đź“– CAPĂŤTULO 1
EU SOU FAEL
Meu nome Ă© Rafael Albuquerque.
Mas ninguém me chama assim.
Aqui, onde eu nasci, onde cresci e onde todo mundo sabe da vida de todo mundo…
eu sou o Fael.
Sempre fui.
E, pra ser sincero, gosto mais desse nome.
Rafael é sério demais.
Formal demais.
Parece nome de homem certinho.
E eu… nunca fui exatamente isso.
Tenho 28 anos.
Sou médico veterinário, formado fora daqui. Passei anos longe, estudando, conhecendo outras cidades, outras rotinas… outros tipos de vida.
Mas nunca fui do tipo que esquece de onde veio.
Porque, no fim das contas, não importa onde eu estivesse…
Era sempre pra cá que eu voltava.
Pra terra.
Pra fazenda.
Pra minha famĂlia.
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A famĂlia Albuquerque nĂŁo Ă© pequena.
E também não passa despercebida.
Meu pai construiu tudo o que temos hoje com trabalho.
Muito trabalho.
Nada caiu do céu.
Nada foi fácil.
E talvez por isso… tudo tenha tanto valor.
Hoje, a gente tem trĂŞs fazendas.
Duas são de plantação.
Soja e milho.
Terra boa, produção alta, lucro certo quando tudo corre bem.
E a terceira…
A terceira Ă© a minha favorita.
Gado.
Sempre foi.
Tem algo ali que Ă© diferente.
Mais vivo.
Mais real.
VocĂŞ nĂŁo lida sĂł com terra.
VocĂŞ lida com vida.
Com cuidado.
Com responsabilidade.
E eu gosto disso.
Gosto de saber que o que eu faço tem impacto direto.
Que depende de mim.
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Mesmo sendo herdeiro…
Eu nunca fui daqueles que sĂł manda.
Eu trabalho.
Eu acompanho.
Eu sei o nome de funcionário.
Sei quem tem filho, quem tem problema, quem tá precisando de ajuda.
Meu pai me ensinou isso.
Que respeito não se impõe.
Se conquista.
E aqui…
Aqui isso vale mais do que dinheiro.
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Mas nĂŁo vou bancar o santo, nĂŁo.
Porque eu nĂŁo sou.
E nunca tentei ser.
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Se tem uma coisa que eu gosto nessa vida…
É de viver.
E viver, pra mim, nunca foi ficar parado.
Nunca foi se prender.
Nunca foi dizer nĂŁo quando eu podia dizer sim.
Eu gosto de festa.
Gosto mesmo.
Daquelas boas.
Com mĂşsica alta, gente animada, bebida rodando sem parar.
E mulher…
Bom…
Mulher sempre teve fácil pra mim.
NĂŁo sei se Ă© o jeito.
Se é a confiança.
Se Ă© o nome da famĂlia.
Ou se Ă© tudo junto.
Mas nunca precisei correr atrás demais.
Elas vĂŞm.
Se aproximam.
Se interessam.
E eu nunca fiz questĂŁo de dificultar.
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Mas tem uma coisa importante aqui.
Eu nunca enganei ninguém.
Nunca prometi amor.
Nunca prometi futuro.
Nunca disse “fica” quando sabia que não ia querer que ficasse.
Sempre deixei claro.
Sempre fui direto.
E, pra mim, isso basta.
Porque pior do que não amar…
É fingir que ama.
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Já tive um relacionamento sério.
Um sĂł.
Dez anos.
OlĂvia.
Foi… diferente.
Ela era diferente.
Não era só atração.
NĂŁo era sĂł momento.
Era estabilidade.
Era parceria.
Era… quase tudo.
Mas nĂŁo foi suficiente.
Porque chegou uma hora que ela quis mais.
Quis casar.
Quis formar uma famĂlia.
Quis dar um passo que, pra mim…
Parecia grande demais.
Definitivo demais.
E eu…
Eu nĂŁo consegui.
NĂŁo quis.
Ou talvez nĂŁo estava pronto.
Nunca parei pra entender isso de verdade.
SĂł sei que terminei.
E, desde então…
Nunca mais me envolvi daquele jeito.
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Depois dela…
Eu virei o tipo de homem que vive o agora.
Sem promessa.
Sem peso.
Sem responsabilidade emocional.
E, até hoje…
Funcionou.
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A cidade onde eu moro acompanha esse ritmo.
Ela nĂŁo Ă© pequena.
Mas também não é grande demais.
É do tipo que mistura tudo.
Tradição com movimento.
Campo com festa.
FamĂlia com liberdade.
E, principalmente…
Ela vive.
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As festas de peĂŁo daqui sĂŁo famosas.
Gente vem de tudo quanto Ă© lugar.
Carro cheio.
Hotel lotado.
Bar cheio.
MĂşsica que atravessa a madrugada.
E eu?
Eu estou sempre lá.
Sempre no meio.
Sempre aproveitando.
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NĂŁo Ă© sĂł pela bebida.
Nem sĂł pela mĂşsica.
É pela sensação.
De não precisar ser nada além do que eu sou naquele momento.
Sem cobrança.
Sem expectativa.
Sem ninguém pedindo mais do que eu posso dar.
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Mas aĂ chega o domingo.
E tudo muda.
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Porque, independente de tudo isso…
Eu tenho base.
Tenho criação.
Tenho valores.
E isso nĂŁo muda.
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Todo domingo, eu estou na igreja.
Sentado no mesmo banco.
Com meus pais.
Minha mĂŁe rezando com os olhos fechados.
Meu pai em silêncio, sério como sempre.
E eu ali.
Quieto.
Pensando.
Ă€s vezes nem sei no quĂŞ.
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Mas estou.
E isso, pra mim, importa.
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Porque, no fim…
Eu posso viver do jeito que eu quiser.
Posso sair.
Beber.
Curtir.
Mas eu sei exatamente quem eu sou.
E de onde eu vim.
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E talvez seja por isso…
Que ninguém nunca questionou meu caráter.
Mesmo sabendo de tudo.
Mesmo vendo tudo.
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Porque uma coisa Ă© certa:
Eu posso não ser o homem que se apaixona fácil…
Mas eu também nunca fui o homem que destrói alguém por diversão.
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Ou pelo menos…
Nunca tinha sido.
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Até agora.
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Porque, se tem uma coisa que eu ainda não te contei…
É que tudo isso…
Toda essa certeza…
Toda essa liberdade…
Toda essa vida sem apego…
Está prestes a mudar.
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E nĂŁo vai ser devagar.
Não vai ser fácil.
E, com certeza…
NĂŁo vai ser do jeito que eu estou acostumado.
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Porque, pela primeira vez na minha vida…
Eu vou encontrar alguém…
Que nĂŁo vai se impressionar comigo.
Que nĂŁo vai cair no meu charme.
Que nĂŁo vai aceitar ser sĂł mais uma.
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E, pior ainda…
Vai ser exatamente essa mulher…
Que eu nĂŁo vou conseguir esquecer.
⸻
🌾 GANCHO FINAL
Ela nĂŁo queria nada de mim.
E talvez tenha sido exatamente isso…
que me fez querer tudo dela.