Capítulo 07
Narrador: Fúria
O despertador nem precisou tocar. Meus olhos se abriram antes das seis, o corpo já em estado de alerta, como se o ar da casa tivesse mudado. Demorei alguns segundos para processar o silêncio atípico, até que a memória da noite anterior estalou na minha mente: Isadora Alcântara agora dormia sob o meu teto. A "menina direitinha" agora era minha prisioneira.
A primeira coisa que fiz, ainda sentado na beira da cama, foi puxar o tablet que ficava no criado-mudo. Acessei o sistema de câmeras. Passei o dedo pela tela até focar no corredor do andar de cima. Vazio. Mudei para a cozinha.
Lá estavam elas.
O visor infravermelho mostrava a silhueta pequena da Clara gesticulando freneticamente, puxando a Isadora pela mão. Elas pareciam estar em uma sintonia que eu não esperava. Fiquei observando, em silêncio, a forma como Isadora se movimentava no meu território. Ela não parecia perdida; parecia... em casa. Aquilo me causou um nó estranho no estômago.
Levantei, fui ao banheiro e deixei a água gelada do chuveiro despertar meus músculos. Enquanto fazia a barba e sentia o cheiro da loção pós-barba impregnar o ar, eu pensava na estratégia do dia. Eu precisava manter a distância. Isadora era uma dívida, não uma convidada.
Desci as escadas sem fazer barulho. Parei no batente da porta da cozinha, oculto pelas sombras do corredor, e fiquei apenas observando.
Clarinha estava radiante. O sorriso dela era largo, os olhos brilhavam de um jeito que eu não via há meses. Ver minha filha feliz me trazia uma paz absurda, mas, naquele momento, aquilo também me irritou profundamente. Era para a Clara estar dificultando a vida dela. Era para a "Mini-Fúria" ter feito o escândalo de sempre, exigindo a Dona Ana ou chutando as canelas da novata. Mas não. Pelo visto, a garota tinha um dom que eu não previ.
Isadora sentiu minha presença. Vi o exato momento em que os ombros dela ficaram rígidos. A veia no pescoço dela pulsava além do normal, uma batida frenética que eu conseguia enxergar de longe. Aquilo me deu uma satisfação sombria. Saber que ela tinha medo de mim era a garantia de que ela não tentaria nenhuma gracinha. O medo é a melhor coleira que existe.
Passei por ela sem dizer uma única palavra. Bom dia? Gentileza? Isso é vocabulário de quem vive no asfalto. Aqui, o silêncio é poder. Fui direto até a Clara.
— Oi, minha princesa — sussurrei, abaixando-me para dar um beijo no topo da cabeça dela.
Clara estava com o rosto sujo de mel, devorando umas panquecas que exalavam um cheiro doce e convidativo. Pelo visto, a Isadora já tinha ganhado minha filha pelo estômago. Estratégia inteligente, mas eu não ia facilitar.
Sentei-me à mesa. Isadora ficou ali, de pé, num canto, como uma estátua de sal nos observando comer. Ela parecia esperar uma aprovação, um aceno, qualquer coisa que validasse o esforço dela. Eu ignorei. Servi-me do café que ela tinha passado e peguei uma das panquecas.
No primeiro gole, senti o sabor. Era perfeito. O ponto exato do pó, a temperatura correta, sem aquele gosto de queimado que a Dona Ana costumava deixar. A panqueca estava leve, derretendo na boca. Por dentro, eu tive que admitir: aquela garota sabia o que estava fazendo. Mas eu não podia permitir que ela se sentisse útil ou, pior ainda, confortável. Se ela achasse que estava me agradando, ia baixar a guarda. E eu precisava dela alerta.
Terminei de comer, limpei a boca com o guardanapo e me levantei para ir para a boca. O dia no Vidigal não esperava por ninguém. Quando eu já cruzava a porta, ouvi a voz dela, pequena e ansiosa:
— O café... estava bom? Está do seu agrado?
Parei. Não olhei para trás de imediato. Senti o peso da expectativa dela nas minhas costas. Girei o corpo lentamente e encarei aqueles olhos grandes e castanhos que pareciam ler minha alma.
— Seu café é horrível — menti descaradamente, sentindo o gosto da perfeição ainda na língua. — Precisa aprender a fazer um café decente se quiser que sua mãe continue viva.
O impacto da minha frase foi visível. O brilho nos olhos dela se apagou, substituído por uma raiva contida e uma mágoa que ela tentou esconder. Ótimo. Era assim que eu a queria: ferida e obediente.
Saí da casa e o ar quente do morro me atingiu. Desci a ladeira em direção à boca principal. O Nando já estava lá, encostado no blindado, com o radinho na cintura e o fuzil a tiracolo. Quando passei, fizemos nosso toque de mão costumeiro.
— E aí, chefe? Como é que a pequena reagiu à nova babá? — ele perguntou, entrando logo atrás de mim na minha sala.
Sentei na minha poltrona e dei um sorriso de canto, amargo.
— Parece que a garota enfeitiçou a Clara, Nando. Isadora conquistou ela pelo estômago. Achei que a minha filha ia fazer as birras de sempre, o inferno que ela fazia com a Dona Ana... mas pelo visto, a outra lá encantou a menina.
Nando riu, balançando a cabeça.
— Eu te falei, Fúria. A garota é "direitinha". Tem jeito com as coisas.
— Jeito até demais — retruquei, ligando o monitor que espelhava as câmeras da minha casa no computador da boca. — Eu vi pelas câmeras hoje cedo... Clarinha falando que ela parece uma princesa, só que com o cabelo bagunçado.
Fiquei observando o monitor. Isadora estava agora limpando a bancada da cozinha enquanto Clara brincava com o urso por perto. Ela parecia pequena naquela cozinha imensa, um elemento estranho no meu mundo de concreto e pólvora.
— Falando em câmeras — murmurei, ajustando o zoom para focar no rosto dela no monitor —, deixa eu ficar de olho aqui para saber o que ela está aprontando. Eu não mostrei a casa para ela, não dei orientação nenhum. Ela que se vire para procurar as coisas lá. Se ela quer ser a dona da cozinha, vai ter que descobrir onde ficam as facas sozinha.
— Você é r**m, fúria — Nando comentou, saindo da sala para conferir o carregamento que chegava.
— Sou necessário, Nando. Sou necessário.
Fiquei sozinho na sala, as luzes das câmeras refletidas nas minhas pupilas. Eu tinha o controle total. Isadora achava que estava cuidando da minha filha, mas ela ainda não tinha entendido que cada passo dela, cada suspiro, cada lágrima abafada no travesseiro, estava sendo registrado por mim.
Eu ia quebrar aquela dignidade dela, pedaço por pedaço, até que não sobrasse nada além da lealdade que eu exigi. Mas, enquanto olhava para a tela, uma pergunta incômoda martelava na minha cabeça: por que diabos eu ainda conseguia sentir o cheiro daquele café perfeito mesmo estando a quilômetros de distância de casa?
Balancei a cabeça, afastando o pensamento. O jogo tinha acabado de começar.
A luz azulada dos monitores era a única coisa que iluminava meu rosto na penumbra da sala. Lá fora, o som de um funk distante e o ronco das motos subindo a ladeira compunham a trilha sonora do meu império, mas meus olhos estavam fixos na tela central. Isadora agora caminhava pela sala de estar. Ela tocava os objetos com as pontas dos dedos, quase com medo, como se estivesse em um museu onde qualquer erro poderia custar a vida. E, de certa forma, podia mesmo.
Eu a vi parar em frente à estante de livros. Ela parecia pequena, frágil, mas havia uma altivez na postura dela que me dava nos nervos. Por que ela não se curvava? Por que, mesmo sendo uma prisioneira, ela mantinha aquele queixo erguido?
— Procura, Isadora... — sussurrei para a tela, vendo-a abrir uma gaveta e fechá-la logo em seguida ao perceber que estava vazia. — Procura até entender que aqui nada se esconde de mim.
O Nando tinha razão, ela era "direitinha" demais. E é exatamente isso que me preocupa. No meu mundo, a pureza é um alvo. Se ela continuasse agindo como se estivesse em uma casa normal, o morro ia engoli-la viva. Ou eu a quebraria antes disso.
Ajustei o zoom. Ela se sentou no sofá e puxou Clara para o colo, começando a contar uma história. O sorriso da minha filha na tela era um soco no meu estômago. Aquela confiança imediata me incomodava. Isadora estava se tornando essencial rápido demais, ocupando espaços que eu levei anos para fechar com concreto e gelo.
Senti uma vontade súbita de voltar para casa, de entrar naquela sala e apagar aquele brilho dos olhos dela de novo. A mentira sobre o café ainda amargava minha garganta, não porque eu me arrependesse, mas porque eu odiava o fato de ter que mentir para não admitir que ela trouxe um conforto que eu não pedia.
— Você não é uma princesa, Isadora — murmurei, recostando na poltrona e acendendo um cigarro, a fumaça subindo e nublando a imagem dela no monitor. — Você é só o preço de uma dívida. E eu vou cobrar cada centavo.
Fechei os olhos por um segundo, deixando o monitor ligado. Eu podia não estar lá fisicamente, mas eu era a sombra que a seguia. O jogo de gato e rato estava apenas subindo o nível, e eu pretendia ser o único a sair ganhando.