dia seguinte

1063 Words
A manhã entrou silenciosa na casa. O tipo de silêncio que não era vazio — era cuidado. Meggie dormia encolhida na cama grande demais pra ela, mas ainda assim espalhada de um jeito leve, como se pela primeira vez o corpo tivesse desistido de se defender por algumas horas. A blusa que ela usava tinha subido um pouco durante o sono, deixando visível parte do ombro e da cintura, mas nada ali tinha qualquer leveza de provocação — só exaustão, só descanso roubado de quem não tinha tido paz há muito tempo. A porta se abriu devagar. Sem barulho. Os cinco entraram quase ao mesmo tempo, em passos controlados, como se até o chão precisasse ser respeitado. Jefferson foi o primeiro a parar. Os olhos dele foram direto pra cama. — …caralho. — ele murmurou baixo, mais pra si do que pros outros. Mas não havia deboche na voz. Era choque. Machado ficou ao lado, braços cruzados, olhando em silêncio por alguns segundos antes de respirar fundo. — Agora ela tá protegida por nós. Nick assentiu devagar, a mandíbula travada. — Ninguém vai machucá-la de novo. Yuan não falou de imediato. Só observou. Jackson passou a mão pelo rosto, como se estivesse tentando manter a calma. Foi quando o olhar deles mudou. As marcas nas pernas de Meggie ficaram visíveis quando o cobertor escorregou um pouco durante o sono — marcas que não deveriam estar ali. Sinais que contavam uma história sem precisar de palavras. O ar da sala mudou. Jefferson deu um passo pra frente, a voz saindo mais dura. — Isso não é acidente. Nick fechou os olhos por um segundo, como se estivesse segurando alguma coisa dentro de si. — Ele bateu nela. Machado soltou um som baixo, quase um aviso. — Não fala como se fosse só isso. Yuan finalmente falou, a voz fria, controlada demais. — Isso vai ter consequência. O silêncio que veio depois não era mais calmo. Era pesado. Jackson olhou de volta pra Meggie dormindo, tão pequena naquela cama, tão quieta depois de tudo. — A gente não vai resolver isso do jeito que ele espera. — ele disse, firme. Jefferson passou a mão no pescoço, respirando mais forte. — Eu não vou mentir… eu quero quebrar esse cara. Nick olhou pra ele imediatamente. — E vai querer ainda mais quando ela acordar e contar tudo. Machado se desencostou da parede, olhando pros outros. — Mas a gente não vai transformar isso em mais violência sem pensar. Ela já viveu violência demais. As palavras pesaram mais do que qualquer raiva. Jefferson ficou em silêncio por alguns segundos… e assentiu, mesmo que ainda com a mandíbula travada. — Tá. Nick olhou mais uma vez pra Meggie. A expressão dele mudou um pouco — de raiva pra algo mais firme. — Primeiro ela. Yuan concordou com um movimento curto. — Depois o resto. E ali, enquanto ela ainda dormia sem saber da conversa… o mundo dela começava, lentamente, a mudar de direção. Meggie mexeu devagar na cama, virando o rosto para o lado com um resmungo baixo de sono. A luz da manhã já entrava pelas frestas da cortina quando ela abriu os olhos aos poucos, confusa. Por um segundo, não reconheceu o teto. Não reconheceu o cheiro do quarto. Não reconheceu a sensação de segurança — porque o corpo dela já tinha esquecido como era aquilo. Ela piscou algumas vezes. E então percebeu. Não estava sozinha. Os cinco estavam ali, mas agora não estavam em círculo nem perto demais. Alguns encostados na parede, outros sentados mais afastados, como se tivessem aprendido a respeitar aquele espaço sem invadir. Ela se sentou devagar na cama, puxando a blusa automaticamente pra baixo, instinto puro de proteção. — …bom dia. — ela disse, a voz rouca de sono. Jefferson foi o primeiro a responder, num tom mais leve do que na noite anterior: — Bom dia. Nick apontou com a cabeça pra mesa ao lado. — Tem comida aí. A gente trouxe. Meggie olhou. Havia um prato simples, café, pão, algo quente. Pequeno, mas real. Ela ficou alguns segundos só olhando. — Vocês ficaram aqui a noite toda? — ela perguntou, desconfiada, mas sem acusar. Machado deu de ombros. — Mais ou menos. Yuan foi mais direto: — A gente se revezou. Ela soltou uma risada curta, incrédula. — Isso é meio exagero… eu não sou… importante assim. O silêncio que veio foi imediato. Jackson desencostou da parede. — Você não vai decidir isso por nós. Meggie baixou o olhar, mexendo as mãos no lençol. — Eu não tô acostumada com ninguém ficando… Ela parou no meio da frase. Como se a palavra “por mim” fosse pesada demais. Jefferson percebeu. E falou mais baixo: — Não precisa estar acostumada. Nick respirou fundo e cruzou os braços. — A gente viu suas marcas ontem. O ar mudou de novo. Meggie ficou imóvel. Não de surpresa. De lembrança. Ela desviou o olhar, a voz saindo mais baixa ainda: — Não foi a primeira vez. Isso fez o ambiente endurecer. Mas ninguém interrompeu. Ela continuou, sem olhar pra ninguém: — Eu sempre achei que… se eu ficasse quieta, se eu não incomodasse… passava. Silêncio. Dessa vez, mais pesado. Machado fechou o maxilar. Jefferson deu um passo pra frente, mas parou, se controlando. Nick falou primeiro, mais firme, mas sem agressividade com ela: — Não passa. Meggie soltou um ar pelo nariz, meio riso, meio dor. — Eu já percebi isso tarde. Ela finalmente levantou os olhos. E pela primeira vez desde que tinha chegado ali… não havia só medo neles. Havia exaustão. E algo começando a quebrar — não ela, mas o silêncio que ela sempre teve que carregar sozinha. Yuan puxou uma cadeira e sentou de frente pra ela, devagar. — Quem fez isso com você? — ele perguntou, direto. Meggie travou. O corpo inteiro dela respondeu antes da mente. Jefferson falou mais rápido, cortando: — Não agora. Nick concordou imediatamente. — Não agora. Machado completou: — Você come primeiro. Ela piscou, confusa com a proteção que vinha até das perguntas não feitas. E ali, naquela mesa simples, com comida quente e homens que pareciam perigosos demais pra serem gentis… Meggie começou a entender que o perigo dela tinha mudado de lugar. Não era mais estar sozinha. Era ter gente demais querendo protegê-la… e o que isso poderia despertar neles.
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