Capítulo 05
Narrador: Fúria
Eu estava sentado na penumbra do meu escritório, o cheiro de tabaco e couro impregnado no ar gelado pelo ar-condicionado. Na minha frente, a tela do computador mostrava as câmeras de segurança do perímetro, mas minha mente estava longe dos monitores. Eu esperava por ela.
O Nando já tinha me dado o papo: a garota era "direitinha", não se misturava com a malandragem e carregava o piano da casa nas costas enquanto a mãe se acabava na nóia. Era exatamente o que eu precisava. Alguém que não tivesse o vício no sangue, alguém que soubesse o valor da disciplina e, acima de tudo, alguém que eu pudesse manter sob o meu controle absoluto. No meu mundo, a lealdade nasce da gratidão ou do medo. Como a Isadora não me devia favores, eu usaria a dívida da mãe dela como a corrente que a manteria presa ao pé da cama da minha filha.
Ouvi o ronco das motos cessando lá fora. O silêncio que se seguiu foi o anúncio de que a mercadoria tinha chegado.
Fiquei ali, imóvel, observando a porta. Quando o Nando bateu e eu dei a ordem para entrar, o ar da sala pareceu mudar. O choque de mundos não foi um estrondo; foi um estalo silencioso. Isadora entrou como se estivesse caminhando para o próprio fuzilamento, mas tinha algo no queixo erguido dela que me chamou a atenção. Ela estava apavorada — eu sentia o cheiro do medo dela a metros de distância —, mas não estava quebrada. Ainda não.
Confesso para mim mesmo, no silêncio da minha mente, que ela era exatamente o que eu esperava, e um pouco mais. As fotos que os vapores me mostraram não faziam justiça. Ela era bonita, de uma forma crua e natural, sem as maquiagens carregadas e as roupas vulgares das mulheres que costumavam circular por aqui. Tinha um olhar profundo, carregado de uma melancolia que só quem apanhou muito da vida conhece.
Mandei o Nando sair. Queria ver a reação dela sem plateia. Queria que ela sentisse o peso da minha presença, o peso do "Fúria" que todos temiam.
— Isadora Alcântara — pronunciei, sentindo o peso do nome.
Ela tentou manter a voz firme, tentou se desvincular da mãe, mas eu não estava ali para ser justo. Justiça é um conceito de quem vive no asfalto; aqui em cima, a lei é a conveniência.
Eu não gastei tempo com rodeios. Gentileza é fraqueza, e eu precisava que ela entendesse, desde o primeiro segundo, que a vida dela agora tinha um novo dono. Joguei a real sobre a dívida da Márcia. Expliquei que o fígado estragado da velha não valia o papel onde a dívida estava escrita, mas que a vida dela tinha um preço. E o preço era a liberdade da filha.
— Você tem o perfil que eu procuro — eu disse, levantando-me e caminhando até ela.
Gostei da forma como ela sustentou meu olhar, mesmo tremendo. A maioria das pessoas baixa a cabeça ou desvia o olho. Isadora me encarou, como se estivesse tentando ler o monstro por trás das tatuagens. Senti uma vontade súbita de testar o limite dessa resistência. Aproximei-me, invadindo o espaço pessoal dela, sentindo o calor que emanava daquele corpo miúdo.
— Se não aceitar, você volta para baixo agora mesmo. E amanhã, a única coisa que vai encontrar naquela casa é o rastro de sangue dela na parede da sala.
Não era blefe. Ela viu nos meus olhos que eu não estava brincando. No meu morro, quem não paga com dinheiro, paga com a vida. Ou "sobe no balão", como a gente diz por aqui. A Márcia já estava na lista de descarte; eu só estava oferecendo uma última chance de redenção através da filha.
O ultimato foi lançado: ou ela aceitava morar na minha casa, seguir minhas regras e ser a sombra da minha Clara, ou a mãe dela morreria. Vi o exato momento em que a esperança morreu nos olhos dela e deu lugar a uma aceitação dolorosa.
— Eu aceito — ela sussurrou.
Um triunfo frio percorreu minha espinha. Eu tinha o que queria. Clara teria alguém de confiança, e eu teria uma presença naquela casa que, pela primeira vez em anos, não parecia contaminada pela podridão do crime.
— Ótima escolha, Isadora. Bem-vinda ao meu mundo.
Mandei o Nando levá-la para o quarto. Fiquei no escritório, ouvindo os passos dela se afastando. Eu sabia que a partir de amanhã, nada seria igual. Minha fortaleza agora tinha uma prisioneira que eu mesmo tinha escolhido. Isadora achava que estava salvando a mãe, mas ela ainda não percebeu que, ao entrar pela minha porta, ela tinha acabado de entregar a própria alma para o Fúria.
Sentei-me novamente na poltrona, o silêncio retornando ao escritório. Lá fora, o Vidigal continuava seu ritmo frenético, mas ali dentro, o jogo tinha mudado. Eu ia cuidar da minha filha, ia cobrar minha dívida, e ia ver até onde a "menina direitinha" aguentaria viver sob o mesmo teto que o d***o.
Fiquei observando a porta por alguns segundos depois que ela saiu. O perfume de sabonete barato que ela exalava ainda flutuava no ar gelado do meu escritório, contrastando com o cheiro pesado de maconha que eu costumo manter aqui. Isadora era um elemento estranho na minha fortaleza, uma peça de cristal em um depósito de ferro velho.
Caminhei até o monitor das câmeras e mudei a visão para o corredor do andar de cima. Vi o Nando guiando ela até o quarto. Ela andava devagar, as mãos cruzadas na frente do corpo, como se estivesse tentando se proteger de um golpe invisível. O Nando parou em frente à porta da Clara por um segundo, e eu vi a Isadora hesitar. Ela olhou para dentro do quarto da minha pequena com uma expressão que eu não soube decifrar de imediato. Não era medo, era uma espécie de curiosidade dolorida.
— Vai dar certo, chefe? — a voz do Nando estalou no rádio na minha cintura.
— Tem que dar, Nando. A Clara não aguenta mais troca de cuidadora e eu não tenho paciência para amadora. Essa aí tem o que perder. Quem tem algo a perder, não vacila — respondi, desligando o rádio logo em seguida.
Saí do escritório e fui até a varanda dos fundos. O vento do Vidigal batia forte ali em cima, trazendo o som do baile que começava a esquentar lá embaixo. Acendi um cigarro e encostei no parapeito, olhando para as luzes da comunidade. Eu sabia que a fofoca ia correr rápido. "O Fúria subiu a filha da Márcia". No morro, todo mundo ia achar que ela era mais uma para a minha cama, mais uma descartável para passar o tempo.
Deixei que achassem. O mistério em torno do que acontece dentro da minha casa é a minha maior segurança.
Mas, no fundo, eu sentia um incômodo que não era comum. A forma como ela me encarou no escritório, sem baixar o olhar, tinha despertado algo que eu preferia manter adormecido. Ela não era uma "p**a" que eu pudesse usar e jogar fora sem pensar duas vezes. Isadora tinha uma dignidade que me irritava e me atraía ao mesmo tempo.
Joguei a bituca do cigarro no abismo e voltei para dentro. Passei pelo corredor e parei diante da porta do quarto dela. Estava trancada, conforme eu ordenei. Ouvi um soluço baixo vindo lá de dentro, abafado pelo travesseiro.
— Chora hoje, Isadora — sussurrei para a madeira da porta. — Porque amanhã você vai precisar de todos os seus sentidos inteiros. Minha filha não é fácil, e eu sou pior ainda.
Fui para o meu quarto, mas o sono não veio fácil. Pela primeira vez em anos, a minha fortaleza parecia menos solitária, e isso era mais perigoso do que qualquer invasão inimiga.