~ Thomas ~
Quando decidi fugir de casa, nunca imaginei que encontraria meu Destinado.
Havia poucos meses que minha mãe tinha falecido, e meu pai Allen Ward, Barão de Melik, assumiu a minha criação. Como era um filho ilegítimo, não podia ser apresentado à sociedade, a não ser que me casasse com alguém de um status alto.
Para mim, isso pouco me importava. Sempre fui criado afastado de tudo isso com a minha mãe. Vivíamos bem as nossas vidas até que ela ficou muito doente e veio a falecer pouco tempo depois.
Cheguei na Mansão Melik sob olhares curiosos, e também de ódio por parte da Baronesa e seus filhos. Como a baronesa não queria um infortúnio dentro de sua casa e que ainda por cima fosse um Ômega que pudesse seduzir seus amados filhos Alfas, ela convenceu meu pai de me casar com um Alfa, e assim sair de casa.
O Alfa que decidiram me casar era um homem mais velho que tinha perdido sua esposa e precisava de herdeiros para continuar o legado de sua linhagem. Ele apareceu algumas vezes para me cortejar desde então. Não se importava de que eu fosse filho ilegítimo de Allen, contanto que fosse um Ômega puro que desse filhos para ele.
Não queria me casar. Não queria viver uma vida infeliz e então decidi fugir para a Capital. Quando estava perdido nas ruas, Anthony me encontrou e me levou para o orfanato que ele cuidava.
Pela primeira vez desde que minha mãe tinha morrido, eu estava verdadeiramente feliz. As pessoas eram acolhedoras e me faziam sentir seguro.
Tive que omitir alguns fatos sobre a minha origem para Anthony. Meu pai é um Barão muito influente, então tive que dizer para ele que Allen não me quis na família. Não que isso também seja uma mentira completa, já que ele queria me casar com qualquer Alfa que me aceitasse como parceiro.
Um dia, Anthony recebeu a visita de um Beta e eles pareciam muito íntimos. O que me deixou curioso era que o Beta emanava feromônios de Alfa nele. Aquele cheiro me atraiu e eu não entendia o porquê, e fiquei pensando nisso por dias. Estava ficando inquieto com esse mistério.
Nos dias que se seguiram, o orfanato ficou agitado por conta do festival que Anthony estava organizando. As crianças estavam felizes porque esse tipo de evento era uma oportunidade de serem vistas por algumas famílias e assim serem adotadas.
Nesses momentos, eu realmente me sentia culpado por ter aonde voltar e essas crianças sempre na expectativa de um dia terem um lugar. Mas no final da contas, acabava relevando porque a Mansão Melik não era meu lar de verdade.
Já haviam se passado 1 mês desde que fugi deles. Dada a influência do meu pai entre os nobres, não seria difícil ele me encontrar em algum momento. Pretendia ficar escondido no quarto durante o festival para não ser visto por algum conhecido.
Mesmo não sendo apresentado oficialmente, todas as famílias que frequentavam as rodas de amizade do meu pai e da baronesa, conheciam meu rosto já que minhas feições eram incomuns.
Meu cabelo é de um dourado brilhante, meu rosto é bastante delicado para um garoto e minha pele, pálida de tão branca. Tudo eram características da minha mãe, exceto os olhos que eram violetas como os de Allen.
Quando chegou o dia da festa, as crianças estavam saltitantes e fiquei emocionado com a alegria delas. Eu entendia metade de seus sentimentos. Consegui convencer Anthony que meu ciclo de calor estava próximo, por isso não queria arriscar ficar do lado de fora. Sabia que ainda faltava alguns meses para isso, porque o último que tive, passei trancado dentro do meu quarto antes de fugir da mansão.
Observava tudo pela janela do quarto, quando em algum momento chegaram algumas carruagens que pareciam ser da Família Real.
No meio deles, o Beta de uns dias atrás estava junto com o Rei e um belo homem de pele morena o rondava. De repente, me senti atraído por ele e não conseguia entender porque estava sentindo uma atração tão forte por alguém que nem conheço. Quando percebi, o aroma de seus feromônios estavam me alcançando mesmo à distância, e meu corpo involuntariamente, começou a derramar meus próprios feromônios. Parecia que um laço tentava nos unir.
Saio do transe quando escuto um alvoroço vindo do pátio. Consigo ver Anthony e o Rei sumirem para dentro do prédio, carregando o homem misterioso. Quando presto atenção, vejo que o Beta os seguiu. Será que eles tem alguma relação?
Decido sair do quarto para ver o que está acontecendo. Primeiro passo pela cozinha para servir chá para eles. Pode ser que o homem que foi levado esteja se sentindo mal...
Conforme vou chegando perto do escritório de Anthony, sinto um pequeno aperto em meu coração. Meu corpo volta a reagir estranho, mesmo assim, bato na porta antes de entrar no escritório. Sou invadido pelo aroma de feromônios, e meu corpo se arrepia todo com aquela sensação. Minhas mãos perdem a força, e deixo a bandeja cair no chão.
Estou me sentindo sufocado, quando pela primeira vez os olhos do homem misterioso se encontram com os meus. Sinto uma força dentro de mim exigindo que esse homem fosse meu, e quando percebo, meu corpo já estava se movendo sozinho em direção a ele.
Começo a soltar meus feromônios, querendo atrair aquele Alfa para mim. Demoro a entender o que está acontecendo, quando por fim, compreendo a situação.
Meu corpo o deseja porque o Alfa que está na minha frente é meu Destinado.
Continuo seguindo em sua direção até conseguir tocá-lo. Sua pele é macia ao meu toque, e sinto que eu também o atraio. Seus feromônios me desejam.
- Você é meu Destinado. Meu Alfa. - Finalmente, solto as palavras que estavam presas dentro de mim.
Tenho a sensação que só existe nós dois nesse momento, quando um barulho quebra a tensão que estava ocorrendo no ambiente. Olho na direção do som, e encontro o Beta de antes nos observando com um olhar carregado de tristeza. Por um momento, isso me perturba.
Como se não suportasse mais estar ali, ele sai correndo do escritório. O Alfa parece voltar à realidade e se prepara para ir atrás do Beta. Acabo segurando seu braço, impedindo que fosse para longe de mim. Ele parece perdido, sem saber o que fazer. Admito estar tão perdido como ele. A única certeza que tenho nesse momento, é que esse homem me pertence, e eu à ele.
- Por favor, não vá... - Eu imploro a ele com a minha voz tremendo. Tenho a sensação de que se eu o deixar ir, serei infeliz para sempre.
- Me solte! Preciso ir atrás de Francis! - Ele grita e se solta de mim. Logo depois, ele sai correndo e eu fico ali parado com as lágrimas rolando por meu rosto.
Depois disso, Anthony me acolhe e explica a situação do meu Destinado. Ele tem um relacionamento de anos com o Conselheiro Real, e isso é conhecido por toda a Corte. Fico pensando em como é possível um relacionamento de um Beta e um Alfa dar certo.
Por fim, decido contar a verdade sobre a minha origem para Anthony e o comunico que voltarei para casa. Eu posso fugir do casamento com aquele Alfa, e viver feliz com o meu Destinado. Isso é o correto.
Antes de voltar para a Mansão Melik, decido passar em um lugar antes. Não sei se conseguirei vê-lo, mas acho que não custa tentar.
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Quando chego ao Palácio, informo que desejo ver o Conselheiro Real. Os guardas me olham com suspeita e me fazem vários questionamentos. Por fim, consigo uma reunião com ele. Não imaginei que conseguiria.
Um mensageiro me leva aos aposentos pessoais do Conselheiro. Ele deve ser muito íntimo dos Reis para conseguir um cargo tão alto, mesmo sendo Beta.
O mensageiro dá uma leve batida na porta e alguém lá dentro responde, permitindo sua entrada.
- Sua Graça, senhor Thomas está aqui. Caso queira algo, só me chamar.
- Obrigado, pode se retirar. - O Beta espera que o mensageiro saia do aposento, e depois dirige seu olhar para mim. - Você veio me procurar mais rápido que eu pensava. Então, senhor Thomas, ao que devo sua visita inesperada?
- Desculpe, mas acredito que Vossa Graça saiba porque estou aqui.
- De fato, imagino. - Ele me observa. Parece se manter calmo, mas é visível que a minha presença o perturba.
- Eu posso estar sendo inconveniente, mas estou aqui para entender qual o tipo de relacionamento que Vossa Graça tem com Lorde Oliver. Como pode ter visto mais cedo, somos Destinados. Você entende o que isso significa?
- Eu entendo o que isso significa, mas você sabe o que significa um relacionamento verdadeiro? Você realmente acha que pode vir aqui e simplesmente me pedir que desista do que tenho com Oliver porque ele é seu Destinado?
A forma como diz isso me desarma por um momento, mas não penso em sair daqui sem uma chance.
- Você me diz tudo isso, mas você sabe que no fundo sou eu que Lorde Oliver vai escolher! Vocês podem ter uma história, mas jamais terão uma ligação de um Ômega e um Alfa. É a mim que ele vai desejar agora que nos encontramos. Você sendo apenas um Beta não será capaz de dar à ele o que eu posso dar. Somos Destinados, é isso é inevitável!
Minhas palavras parecem atingi-lo, porque na mesma hora, Lorde Francis fica pálido e vejo sua mão tremer. Ele pega o sino e logo o mensageiro que me trouxe, aparece.
- Se isso é tudo o que o senhor tem a dizer, pode se retirar. Meu mensageiro irá acompanhá-lo até a saída.
- Claro, Vossa Graça. Por favor, pense no que te disse.
Me retiro dos aposentos de Lorde Francis, e conforme sou guiado até a saída, penso em como vou enfrentar minha próxima batalha: Minha família e meu suposto noivo.
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Chegando em casa, sou recebido com um tapa forte em meu rosto dado pelo meu pai.
- Aonde que você estava escondido todo esse tempo?! Você faz ideia de como tivemos que encobrir seu sumiço para seu noivo?! - Meu pai gritava furioso.
Segurando meu rosto, que começa a inchar com tapa que recebi, tomo coragem para enfrentá-lo.
- Eu não irei casar com ninguém que não seja meu Destinado! Eu o encontrei!
- E o quê?! Você já se entregou por um qualquer?! Thomas você... - Ele se prepara para me dar um novo tapa, mas a baronesa o segura.
- Querido! Se acalme! - Ela segura o braço dele e volta o olhar furioso para mim. - Thomas, seu inútil! A única coisa que exigimos de você é que se case com o Alfa que escolhemos! Com quem você se deitou?
- Eu não me deitei com ele! Eu juro! - Com lágrimas nos olhos, eu finalmente solto a verdade. - O meu Destinado vive no Palácio! Ele se chama Oliver e...
Meu pai para por um momento, como se estivesse pensando no que acabei de falar.
- Oliver? Você diz Oliver, o Conde de Cygnus, que é um dos braços direito dos Reis de Áquila? - Ele diz, ainda sem acreditar. Para falar a verdade, ainda não sabia que ele era um Conde...
Eu confirmo mesmo assim, porque de fato ele estava próximo do Rei Noah.
- Isso é mais interessante do que eu imaginava. - Allen dá um sorriso que arrepia todos os pelos do meu corpo. - Então faremos do seu jeito, Thomas. Iremos providenciar seu casamento com Lorde Oliver.
Com o apoio inesperado que recebo do meu pai, finalmente acredito que enfim terei paz na minha vida.