Jess colocou um vestido leve e discreto, uma das poucas roupas que ela conseguirá reaproveitar de sua adolescência, todas eram muito curtas e outras infantis demais. Ela também não havia trazido muita coisa do convento, pois lá ela usava o hábito e não precisava de nada mais que isso, na verdade, ela só tinha essas roupas, porque ainda era noviça, a partir do momento em que ela se decidisse por fazer seus votos, ela teria que se desfazer de tudo o que correspondesse a sua vida antiga.
Vestida assim, ela foi em direção à biblioteca, aproveitou o caminho para observar o que havia mudado na cidade. Tudo estava bem movimentado e haviam coisas novas, alguns restaurantes. Encontrou algumas conhecidas, senhoras que frequentavam à igreja e eram conhecidas como beatas. Elas fizeram questão de demonstrar sua tristeza ao saberem que Jess havia deixado o convento e prometeram fazer uma visita para a dona Maria, além de prometerem fazer uma novena para a recuperação dela.
Na biblioteca, ela se sentiu à vontade, novamente se sentiu em casa. O ambiente, o silêncio, o vazio, os livros. Com a facilidade da internet, esse lugar estava ainda mais vazio que antes, mesmo tendo disponível computadores. Jess se aproximou do balcão pois ela havia entregue o seu cartão quando foi embora, então ela não sabia se poderia andar livremente por ali. Para sua surpresa, a bibliotecária ainda é a mesma de anos atrás, a mulher não era muito velha e parecia entediada com a ausência de pessoas.
- Bom dia.
Ficou clara a admiração nos olhos da bibliotecária ao ver Jess, pelo visto, a mulher não se esqueceu dela, afinal, ela era presença assídua ali.
- Espera um pouco, eu estou te reconhecendo, você é a Jessica, aquela garota que entrou para um convento. Que bom ver você novamente, pensei que não fosse voltar nunca mais.
- Pois é, essa sou eu. Eu voltei.
- Pelo visto, você ainda mantém o hábito da leitura. Muitos agora leêm pelo celular, veja como isso aqui está vazio.
- O livro físico é bem melhor e eu gosto de vir à biblioteca, sempre gostei, os livros são uma paixão.
- Então fique à vontade, se decidir por levar algum, eu faço o seu cartão novamente. Fiquei muito triste, quando você me entregou ele.
Jess sorriu para a mulher, ela não sabia que a mulher ainda se lembrava dela e muito menos que sentia falta de sua presença por ali. Ela percorreu alguns corredores, a disposição dos gêneros haviam mudado, assim como, novos livros foram adicionados ao acervo, por isso ela demorou um pouco até se situar. Ela não tinha uma preferência quanto ao que ler, mas ela seguiu para a prateleira de romances, pois esse tipo de livro não lhe era permitido ler no convento.
Ela se distraiu lendo alguns títulos e ficou feliz por ver livros que ela ainda não tinha lido, seria uma boa distração para suas noites insones. Estava tão compenetrada, puxou um livro que lhe agradou, nesse momento ela tomou um grande susto, um par de olhos verdes a encarou do outro lado. O susto foi tão grande que ela se desequilibrou e caiu, ela não sabia realmente onde enfiar a cara, era vergonhoso demais o modo como ela reagiu. Seu constrangimento só aumentou, quando ela viu claramente a quem pertenciam aqueles olhos, em um primeiro momento ela não queria acreditar, mas era inegável quando o homem que lhe chamou a atenção na pardaria, veio em sua direção, com passos firmes e decididos, como se ele tivesse apenas um destino. Em um segundo ele estava agachado alo lado de Jess, seu semblante transparecia uma preocupação demasiada, para uma situação tão simples, quanto o desequilíbrio de uma garota desastrada.
- Você está bem Jess?
Ela permaneceu em silêncio, estava nervosa e perplexa e o mais importante. Como ele sabe o nome dela? Como ela devia reagir? Não fazia ideia, ainda mais pela proximidade dele, que a deixou com a boca seca e o coração acelerado. Ele interpretou isso como um sinal de que algo não estava bem com ela, talvez estivesse machucada, se sentiu até mesmo culpado, por ter sido descoberto, essa não era a intenção dele, apenas queria observá-la. Antes que ela pudesse ter qualquer reação, ele a levantou em seus braços, como se ela não pesasse nada e a levou em direção à saída.
A bibliotecária se assustou ao ver aquela cena, era tão raro que viessem visitantes e agora isso, ela então perguntou:
- O que aconteceu? Para onde a está levando? Você está bem Jess?
O homem se adiantou e disse:
- Ela caiu e se machucou, eu a estou levando para o hospital.
- Minha nossa, é tão grave assim?
- Não acredito, mas é melhor garantir.
Nesse momento, um pouco mais recuperada, Jess se revirou no colo dele tentando se libertar, mas o homem ficou totalmente impassível, como se ela não estivesse fazendo esforço algum. Claro que ele era bem mais alto e musculoso que Jess.
- Você está bem menina Jess?
Como Jess já estava tentando se livrar dos braços dele, não esperou que ela dissesse uma palavra sequer, se ela se manifestasse contrária a ir com ele, não poderia fazer nada. Ele estava tão ansioso por ter um momento com ela, não deixaria de jeito nenhum essa chance escapar. Caminhou para fora da biblioteca e foi em direção a um carro preto, muito chique, onde ele a colocou dentro do veículo, só então ela conseguiu recuperar a voz, pois não estava mais em contato direto com ele, já não conseguia sentir o calor de seu corpo.
- Quem é você? O que pensa que está fazendo? Me deixe ir embora.
Ele calmamente virou-se para ela e disse:
- Muito prazer, sou Emir Yasen e estou apenas levando a minha mulher de volta para casa.
As órbitas dos olhos de Jess saltaram a ponto de parecer que elas sairiam de sua cabeça. Ela não conseguia entender que tipo de perseguidor maluco é esse homem, antes dessa manhã ela nem sabia de sua existência, como poderia ela agora ser mulher dele, além disso, ela viu a namorada dele mais cedo.
- Eu não sei que tipo de maluco você é, mas de uma coisa eu tenho certeza, eu não sou mulher de ninguém, eu acabei de sair de um convento. Destrave essa porta e eu vou embora em paz e não chamo a polícia.
- Eu sei do seu passado no convento, acredite em mim, eu sei tudo sobre você, mas não sou maluco, sou apenas tua alma gêmea, você vai perceber isso logo, logo.
Jess tentou abir a porta, mas ela já sabia que elas estavam travadas, pois escutou quando o motorista as acionou. Ela estranhamente, não estava com medo e sim com raiva desse homem, ele tem namorada e agora a está rapitando, sem mais nem menos. Ela agora tem que esperar o melhor momento para fugir.
- Nem pense em fugir Jess, já te esperei por muito tempo nessa vida, não vou te deixar partir, nunca.
Ela o encarou com fúria, esse tipo de reação não faz parte de sua personalidade, mas Emir faz o seu sangue ferver de muitas maneiras. Ela não consegue evitar tudo o que está sentindo, mas também não quer que ele saiba o que ele lhe provoca, então termina apenas bufando em seu lugar. O motorista liga o carro, mas não dá a partida, ela então olha para ele sem a menor paciência, ele a sequestra apenas para ficar ali dentro do carro? A encarando seriamente ele diz:
- O cinto de segurança querida, sua vida vale muito.
Mesmo contra toda a probabilidade, Jess apenas obedece ao que ele diz, tão obediente quanto um cão, rosnando para ele, mas fazendo o que ele quer. Assim que ela coloca o sinto ele diz ao motorista.
- Pode ir.
Só então o carro começa a se movimentar.
Jess não faz ideia de para onde esse4 home a está levando, mas ela estranhamente sabe que não há nada o que temer enquanto está com ele, na verdade, ele lhe passa uma sensação de segurança, até mesmo a deixando confortável ao lado dele. Como se ela o conhecesse há muito tempo.
É até mesmo diferente de estar com Damian, ultimamente, ao lado do amigo, ela sente-se desconfortável, como se ele a estivesse a cobrar algo que ela não sabe realmente o que é, assim como a sensação de que algo r**m pode acontecer a qualquer momento. O que é um completo absurdo, pois ela conhece Damian desde a infância, ele sempre a protegeu e cuidou dela. Até mesmo a foi buscar, ontem para lhe dizer da dificuldade que seus pais estavam passando.
Ela concluiu que está sendo apenas irracional, pois ela não conhece esse homem ao seu lado, ele lhe é um completo desconhecido. Sua intuição deve apenas estar lhe pregando peças.
Ainda mais considerando a situação em que ela se encontra neste momento, com certeza pode ser considerado um r***o, pois ele a está levando contra a vontade, para um lugar completamente desconhecido. Ela apenas ficou em seu lugar esperando para ver o que vai acontecer.