Abro a primeira gaveta da cômoda devagar. Um perfume levemente doce sai de seu interior, cujas roupas estavam bem dobradas.
Roupas bonitas e aparentemente caras.
Só havia visto algo parecido na feira.
Como alguém ia embora e deixava aquelas roupas para trás?, questiono, ao desdobrar o que parecia ser um croped preto.
Mainha nunca me deixará usar nada curto demais. Dizia que moça não se vestia daquele jeito.
Até tentava discordar, achava bonito e não via m*l algum em usar. Mas mainha sempre repetia que não queria uma filha perdida dentro de casa, que nós, éramos moças para casar.
Casar.
Dobro o top, colocando de volta na gaveta.
Meu destino estava tão incerto.
– Não achei a caixa – diz Lidiane entrando no quarto de repente – Mas achei lençol e fronha limpos. E uma coberta – Ela se aproxima da cama, colocando o lençol no colchão, vestindo por último o travesseiro – Se quiser tomar banho, tem o banheiro no final do corredor.
Inclino a cabeça para o lado.
– É banho de chuveiro?
Ela sorri.
– É sim – Ela anda até a porta – Vou ajudar na cozinha. Hoje é meu dia. Vá tomar banho e depois vá pra lá.
Assinto, abrindo minha mochila quando ela sai do quarto.
Havia levado cinco mudas de roupa. Três vestidos já gastos, um short de pano e uma camiseta preta poida.
Pego a camiseta e o short, saindo do quarto em busca do banheiro que, encontro uma porta depois.
Era estreito, todo azulejado com azulejo azul– claro. Um boxe de acrílico cinza, separava a parte do chuveiro, da parte onde estava o vaso sanitário e o lavatório mesma cor do azulejo.
O chuveiro era igual o da rodoviária, porém a água era um pouco mais morna, para minha decepção.
Não havia sabão por perto, o que me fez acabar tomando banho com apenas água.
Seco o máximo que posso meu cabelo, depois de sair do chuveiro, não me importando em pentear. Nunca fazia isso e não seria ali que faria isso.
Desço a escada oval, sob o olhar de algumas meninas no segundo andar.
Me guio pelo cheiro de comida até a cozinha, encontrando Lidiane mexendo uma panela grande em cima de um fogão industrial, com mais outros duas ao lado.
A cozinha também era simples. Havia uma mesa velha de madeira de quatro cadeiras, num canto, sem cadeiras e um armário branco quase que no mesmo estado da mesa.
Uma menina de feição delicada, usando tranças boxe, de aproximadamente 16 anos, cortava tempero na mesa. Por alguns segundos, ergue os olhos estreitos me olhando, antes de voltar a atenção para a faca.
– A comida tá quase pronta – diz Lidiane, notando minha presença – Essa é a Katiane. Ela dorme na outra beliche com a irmã.
Katiane ergue o rosto, sorrindo levemente, sem mostrar os dentes.
– Oi.
– ...oi – murmuro.
Permaneço parada onde estava, sem saber se deveria ajudar ou não Lidiane.
Estava completamente deslocada.
– O almoço já está pronto? – Jô pergunta, entrando de repente na cozinha, me fazendo dar um passo para o lado assustada.
Ela me olha de cima a baixo com o cenho franzido.
Lidiane destampa as outras panelas, mexendo o que havia dentro com uma colher de p*u.
– Tá sim.
Jô pega um prato no armário, se aproximando do fogão, onde coloca comida no prato, deixando a cozinha depois de pegar um garfo.
– Vem por sua comida – diz Lidiane, depois que ela sai.
– Vou falar pras outras que já está pronto – diz Katiane, lavando as mãos.
Pego um prato indo para o fogão.
Em uma panela tinha arroz, na outra feijão e na outra frango cozido.
Olho para Lidiane salivando.
– Posso por o quanto que eu quiser?
– O quanto que você tiver v*****e – Ela se afasta para pegar o prato dela.
Aproveito sua ausência para colocar duas conchas de feijão, duas colheres cheias de arroz e pelo menos quatro pedaços grandes de frango.
Sento do lado do armário no chão, enchendo minha boca com colheradas cheias de comida que, por sinal estava muito boa.
Uma fila é formada em frente ao fogão, a maioria das meninas me olham sentada no chão e comenta com outras.
Lidiane senta ao meu lado, usando a mão para morder a coxa da galinha.
Sorrio para ela. Era assim que havíamos sido ensinadas a comer, sem frescura.
Katiane se senta ao nosso lado depois de por sua comida, mantendo a cabeça baixa a todo instante, enquanto comia.
– Vai ficar aí? – Uma menina parecia com Katiane pergunta séria.
Katiane apenas assenti.
Termino de comer em poucos minutos, me sentindo completamente cheia.
Há muito tempo que não comia dessa forma.
Lidiane havia comido menos que eu e parecia satisfeita. Já que não levantou para repetir.
Apenas levanta quando aos poucos, vão colocando os pratos na pia.
– Quer ajuda? – pergunto levantando.
– Não cozinhe e não lave, quando não for seu dia – diz sem me olhar – Ninguém irá ajudar você quando for seu dia.
1° regra.
– E o que eu faço então?
– Vá se arrumar – diz Katiane.
Olho para Lidiane confusa.
– Me arrumar pra quê? A gente vai sair?
Lidiane olha para Katiane como se a repreendesse com o olhar.
– A gente não vai sair, Maria – diz em seguida, arrumando os pratos na pia..
– Então por quê...?
– Começamos a trabalhar a partir das seis da noite – Me interrompe sem me olhar.
Trabalhar, repito em minha mente. Iria trabalhar vendendo meu corpo.
A cor deve ter fugido do meu rosto, pois Katiane me olha com mais atenção.
– ...Não quero fazer isso – Minha voz soa baixo e trêmula.
– Ninguém aqui quer – diz Katiane, secando uns pratos que Lidiane lava – Quer dizer, umas querem. Por causa do dinheiro. Agora outras...não sabia que seria assim.
– Lidiane – Chamo baixo, numa última tentativa de ela me ajudar a ir embora dali.
Ela solta um prato bruscamente dentro da pia, me olhando séria.
– Não posso fazer nada por você e nem por ninguém aqui dentro – diz irritada – Assim como muitas aqui, também fui enganada e não queria estar aqui. Mas eu estou e por enquanto, tô feliz que ainda tenho um teto e o que comer.
Antes de Lidiane ir para o Rio de Janeiro, passava por uns bocados com a mãe. Apesar de serem apenas as duas.
A mãe dela nunca soube trabalhar na roça, então se aventurava em casas de família.
Lembro de Lidiane, assim como eu, tão magra que dava para contar suas costelas e ver com clareza a clavícula. Usava roupas doadas, assim como nós, pela igreja e hoje ouvindo tais palavras da saírem de sua boca, tinha a impressão de que estava mais feliz ali, apesar do que fazia, do que no interior do Ceará.
Lidiane termina de lavar a louça e de limpar a cozinha.
Sigo ela e Katiane para o terceiro andar, onde as meninas se moviam de um lado para o outro, se revezando no banheiro e se ajudando nos quartos.
Lidiane abre uma das gavetas da cômoda, pegando um conjunto de lingerie rosa e um vestido verde– musgo tomará que caia.
Katiane faz o mesmo, pegando o primeiro vestido cintilante a vista.
A menina parecia com ela entra no quarto, enrolada em uma toalha, nos olhando antes de andar até o guarda– roupa.
Então ela era a Kauane.
Kauane escolhe com calma o que vai vestir, indecisa entre dois vestidos. Um vinho e outro vermelho.
Permaneço parada ao lado da porta.
– Tem algum vestido? – Lidiane pergunta, tirando as roupas da minha mochila.
Nego rapidamente.
Ela pega meus três vestidos, sob o olhar de Kauane.
– Ela não vai vestir isso, né? – questiona com deboche.
– Acho que tenho algum vestido que dê nela – Lidiane guarda os vestidos de volta na mochila, voltando para suas gavetas.