata.
Trinta anos nas costas, dois metros de altura, tatuagem espalhada pelo corpo inteiro, olhar que pouca gente sustenta por muito tempo. Eu sou o tipo de homem que entra num lugar e o ambiente muda sem eu precisar abrir a boca.
E antes que alguém venha romantizar a p***a da minha história, deixa eu avisar logo: eu nasci no crime.
Filho da rua.
Cria de morro.
O morro me ensinou a viver antes mesmo de eu aprender a ser criança. Aqui não tem essa de crescer devagar, de descobrir a vida com calma. Aqui tu aprende na marra, no sangue, no erro e na perda.
Ou vira homem cedo… ou vira estatística.
Eu virei outra coisa.
Virei dono.
Hoje quem olha de fora só vê o resultado: carro blindado, casa no alto do morro, tropa armada até os dentes, rádio cantando meu nome o tempo todo, dinheiro rodando e respeito espalhado pelas quebradas do Rio.
Mas ninguém vê o caminho.
Ninguém vê as noites sem dormir, os amigos que ficaram pelo caminho, as guerras que eu tive que vencer pra chegar onde eu tô.
Eu não herdei território. Eu tomei.
Cada pedaço desse morro foi conquistado com estratégia, com sangue e com decisão fria.
Porque uma coisa que eu aprendi cedo foi isso: sentimento demais mata homem no crime.
Aqui tu não pode hesitar.
Não pode vacilar.
Não pode confiar demais.
E muito menos amar.
Amor é fraqueza.
Amor faz homem baixar a guarda.
Amor faz homem perder o foco.
Eu nunca amei ninguém.
Nem sei dizer direito o que é essa pørra.
Já tive mulher?
Claro que tive.
Mulher nunca faltou.
Corpo do meu lado sempre teve quando eu quis. No mundo em que eu vivo, poder chama atenção, dinheiro chama atenção, perigo chama atenção. Sempre tem alguém querendo chegar perto.
Mas isso aí é outra coisa.
Presença é fácil.
Desejo é fácil.
Agora sentimento… isso é bagulho que eu nunca procurei entender.
Respeito eu entendo.
Medo eu uso.
Lealdade eu cobro.
Mas amor… amor nunca fez parte da equação da minha vida.
E pra ser sincero, nem fez falta.
A única coisa que eu sempre precisei foi controle. Controle do morro. Controle da tropa. Controle das decisões. Controle de mim mesmo.
Porque quando tu vive no topo de um lugar como esse aqui, qualquer vacilo custa caro.
Muito caro.
Mais um dia normal pra quem vive nesse lado da cidade.
No final depois que a poeira baixa, depois que os rádios ficam em silêncio e a madrugada começa a cair… às vezes o peso do comando bate diferente.
E nesses momentos eu faço a única coisa que ainda me deixa respirar fora desse mundo.
Eu sumo.
Subi na moto.
Desci pro asfalto.
Vim pra praia.
Nada melhor do que praia a noite.
De madrugada então. Putä que pariu.
Quando a orla fica quase vazia, quando o vento do mar bate gelado e o barulho das ondas engole o resto do mundo.
Aqui ninguém me conhece.
Aqui ninguém chama no rádio.
Aqui ninguém pede ordem.
Aqui eu só observo.
Gente andando.
Casal rindo.
Turista perdido.
Vida normal acontecendo.
Uma vida que nunca foi minha.
Essa noite não vai ser diferente.
Sai dos meus pensamentos sentando num banco de madeira de frente pro mar. A camisa preta grudando um pouco no corpo por causa do calor do dia que ainda tava preso no asfalto. A corrente de ouro pesando no pescoço. A tatuagem no braço aparecendo sob a luz fraca do poste.
Sentado olhando o mar como se ele tivesse resposta pra alguma coisa. Não tinha. O mar nunca responde. Ele só vai e volta, como se nada fosse suficiente pra segurar ele.
Me virei ouvindo, uma risada.
Alta, leve, diferente do tipo que eu tô acostumado a ouvir.
Não era risada forçada de baile. Não era gargalhada exagerada pra chamar atenção. Era espontânea.
Me ajeitei no banco e olhei de lado.
Três meninas mais afastadas, perto da parte onde a areia ainda tava firme por causa da maré. Duas em pé, mexendo no celular, conversando animadas. A terceira estava sentada.
Demorei dois segundos pra perceber.
Cadeira de rodas.
Não senti pena. Não sinto pena de ninguém. O mundo não teve pena de mim quando eu precisei escolher entre ser fraco ou ser temido.
Mas tinha alguma coisa ali que me fez continuar olhando.
Ela tinha o cabelo longo, escuro, cacheados, jogado sobre os ombros. A postura era retraída, como se ocupasse menos espaço do que realmente tinha direito. Mesmo sentada, dava pra ver o quanto ela é bonita. Não bonita de maquiagem exagerada. Bonita de traço delicado.
As amigas falando alto.
— Luísa, tu tá muito quieta! — disse a mais alta, cabelo cacheado volumoso.
Luísa.
Guardei o nome sem perceber.
— Eu falei que ela ia amar sair de casa!
Então era isso. Ela não costumava sair. — A baixinha completou rindo.
As duas decidiram ir até um quiosque mais iluminado.
— A gente já volta! — gritou a de cabelo cacheado.
— Não demora! — Luísa respondeu, meio nervosa.
E ficou sozinha.
O vento começou a soprar mais forte. A roda da cadeira afundou um pouco na areia fofa. Ela tentou se mover sozinha, puxando o aro com esforço. A cadeira inclinou levemente para o lado.
Eu me levantei antes mesmo de pensar.
Não gosto de ver ninguém perdendo controle do próprio corpo daquele jeito.
Quando me aproximei, ela percebeu minha presença e ficou rígida.
Os olhos grandes se arregalaram.
— Calma — eu falei firme, mas sem agressividade. — A roda travou.
Ela tentou ajeitar o cabelo que o vento jogava no rosto.
— Eu consigo… obrigada.
Consegue nada.
Segurei a parte de trás da cadeira e puxei com firmeza até a areia mais compacta. Ela segurou nos apoios, tensa, como se não estivesse acostumada com estranhos tão perto.
— Assim não afunda. — Falei e ela me olhou. Não era olhar de quem me reconheceu como dono de morro. Era olhar de curiosidade. De quem tá avaliando risco, mas também tentando entender.
— Obrigada — ela repetiu, mais baixo.
Eu dei de ombro.
— Só tava passando.
Mentira. Eu não tava passando por nada. Eu tinha parado aqui porque aquela risada me fez olhar.
As amigas voltaram rindo.
— Aí, olha ela! — disse a cacheada. — Pra quem não queria vir, já fez amizade!
— Quem é o gostoso, Luísa? — provocou a baixinha, que parecia se chamar Iasmin.
Luísa ficou vermelha na hora.
— Para, Yasmin!
A cacheada estendeu a mão na minha direção, sorrindo.
— Eu sou laura.
Eu não apertei. Não por falta de educação. Eu só não faço questão de criar vínculo com ninguém fora do meu mundo.
— Já tava indo embora — eu disse, colocando as mãos no bolso.
— Passando devagar assim? — Yasmin perguntou rindo.
Ignorei.
Meu olhar voltou pra Luísa. Ela ainda me observava, mas agora tinha algo diferente ali. Não foi medo puro. Foi mistura de timidez com algo que eu não sabia nomear.
Eu virei as costas.
Caminhei até a escada que levava pro calçadão.
Mas antes de subir, senti aquele impulso estranho de novo.
Olhei pra trás.
Ela ainda tava olhando.
E nesse segundo eu percebi uma coisa que me incomodou.
Eu não tava olhando pra cadeira.
Eu tava olhando pra ela.
Subi na moto com uma sensação que eu não conhecia.
— Que pørra é essa, Magnata? — rosnei baixo enquanto girava a chave.
O motor roncou alto debaixo de mim, mas dessa vez o barulho não abafou o pensamento.
Luísa.
Eu não sabia nada sobre ela. Não sabia de onde vinha. Não sabia quem era. Mas eu sabia reconhecer quando alguma coisa mexia com aquilo que eu sempre mantive trancado.
E eu odeio perder controle.
Baixei o capacete devagar, ainda parado ali na orla. Antes de acelerar, olhei mais uma vez para trás.
Ela ainda estava lá.
As amigas rindo de alguma coisa, mexendo no celular. Mas ela não.
Ela estava olhando para mim.
Direto.
Sem desviar.
Não era olhar de medo.
Também não era aquele olhar de mulher acostumada a flertar.
Era… curioso.
Como se estivesse tentando me entender.
Aquilo me incomodou mais do que deveria.
Acelerei a moto e entrei na avenida, deixando o vento da madrugada bater no capacete. Normalmente quando eu saio daqui, eu esqueço tudo. A praia sempre foi o único lugar onde minha cabeça fica em silêncio.
Hoje não.
Porque mesmo com a moto correndo pelo asfalto, a imagem dela não saía da minha cabeça.
Luísa.
O jeito quieto.
Os olhos grandes.
A forma como ficou tensa quando eu cheguei perto.
E o jeito que ela me olhou quando eu virei as costas.
Eu apertei mais o acelerador.
— Esquece isso — murmurei pra mim mesmo.
Eu não sou homem de me prender a mulher.
Muito menos a uma que eu nem conheço.
Quando subi novamente a ladeira do Turano, os cria na contenção abriram caminho na hora.
— Boa noite, chefe!
Nem respondi.
Estacionei a moto na frente da base e tirei o capacete, passando a mão pela nuca.
Mas antes mesmo de entrar, um pensamento atravessou minha cabeça de novo.
Frio.
Direto.
Perigoso.
Luísa.
Eu não sei explicar por quê.
Mas alguma coisa dentro de mim já tinha decidido uma coisa.
E quando eu decido algo… Não tem volta.
Levantei o rádio da cintura.
— Menor.
— Fala, chefe.
Olhei para o morro inteiro iluminado na minha frente.
Depois falei baixo.
— Amanhã tu vai fazer um corre pra mim.
— Qual foi?
Eu demorei um segundo antes de responder.
— Quero saber tudo sobre uma garota.
— Nome?
Olhei pro nada por um instante antes de falar.
— Luísa.
Silêncio do outro lado.
— Só isso, chefe?
Eu soltei uma risada curta.
— Por enquanto.
Desliguei o rádio.
Mas uma coisa ficou martelando na minha cabeça enquanto eu subia as escadas da base.
Eu nunca procurei saber nada sobre mulher nenhuma.
Nunca precisei.
Até hoje.
E alguma coisa me dizia que conhecer Luísa… pode ser o começo de um problema que nem o dono do Turano ia conseguir controlar.
Continua…
🔥RECADINHO DA AUTORA 🔥
Pra você que ama um homem frio, calculista, daqueles que dominam tudo ao redor e que juram que mulher nenhuma é capaz de atravessar as muralhas que construíram ao redor do próprio coração… vem conhecer Magnata.
Dono de morro.
Chefe do comando.
Um homem que nasceu no crime, cresceu entre guerra, poder e decisões que nunca permitem fraqueza.
Magnata sempre acreditou que tinha controle de tudo: do território, dos homens, das guerras e da própria vida.
Até o dia em que Luísa cruza o caminho dele.
Ela não chega causando impacto. Ela não chega tentando chamar atenção. Ela não chega querendo espaço.
Ela simplesmente existe… e isso já é suficiente para bagunçar tudo o que ele sempre manteve sob controle.
Luísa viveu a vida inteira acreditando que seu destino já estava escrito. Presa a uma cadeira de rodas, presa a limitações que disseram que ela nunca superaria, presa a uma existência protegida demais para ser realmente vivida.
Ela nunca imaginou que o homem mais perigoso do morro poderia enxergar nela algo que ninguém nunca viu.
Nesta história, você vai acompanhar o encontro de dois mundos completamente diferentes.
De um lado, um homem acostumado a dominar tudo.
Do outro, uma mulher que aprendeu a viver se escondendo do mundo.
Entre o morro e o asfalto, entre o poder e a fragilidade, entre o controle e o desejo… nasce uma história intensa, perigosa e impossível de ignorar.
Mas já vou avisando logo:
Não espere um romance leve.
Aqui tem obsessão.
Tem poder.
Tem conflitos.
Tem escolhas difíceis.
Tem segredos que podem mudar tudo
E quando o coração do homem mais temido do morro começa a sair do controle… ninguém sai dessa história ileso.
De uma autora que ama criar histórias intensas, cheias de emoção, tensão e personagens marcantes, deixo aqui mais uma obra feita com carinho para vocês, leitoras e leitores que gostam de romances fora do comum.
Te espero nas próximas páginas.
Com carinho (e um pouco de perigo),
JM MARTINS
🚨AVISO LEGAL🚨
Esta obra é fruto da imaginação da autora. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, lugares ou situações reais é mera coincidência.
🚫 Proibido para menores de 18 anos.
Contém cenas de violência, linguagem imprópria e situações destinadas ao público adulto.
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