Thomas

1289 Words
Um milagre? Ou uma aberração? Quando a redblood caiu sobre o escudo, imaginávamos que iria derreter. Mas não, ela sobreviveu. Como vamos explicar isso a corte? Meu pai rujiu ordens para os sentinelas de prontidão, que correram ao encontro da garota, e a capturaram. Já estávamos posicionados quando a maçaneta da porta principal gira. Um conjunto de roupas queimadas e cabelos chamuscados adentra a sala, lutando, em vão, contra os guardas que a segura. - Marie Bettany. Filha de Ruby e Dany Bettany. Redblood. - Meu pai, sem muita paciência, joga as informações que nos interessa sobre a garota, assim como o formulário de identificação.- Como você...? - Sobrevivi? - Ela diz, brusca. - Esperava que você pudesse me dar essa resposta, majestade. Cheia de petulância e grosseria, a garota simplesmente nos encara, sem um pingo de medo. Com um chute estratégico na perna, os guardas a põe de joelhos, em uma reverência forçada. Diante de seu comportamento ridículo, meu pai conclui que não passa de uma redblood. Seu sangue é puramente vermelho. Mas acho que minha mãe sequer precisou entrar em sua mente para adivinhar seus pensamentos. - Eu já disse. Revirei tudo. Ela é redblood da cabeça aos pés. Mas aquilo aconteceu. Nós vimos, a corte inteira viu. - Então foi você que fez aquilo? - A garota parece sofrer ao lembrar. Pelo visto minha mãe exagerou um pouco em seus interrogatórios. - Redblood ou não, precisamos dar um jeito nisso. - O rei diz, ignorando a dor dela sem qualquer cerimônia. Minha mãe finalmente se levanta. Lança um olhar profundo sobre meu pai. - Eu já lhe disse o que fazer. Resolveria todos os nossos problemas. - Não podemos matá-la, Elizabeth - Ele sibila, menosprezando a hipótese - Embora vontade não falta. - Se me matassem, o que diriam a corte? - Marie Bettany rosna, irônica. Para sua condição, está seriamente ousada. Mas meus pais entram novamente em um embate silencioso acerca do destino da garota, e a deixa passar. - Muito bem. - O rei parece finalmente decidido, e acena para que minha mãe prossiga. - Marie Bettany, seu nome passará a ser Marietta Delacroix, filha do falecido general Lorde Ethan Delacroix e Lady Nora Delacroix. Com seus pais mortos na trincheira, um redblood te levou para casa e a criou na lama de seu vilarejo. Durante toda sua vida, pensou ser uma deles, porém agora descobriu quem realmente é. A filha perdida de nosso amigo, general Delacroix. Eu esperava algo assim de minha mãe. Ela sempre foi muito boa com palavras, principalmente mentiras. Poderia governar o mundo com um punhado de sorrisos e pronunciamentos. E não me decepciona agora. Encontrou uma história solucionadora de todas as dúvidas da corte. Marie Bettany parece inacreditada. Não está acostumada com o verdadeiro jogo que é viver na elite prateada. Porém, terá que jogar se quiser sobreviver. E jogar direito. Um passo em falso, e minha mãe cortará sua cabeça. - A junção dos poderes de seus pais gerou algo novo, você. Isso explica o fato de você sobreviver a eletricidade. - Minha mãe explica pausadamente, certificando-se que a nova lady entendeu sua mentira. - Será treinada e vigiada, além de melhorar seu... jeito. Irá adaptar seu comportamento de acordo com o que está em vigor na corte. Viverá aqui, para que eu possa te observar bem te perto. Um passo em falso e você já sabe. Casará com o príncipe e será a próxima princesa. Uma ótima história, as grandes casas com certeza irão acreditar. Entretanto, me incomodo com o final. Se casará com um príncipe. Meu pai jamais permitiria que seu príncipe herdeiro não se casasse com a garota mais poderosa do reino, e creio que essa pessoa não é Marie Bettany. Então se não é Tib, é... - Meu filho Thomas irá pedir sua mão na frente de todas as grandes casas durante o banquete após a Prova. Congelo. Acordei e não tinha nem namorada, agora estou prometido a uma vermelha. E o pior, sequer pediram minha opinião ou me avisaram. - Mãe! - Contesto. Não posso acreditar que não terei voz diante de meu próprio casamento. Cal põe sua mão sobre a minha, em um gesto calmante. Mas percebo que na verdade, tenta me impedir de levantar ou protestar. - Quieto, Thomas. Já foi decidido, e você seguirá minhas ordens a risca. - Ela me interrompe, antes que eu a questione mais. Não irá me permitir um átimo de liberdade. - Se comporte como uma nobre lady da mais alta classe. Você pode até ser redblood no coração, mas sua mente será silverblood, Marietta. A falsa Marietta não esconde o queixo caído. Não acredita - ou aceita - qualquer palavra que minha mãe tenha dito. Assim como eu, não terá liberdade nem no próprio casamento. - E minha vida? - Marie gagueja antes que o rei solte uma risada cortante. - Vida? Que vida? - Ele desdenha. - A garota tem uma família. - Dessa vez, de Tib quem se pronuncia. - Ah. - Meu pai não poderia esboçar mais nojo em sua fala. - Quanto a isso. Pagaremos uma pensão. - E quero que dispensem meus irmãos. - Fico chocado quanto a isso. A garota já parece conformada que até negocia os termos. Como pode aceitar isso? Eu falo como se tivesse alguma opção. - E do meu amigo, Dmitry. - Uns redblood a menos não vai fazer diferença em meu exército. Está feito. Sinto os últimos pregos do meu caixão serem pregados. - Receberá instruções, ordens, avisos e horários pela manhã. Guardas irão lhe acompanhar por onde for. - Minha mãe volta a ditar. - Você será uma arma contra qualquer revolta. Quando os redblood a virem ao nosso lado, irão se controlar. Cada palavra parece atingir Marie como facas. Ser usada como uma arma não será fácil, muito menos controlar qualquer rebelião em massa. - Sentinelas, levem-na. Seguindo as ordens de meu pai, o grupo sombrio leva a garota. Ela nos encara com nojo e medo. E eu não acredito no que me colocaram. Assim que ouço o baque das portas se fechando, disparo: - Como podem? Sequer me perguntaram algo. Não quiseram saber minha opinião ao me envolver em algo do tipo! COMO PODE, MÃE? - Não consigo conter gritos furiosos. - Contenha-se, Thomas. Não perca sua postura. Não perguntamos sua opinião porque não precisamos. Você fará o que lhe foi dito, e fará direito. Sem voltar atrás, sem contestações. Apenas aceite e se prepare. - Minha mãe faz questão de me olhar de cima, mesmo que eu seja mais alto que ela. Quer mostrar que aqui, quem manda é ela, e eu apenas posso obedecer em silêncio. Mesmo sendo o meu destino. - Mas, me casar? Com uma redblood? Isso não está a certo! O que as pessoas vão pensar quando descobrirem? - Não irão! - O rei fecha a discussão, com sua voz forte e decidida, sem deixar espaço para comentários. - Escute sua mãe, garoto, e faça o que ela diz. Fim de discussão. Fervilho em raiva por dentro. Não acredito que fizeram isso comigo. Cortaram minha próprias asas, e não tenho mais para onde ir. Meu destino foi feito por pessoas que não sou eu. Saio da sala sem sequer olhar para trás. Tib tenta me seguir, mas acelero o passo, quase correndo, e o deixo para trás. Não o quero por perto. Não quero ninguém por perto. Não me sinto no controle de minha própria vida. Minha mãe controla todos com suas mentiras medíocres e infalíveis. Todo o meu futuro está nas mãos dela, porque ela o tomou de mim.
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