III - Marie

1954 Words
Havia mais estrelas do que eu podia contar. Era uma noite tão fria e silenciosa ao ponto de ouvir os batimentos do meu próprio coração. Eu corria tão rápido que temia um tropeço. Mas sou rápida e ágil. Muitos anos de prática. Isso não iria acontecer. E essa mesma prática que me deixou esperta, também era o motivo do desapontamento dos meus pais. Parei na frente de um bar na beira da estrada. Não havia sequer percebido que já estava fora da cidade. Sei que eu devia parar. Mas eu precisava. Precisava de algo que eu soubesse fazer, e fazer direito. Passei despercebida por vários bêbados risonhos. Um relógio aqui, uns trocados acolá. Prometi a mim mesma que seria o último. Foram vários "últimos". Até que fitei um homem. Não parecia ser do vilarejo. Suas costas eram retas demais, não possuía os ombros caídos pelo trabalho. Tentei até fisgar uma moeda, mas me surpreendi com sua rapidez em me capturar. E força. - Sua ladra. - Ah, não brinca. Seus braços fortes não me soltaram, e comecei a me incomodar. Surpreendentemente, ele percebeu e me soltou. - Desculpe. Percebi um tom culpado em sua voz. Um estranho sensível. - Por que faz isso? Talvez um quê de curiosidade também. - É o que posso fazer. Antes de... você sabe. - Eu disse. - Antes do que? - Mas você faz perguntas, em! Antes do recrutamento, claro. Sabia que ainda estamos em guerra? - Ironizei, mas tive medo de que ele se irritasse. Afinal, um monte de músculos daquele poderia ter me jogado longe caso o estressasse. - Eu não... - Ele parecia meio embaralhado com as próprias palavras. - Não vou para o recrutamento. Tenho um bom emprego. - Bom para você. Porque quem não tem, faz isso. - Eu apontei bruscamente para mim mesma. Afinal, era isso o que eu era. Nada mais do que uma mera ladra. Ele me observou por alguns minutos.Me incomodei com seus olhos curiosos. Então percebi que isso não passava de pena. - Não me olhe assim. Não preciso de sua compaixão. Existe pessoas bem piores que eu. Antes que ele podesse dizer algo, meus pés passaram a me afastar daquele estranho. Quando virei as costas, não estava muito longe, mas mesmo assim ele gritou: - Meu nome é Tib. - Marie Bettany. - Gritei no mesmo tom, e me afastei mais ainda. Infelizmente, ele veio junto. * Já estávamos na metade do caminho de volta para o vilarejo quando ele voltou a falar. - Então, você irá ser recrutada em breve? - Ele diz, como se ele não fosse também. - É claro! Precisam de mim naquele front, quem sabe não resolvo logo essa palhaçada toda. Já cansei de ouvir falar sobre guerra. - Brinquei. A princípio ele riu, mas logo uma nuvem angustiante perpassou seu rosto. O silêncio a seguir foi mortal, até ser quebrado pelo tilintar de uma moeda. Tib saca uma moeda do bolso e me entrega. - Isso deve ajudar por ora. Fiquei chocada com tal ação. Um tetrarca. Era o suficiente para sustentar minha família por meses. A moeda fria e brilhante ostentava a coroa flamejante do rei. - Seu trabalho deve ser muito bom mesmo. Não é comum os aldeões carregarem uma quantidade como essas por aí. Muito menos dar moedas ao léu. Sua expressão envergonhada me fez pensar que ele tinha muito mais. Mas não toquei no assunto. Estranhamente, não corou. - Quem me dera algo do tipo. - Disse tão baixo que pensei que só eu havia me escutado. Mas não. - Posso dar um jeito nisso, Marie. Minha surpresa devia estar parecendo desespero, pois ele até riu. - Até parece. - Zombei, porém dessa vez ele não riu. Ele realmente falou sério. Mas eu não contestei, não queria contestar. Um dia o mundo acabaria com as esperanças dele como acabou com a minha. Assim que viramos a rua, Tib parou e me deixou seguir sozinha. Acho que queria evitar o lamaçal. - Adeus, Marie. * Acordo às pressas. Minha irmã quase me empurra da cama. Espero que ela tenha um bom motivo para me acordar assim, mas quando desço as escadas, paro. Dois guardas em nossa porta. - Srta. Bettany. Você foi intimada a ir à Summerwood - Uma voz feminina se dirige a mim, e a princípio me assusto. Mas uma criada abre espaço entre os homens, e me convida com um sorriso gentil. Não é possível. Ainda tenho 17. Não podem me levar. Um olhar terno do meu pai me encoraja a segui-los. De qualquer jeito, não poderia me negar a ir com eles. Não tenho esse luxo. A criada me conduz até um grande veículo. Lanço um último olhar para minha família, mas me logo me arrependo. Não tive tempo nem para me despedir deles. Talvez seja até melhor assim. Sem tempo para lágrimas e abraços. - Eu amo vocês. Murmuro para mim mesma, mas sei que eles já sabem disso. Precisam saber. Aos poucos, as casas se dispersam e dão lugar aos pinheiros. O cheiro das coníferas me entristece. Quando voltarei a ver minha família? * O Portal se abre para nós sem quer intervenção. Os guardas reconhecem o veículo e o que transporta. Ou quem. Estive apenas uma vez no Portal, mas não gosto de me recordar desse episódio. A desespero de minha irmã e minha culpa ainda me enojam. Porém, como na primeira vez, não deixo de admirar tamanha beleza. Os arcos ornamentados formam grandes portões, há árvores frondosas em cada esquina e as flores formam um grande véu, colorindo a cidade. Como na primeira vez, os silver se enfeitam com suas sedas e caminham sem pressa pela praça de lajotas. Acho que nunca irei me acostumar com a grandiosidade do Sun Palace. Suas paredes de diamante parecem brilhar com a luz do sol, dando um efeito atemporal ao palácio. E é apenas o palácio de verão. Ao estacionarmos, a criada me conduz pelas passagens de serviço e passamos por vários corredores principais. Tenho um rápido vislumbre do palácio, o suficiente para deixar qualquer garota de vilarejo boquiaberta. Ela despeja um uniforme vermelho sobre minhas mãos. - Meu nome é Wendy, e você serve ao rei agora. - Ela diz, dando palmadinhas no brasão da coroa flamejante em seu peito. - O que? Servir... ao rei? - Gaguejo e chego até a cambalear, mas ela me segura. - Mas é claro que sim. O que mais poderia ser? Antes que eu possa responder, agilmente ela abotoa meu uniforme, ajeita o brasão, e prende meu cabelo num coque meticuloso. Seguimos por um outro corredor, até que ela me entrega uma bandeja de prata reluzente com meia dúzia de taças de cristais. Uma dessa poderia salvar minha família inteira. Percebo um olhar duro de um guarda, e destaco qualquer interrogação em minha mente. Vou servir ao rei. Em seu palácio. A Marie Bettany de Greatwoods riria de minha situação. A Marie de agora, aliviada por desviar-se do recrutamento, carrega as bandejas com determinação. Penso em como cheguei aqui. Alguém deve ter me indicado como criada. Alguém que disse que daria um jeito. Alguém como Tib. O procuro pelos diversos criados apressados que cruzam nosso caminho, mas não o vejo em lugar nenhum. Deve estar ocupado, portanto faço uma anotação mental de agradecê-lo mais tarde. - Você chegou em um dia cheio. - Diz Wendy, praticamente me arrastando. - Vamos ter um evento hoje, mas não sei do que se trata. Temos que servir os convidados em seus camarotes. Mas não se esqueça: somos estátuas vivas. Devemos olhar sem ver, ouvir sem escutar, e jamais falar. Ela me empurra de leve em direção a uma fila de criados. O Jardim é como um grande cilindro elaborado com vários camarotes, cascatas e jardins suspensos. Mais uma obra inefavelmente fantástica. Analiso o movimento dos outros criados para me orientar. Os camarote chamam, e o criado da vez o atende. Antes que eu possa ser chamada, uma voz forte troveja: - Hoje, todos os senhores vieram honrar a meu filho e o reino, então eu, Tiberíades Hüller VI, rei de Northwestern, honro vocês. O rei, uma figura forte e alta, de cabelos muito negros e olhos escuros, ostenta uma coroa de línguas de fogo. Aos poucos, a família real se apresenta em sorrisos e acenos, como se ninguém aqui os conhecesse. A rainha Elizabeth Merand deslumbra-se em sorrisos angulosos, se bravateando em seu vestido de seda azul-marinha e branca, respectivas a sua casa. Curiosamente, o príncipe mais novo é apresentado primeiro. Seus cabelos são negros como o do pai, mas seus olhos azuis gélidos como o da mãe. O príncipe Thomas não deve ter mais de dezoito anos, a julgar por sua languidez. Seu sorriso parece desprezar todos os presentes. - Agora, meu filho, o príncipe herdeiro do trono e de todo o reino de Norta, príncipe Tiberíades VII, das casas Hüller e Jacob. - A voz do rei se enche de orgulho e satisfação ao despejar ruidosamente essas palavras sobre os olhares invejosos da corte. Quando o príncipe herdeiro adentra o camarote, congelo. Meus olhos levam um tempo para se acostumar com a cena. O mesmo criado de ontem, que saia de um bar vermelho, em um vilarejo vermelho, trajava roupas simples e nada mais que um punhado de tetrarcas, agora ostenta um uniforme militar cheio de condecorações lustrosos e um palácio lotado de súditos. Por isso não o encontrei entre os criados, estava muito ocupado se preparando para sua coroa. O Tib que me salvou do recrutamento é o príncipe herdeiro. Consigo perceber os olhares de admiração e aprovação de toda a corte sobre Tib. Estranho, quando o príncipe mais novo foi apresentado, sequer o olharam. As pessoas aqui acreditam e confiam em Tib. Ao decorrer da Prova, descubro que não passa de uma espécime de show de talentos e demonstrações de poder. Várias garotas jogam seus cabelos e piscadinhas para cima do príncipe herdeiro, que por sua vez não consegue fazer nada melhor que um sorriso amarelo. Algumas explodem coisas ao tocar, outras transformam a arena em uma floresta, algumas até convocam uma revoada de pombas, que morrem assim que tocam o escudo elétrico. O escudo não passa de uma fina camada roxa e faiscante, quase invisível, o qual protege toda a corte diante dos poderes estravagantes das candidatas a mão de Tib. Os prateados em geral admiram e estudam o escudo, curiosos. Trata-se de algo que eles não podem controlar. Atendo a um camarote quase no fim da arena, tão próximo a candidata que se apresenta que posso identificar seus cabelos prateados e seus olhos negros como a noite. É uma magnetron, e manipula qualquer pedaço de metal ao seu redor. Em uma demonstração pretensiosa de todo o seu poder, puxa o camarote que estou para frente. Louças caem das mesas e estilhaçam no chão. E eu também. Quando algo que não consigo definir a forma me atinge e me desequilibra. Vejo estrelas. Estrelas vermelhas e brancas. Não, não são estrelas. São faíscas. Me aproximo cada vez mais do escudo. Minha cabeça matuta como me salvar dessa, mas não há nenhuma chance. Estou limitada a continuar caindo e morrer. De repente, sou tomada por uma sensação deliciosa sobre a pele, como se algo dentro de mim tivesse se libertado. Quando sinto minhas roupas derreterem, espero a a sensação de queima me atingir, mas ela não vem. Não fui eletrocutada, como aqueles pombos. Estou viva. Me sinto viva. Olho para cima, e várias cabeças se esticam para me ver. Esperavam que eu fosse incinerada, mas estou viva. As pessoas me olham assustadas, mas não tanto quando a magnetish Lea Doux. Sobrevivi ao escudo elétrico.
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