Capítulo 04
Narradora: Isadora
Se o lado de fora daquela casa era uma fortaleza, o lado de dentro era um insulto à minha realidade. Cruzei o batente da porta principal sentindo o peso do fuzil do Nando logo atrás de mim, mas meus olhos foram imediatamente traídos pela visão do luxo. O chão era de um porcelanato tão claro e polido que eu tinha medo de manchá-lo com o solado dos meus sapatos velhos. O ar-condicionado central soprava uma brisa gelada que fazia o suor seco da subida do morro congelar na minha pele.
Era um mundo à parte. Ali não havia cheiro de esgoto, nem de óleo de fritura, nem da imundície da minha casa. Ali, o cheiro era de madeira nobre, perfume importado e... perigo. Um perigo silencioso, sofisticado e muito mais letal do que os gritos da minha mãe.
— Segue reto, garota. Sem enrolação — ordenou Nando, indicando um corredor largo adornado com luzes embutidas.
Minhas pernas pareciam pesas de chumbo. Eu me sentia pequena, uma mancha em meio a tanta ostentação. Fomos levados até uma porta de madeira maciça, escura e imponente. Nando deu duas batidas secas.
— Entra — uma voz grave ecoou lá de dentro. Não era um grito, mas tinha uma autoridade que fez minha espinha vibrar.
O escritório era amplo, mergulhado em uma penumbra estratégica. A única luz vinha de uma luminária de mesa de design moderno, que deixava o resto do ambiente em sombras. Atrás de uma mesa de vidro n***o, sentado em uma poltrona de couro que parecia um trono, estava ele.
O Fúria.
Eu já tinha ouvido histórias, já tinha visto vultos dele passando pela comunidade, mas nada me preparou para a presença física do homem. Ele não estava de uniforme, nem usava correntes de ouro exageradas. Vestia uma camiseta preta que marcava os ombros largos e os braços densos, cobertos por tatuagens que subiam pelo pescoço, desaparecendo sob a mandíbula bem marcada.
Mas foram os olhos dele que me tiraram o fôlego. Eram implacáveis, escuros como o fundo de um poço, e me analisavam com uma frieza que me fez sentir nua, exposta em todas as minhas fraquezas. Ele não se levantou. Apenas ficou ali, observando meu tremor contido, minha postura rígida e o medo que eu tentava desesperadamente esconder.
— Pode sair, Nando. Deixa a porta encostada — disse ele, sem desviar o olhar de mim.
Ouvi os passos do Nando se afastando e o clique da porta. O silêncio que se seguiu foi sufocante. Eu podia ouvir meu próprio coração batendo, rápido demais, alto demais.
— Isadora Alcântara — ele pronunciou meu nome como se estivesse provando um vinho amargo. — Vinte e dois anos. Atendente de lanchonete. Filha da Márcia.
— Você sabe quem eu sou — consegui dizer, embora minha voz tenha saído um pouco rouca. — Então sabe que eu não tenho nada a ver com as escolhas da minha mãe.
Fúria deu um sorriso mínimo, que não chegou nem perto de ser gentil. Ele se inclinou para frente, entrando no círculo de luz da luminária. A luz acentuou as cicatrizes e os traços duros de seu rosto. Ele era perigosamente bonito, de uma forma que assustava.
— No meu morro, as escolhas de um sangue respingam no outro — ele disse, a voz baixa e letal. — Sua mãe deve uma quantia que você não conseguiria pagar nem se trabalhasse naquela lanchonete por três encarnações. Ela apostou o que não tinha, consumiu o que não era dela e achou que o "Fúria" era um nome de enfeite.
Ele pegou um papel sobre a mesa e o girou em minha direção. Eu nem precisei ler os números para saber que era a minha sentença.
— Eu não tenho esse dinheiro — falei, sentindo o desespero subir pela garganta. — Por favor... ela é doente. Ela não sabe o que faz.
— Ela sabe exatamente o que faz. Ela usa você como garantia — ele rebateu, levantando-se da poltrona. Ele era muito mais alto do que eu imaginava. Quando caminhou até o meu lado, senti o calor que emanava de seu corpo, misturado ao cheiro de tabaco e algo amadeirado. — Mas eu não tenho interesse no fígado estragado da sua mãe. Matar a Márcia seria um desperdício de munição. Ela já está morta por dentro.
Ele parou na minha frente, perto o suficiente para que eu pudesse ver cada detalhe das tatuagens em seu pescoço. Eu tive que inclinar a cabeça para trás para encará-lo.
— O que você quer, então? — perguntei, sentindo meu corpo vacilar.
— Eu quero o seu tempo. Eu quero a sua conduta — ele disse, mantendo os olhos fixos nos meus. — Tenho um problema que dinheiro não resolve, e você tem o perfil que eu procuro. Se você aceitar os meus termos, a dívida da sua mãe é congelada. Ela continua viva, com o teto sobre a cabeça e comida na mesa.
— E se eu não aceitar? — O desafio saiu antes que eu pudesse pensar.
Fúria se aproximou mais um passo, reduzindo o espaço entre nós a quase nada. Ele levou a mão ao meu queixo, não com carinho, mas com uma possessividade que me fez arrepiar. Os dedos dele eram calejados e quentes.
— Se não aceitar, você volta para baixo agora mesmo. E amanhã, quando você chegar do trabalho, a única coisa que vai encontrar naquela casa é o rastro de sangue dela na parede da sala. Escolha, Isadora. O tempo é curto e a minha paciência é menor ainda.
Eu olhei para ele e vi que não havia blefe. Não havia piedade. Eu estava diante do homem que governava o inferno, e ele acabara de me oferecer um contrato de servidão em troca da vida da mulher que me traiu.
— Quais são os termos? — perguntei, sentindo as lágrimas queimarem meus olhos, mas me recusando a deixá-las cair.
Ele soltou meu queixo lentamente, um brilho de satisfação c***l passando por suas pupilas.
— Você vem morar aqui. Vai seguir as minhas ordens, sem questionar, sem atrasos. Você vai ser a sombra da minha filha. Vai cuidar da Clara como se a vida dela fosse a sua... porque, a partir de hoje, ela é.
O choque me atingiu. Eu esperava qualquer coisa, menos isso. Eu estava sendo vendida... para ser babá?
— Se você falhar com ela, se ela chorar por sua causa ou se você pensar em fugir... — ele se inclinou, sussurrando perto do meu ouvido, fazendo meu corpo todo estremecer. — Eu mesmo entrego a cabeça da sua mãe em uma bandeja para você.
Eu fechei os olhos por um segundo. A liberdade tinha acabado. A Isadora da lanchonete estava morta.
— Eu aceito — sussurrei, aceitando o meu destino.
— Ótima escolha, Isadora. Bem-vinda ao meu mundo.
O peso daquelas palavras se instalou sobre meus ombros como uma armadura de ferro. Eu esperava ser usada, descartada ou algo pior, mas ser a guardiã do que ele mais amava era uma tortura psicológica que eu não tinha previsto. Ele não queria apenas meu corpo ou meu trabalho; ele queria a minha responsabilidade total.
Fúria deu as costas para mim, caminhando até a janela que oferecia uma visão panorâmica de todo o morro. Do alto daquela fortaleza, ele realmente parecia um deus c***l observando suas formigas.
— Nando! — ele chamou, sem se virar.
A porta se abriu instantaneamente. Nando entrou, os olhos alternando entre mim e o chefe.
— Leva ela para o quarto de hóspedes ao lado do da Clara. Explica as regras da casa. Ela não sai sem minha autorização, não usa celular para falar com ninguém lá embaixo e, se a mãe dela aparecer no portão, a ordem é expulsar.
— Pode deixar, chefe — Nando respondeu, fazendo um sinal para que eu o seguisse.
Saí do escritório sentindo que o chão ainda balançava sob meus pés. Fúria nem sequer se despediu. Para ele, eu já era um objeto de sua propriedade, uma peça no tabuleiro que ele acabou de mover.
Enquanto caminhávamos pelos corredores luxuosos, o silêncio da casa era interrompido apenas pelo som dos meus passos. Passamos por uma porta entreaberta e eu parei por um segundo. O quarto era decorado em tons pastéis, com brinquedos espalhados e uma cama pequena que parecia saída de um conto de fadas. No centro da cama, uma menina de cabelos escuros dormia profundamente, abraçada a um urso de pelúcia.
Era a Clara. O ponto de equilíbrio do monstro.
— É ela — Nando sussurrou ao meu lado, sua voz perdendo um pouco da aspereza habitual. — Ela é tudo o que importa aqui dentro, Isadora. Se você ganhar a confiança dessa pequena, sua vida vai ser um luxo. Se ela te odiar... bom, você já sabe o temperamento do pai dela.
Enguli em seco, observando a serenidade daquela criança. Como alguém tão pura podia ser fruto de um homem tão implacável? O contraste me dava vertigem.
Nando me levou até o quarto seguinte. Era espaçoso, com uma cama king-size, lençóis de fios egípcios e uma varanda privativa. Para qualquer pessoa, seria o quarto dos sonhos. Para mim, era uma cela.
— Tem roupas no armário, produtos de higiene no banheiro. O Fúria já mandou providenciar tudo antes mesmo de você chegar. Ele sabia que você não diria não.
— Ele não me deu escolha — rebati, sentindo uma lágrima solitária escorrer, que limpei rapidamente com o dorso da mão.
— No mundo dele, Isadora, a escolha é um privilégio de quem tem poder. Você agora só tem deveres. Tenta descansar. Amanhã, às seis, a Clara acorda. E a sua nova vida começa.
Ele saiu e trancou a porta por fora. O som da chave virando ecoou no meu peito como o martelo de um juiz. Sentei-me na borda da cama luxuosa, olhando para minhas mãos calejadas de trabalho pesado. Eu tinha salvado a vida da minha mãe, mas a que preço?
Deitei-me vestida mesmo, sentindo o perfume caro dos lençóis me sufocar. Lá fora, o Vidigal rugia com sua vida própria, mas aqui dentro, o silêncio era absoluto. Eu era Isadora Alcântara, a garota que foi vendida para o Fúria. E, pela primeira vez na vida, o amanhã me dava mais medo do que o ontem.