Capítulo 2

3243 Words
                                                                                           Tom Tom abriu os olhos e se assustou um pouco com a claridade que entrava pela janela. Demorou apenas alguns instantes para que as lembranças da noite anterior voltassem com força total. Foi o aniversário de seu melhor amigo, Bruno, e eles resolveram comemorar no Dionne’s_ o bar que costumava frequentar sempre que estava no Rio _ em plena terça-feira. Agora que ele estava acordado, se deu conta de que talvez tivesse bebido um pouco demais. Sua cabeça latejava. Mas o que era beber um pouco além da conta, quando sua vida era regada de excessos? Era só mais um dia normal em sua vida. Se virou na cama e pegou o celular em cima da mesa de cabeceira. 11:05. Além de beber demais, dormiu demais também. Dane-se, ele estava de férias. O que não impedia seu agente pé no saco de perturbá-lo, porque a notificação de uma mensagem dele, foi a primeira coisa que chamou a atenção de Tom, na tela do seu celular. Tom suspirou de aborrecimento sabendo que não poderia ser nada bom, e abriu a mensagem. Fernando 11:00: Gostaria de uma explicação para isso. A mensagem foi seguida com um link que direcionava para um site de fofocas, que Tom conhecia muito bem. Ele era matéria constante nesse site. “Tom Castro é flagrado bêbado em bar no Rio de Janeiro.” E abaixo do enunciado, havia uma foto sua, sentado a uma das mesas do Dionne’s, com Bruno e algumas mulheres que ele não se lembrava sequer de ter conhecido. Pela imagem estava claro que ele estava bêbado. Seus olhos estavam pequenos e sonolentos, o cabelo uma bagunça e ele estava muito suado. Um prato cheio para a mídia de plantão. Merda, m***a, m***a. Isso era tudo que ele não precisava naquele momento. Ele tinha decidido dar um tempo na carreira musical, justamente para evitar toda essa d***a. Tabloides, fofocas, gente que não tinha o que fazer se preocupando com a vida dele, julgando cada passo que ele dava em vez de apreciarem sua música. Se ele soubesse que o sucesso profissional vinha acompanhado de toda essa m***a, talvez ele tivesse continuado como mecânico. Financeiramente não era lá essas coisas, mas pelo menos ele tinha paz. Resolveu ignorar a mensagem de Fernando, porque se desse corda, o cara encheria seu saco até Tom perder totalmente a paciência. “Sendo o seu empresário, eu preciso encher o seu saco, senão você faz o que quer” era o que Fernando diria da maneira mais irritante possível, como disse tantas outras vezes. Tom passou a mão no rosto e resolveu que o melhor seria um banho. Só assim para acalmar seus nervos. Enquanto tomava banho, Tom ficou pensando nos últimos cinco anos. Como sua vida virou de cabeça para baixo por causa de um vídeo seu tocando violão e cantando “Nothing Else Matters” do Metallica, postado no f*******: por sua mãe. Era um fato, mães não deveriam usar redes sociais. Depois disso, tudo aconteceu muito rápido. O vídeo teve milhares de visualizações e compartilhamentos, o que fez com que ele se sentisse animado a fazer um cala no Youtube para postar covers de músicas famosas e em seis meses ele tinha um contrato com uma gravadora, em um ano um CD e seu nome no Top 10 das músicas mais tocadas do país. Sem contar as capas de revistas e os contratos com macas famosas. No começo foi bom. Era legal ter dinheiro para gastar com o que ele quisesse, sem ter que se preocupar se o conserto do próximo carro ajudaria a pagar o aluguel do pequeno apartamento que ele tinha no centro do Rio. Mas com o dinheiro e com a fama, também vieram a falta de privacidade, as fofocas, os comentários maldosos na internet, o assédio… Tantas coisas, que constantemente ele se perguntava se tudo valeu a pena. Muitas vezes ele desconfiava que era mais feliz quando era apenas um mecânico qualquer da Zona Sul do Rio de Janeiro, que tocava de vez em quando no Dionne’s para agradar os amigos. Nesse atual momento de sua vida, por exemplo, ele tinha certeza de que sentia mais paz de espírito agora que estava de férias no Rio, dormindo em seu antigo quarto na casa da sua mãe, do que na estrada em turnê. Quer dizer, sua paz de espírito ficou um pouco abalada depois de ver sua cara estampada na primeira página daquela d***a de site, mas ele não deixaria isso o desanimar. Afinal, ele tirou um ano de férias, justamente para se desligar de tudo isso. Fugir da imprensa_ mesmo que eles continuassem no seu pé_, esquecer um pouco os haters nas redes sociais, simplesmente tentar ser ele de novo. Porque a sensação que ele tinha era de que tinha se perdido um pouco ao longo desses últimos cinco anos. Fama demais, dinheiro demais, festas demais, bebidas, mulheres, tudo era em excesso. Tanto, que às vezes ele achava que surtaria a qualquer momento. Não compreendia como algumas pessoas conseguiam levar esse tipo de vida por anos a fio sem enlouquecer um pouco. Mas ele precisava admitir que o fato de seu último CD não ter sido tão bem recebido pela crítica, também contribuiu para que ele decidisse se afastar um pouco. Era isso que ele ganhava por ter aceitado que outras pessoas escrevessem músicas para ele. Assim que terminou o banho, desceu para comer alguma coisa. Estava quase terminando um sanduíche com as sobras do pernil da noite anterior, quando viu um bilhete de sua mãe sobre a mesa da cozinha. “Preciso que compre os itens dessa lista no supermercado. Vamos receber visitas para jantar no sábado.” E abaixo dessas palavras, uma extensa lista com itens de despensa. Tinha muita coisa. E convidados, sério? Pegou o celular e ligou para a mãe. _ Alô?_ ela disse do outro lado da linha_ Você acordou agora?_ Tom pôde sentir a reprovação na voz dela. _ Quase agora… Então vamos ter convidados para jantar sábado? _ Sim, uma professora nova da faculdade e o filho dela. Algum problema? _ Não. É só que seus amigos professores são chatos. _ Você não conhece nenhum deles, como pode dizer que são chatos? _ Bom, é um professor. Não deve ser muito divertido. _ Você devia ter vergonha de dizer algo assim_ Sofia disse impaciente. Tom riu um pouco. _ Eu estou brincando, mãe_ Tom disse, rindo e então adotou uma voz mais séria_ Eu tenho orgulho de você. _ Que bom! _ Enfim, tem alguma coisa que eu deva saber sobre sua nova amiga? Você não disse que é minha mãe, não é? Não tô a fim de ficar dando autógrafo e tirando foto com fã na minha própria casa… _ Você quer dizer, na minha casa_ Sofia o corrigiu e ele revirou os olhos_ E não se preocupe, Elis é muito simpática e tenho certeza que não é uma dos tietes do famoso Tom Castro. _ A única Elis que valia a pena, já morreu_ Tom disse do nada. Ele pôde ouvir Sofia bufando do outro lado da linha. _ Eu tenho que desligar, ela está vindo para almoçarmos juntos. Por favor, compre as coisas que pedi. O dinheiro está debaixo do jarro. Tenha um bom dia, filho. Ela não esperou Tom responder e desligou. Ele olhou para o jarro sobre a mesa da cozinha e viu o dinheiro lá, mas o ignorou. Ele estava há quase dois meses com a mãe, desde que decidiu dar um tempo na carreira e ela nunca lhe pedia nada. Mas ele poderia fazer a d***a da compra para o tal jantar com o dinheiro dele. Sofia sempre teve um pouco de reservas em aceitar a ajuda dele, mesmo agora ele podendo dar a ela uma vida confortável. O que não queria dizer, que ele não tentasse ajudá-la de qualquer forma. Então ele guardou a lista de compras no bolso da calça jeans, pegou a chave do seu carro e saiu.                                                                                             - Tom estava feliz de ter mantido a sua oficina funcionando. Assim que sua carreira de cantor começou a dar frutos, Fernando lhe disse para fechar a oficina, vender, se livrar dela de alguma forma, porque não precisaria mais. Mas ele se recusou. Aquela oficina foi um sonho realizado para seu pai. Foi o negócio que seu pai lutou muito para construir e poder deixar alguma coisa para os filhos quando ele se fosse. Então quando o pai morreu de infarto há 15 anos, Tom jurou que cuidaria da oficina, assim como jurou que cuidaria de sua mãe e irmão mais novo. Era o mínimo que podia fazer. E sendo sincero, mesmo não precisando mais da renda daquele lugar, ele gostava demais de estar ali, como se nada tivesse mudado. Apesar de tudo ter mudado drasticamente. Mas ainda assim, ele apreciava os momentos em que estava lá, em que podia ajudar os mecânicos com suas dúvidas, como se ainda fosse relevante ali. Embora ele soubesse que Marcos, seu amigo de infância, estivesse gerenciando muito bem o lugar. _ Se eu tivesse virado um cantor famoso e estivesse ganhando rios de dinheiro, eu nunca mais colocaria os meus pés aqui._ Marcos comentou aquela tarde, enquanto ele e Tom conversavam no escritório da oficina. _ Essa é a diferença entre a gente_ Tom falou, sorrindo cinicamente antes de dar um gole em sua cerveja. Estava encostado casualmente no batente da porta da sala_ Você é um b****a, eu não. _ Fala sério, Tom. Não entendo você ainda querer manter esse lugar, você não precisa disso. _ Não é esse lugar que sustenta você e os filhos pra quem você tem que pagar pensão? _ Não me entenda m*l, eu sou grato pelo meu emprego… Mas repito, você não precisa disso aqui. _ Não tem a ver com dinheiro e você sabe. _ Eu sei, eu sei… Tem a ver com o seu velho e o amor dele por essa oficina… Você sabe que não deve nada a ele, não é? Tom suspirou. Sim, ele sabia. Mas aquilo não era só pelo pai. _ Eu gosto disso aqui, Marcos. Me lembra que a vida ainda pode ser normal. _ Não a sua_ Marcos pontuou_ Você é o grande Tom Castro. O cara que emplacou todos os singles de trabalho na Parada 10 nacional, vencedor de vários prêmios. Número 1 em vendas de discos e em acessos no Spotify. Cara, você concorreu ao Grammy. Qual é? Sua vida não tem nada de normal. _ Você não entende. _ O quê? Que você prefere tá aqui se sujando de graxa a viajar pelo mundo em turnê, conhecendo um monte de mulher gostosa, doidas para abrirem as pernas pra você e de quebra ganhando milhões? É óbvio que eu não entendo. Tom não disse nada. Ele ficou um tempo olhando para o tampo da mesa do escritório onde Marcos estava sentado agora. O amigo se levantou e pegou uma cerveja na pequena geladeira de frigobar e Tom aproveitou aquele momento para mudar de assunto. _ Bebendo durante o expediente? Acho que vou ter que contratar outro gerente_ ele zombou dando um gole em sua própria cerveja. _ Faça isso e vou expor na internet todas as fotos comprometedoras que tenho suas, e olha que são muitas. Os dois riram e Tom se sentiu grato por aquilo. Ele sentia falta de passar um tempo apenas falando bobagens com Marcos. Assim como sentia falta de conversar com Bruno. Era bom estar com esse tempo e poder se reconectar com eles de novo. _ E aquele tanto de compra no carro? Vai fazer uma festa? Tom bufou de impaciência. A lista de sua mãe era tão grande que não coube tudo no porta-malas do carro. Boa parte das sacolas ele teve que pôr no banco traseiro do veículo. _ Minha mãe chamou uma professora da faculdade pra jantar com a gente sábado. Acho que ela quer fazer um banquete ou sei lá o quê…Então as compras sobraram pra mim. _ É o mínimo que você pode fazer. Tom revirou os olhos e deu um gole em sua cerveja.                                                                                                 - Mais tarde ele encontrou a mãe na cozinha de seu apartamento, parecendo concentrada, enquanto mexia no notebook sobre a bancada da cozinha _ Preciso revisar esses trabalhos_ ela disse, e então ergueu os olhos para ele por cima dos óculos_ Você vai buscar o Bernardo no aeroporto? O voo dele chega em meia hora. _ Eu disse que ia, não é? _ Se não quiser ir… _ Eu disse que ia_ ele repetiu tentando conter a irritação. _ Se vocês vão se tratar com hostilidade enquanto ele estiver aqui, eu vou querer que um de vocês fique num hotel_ Sofia falou num tom sério. _ Foi ele que brigou comigo, ele que foi hostil. Além do mais, ele só vem por alguns dias, então ele que fique num hotel. _ Eu juro, às vezes parece que vocês dois ainda são adolescentes e não dois homens na casa dos 30_ Sofia suspirou e parecia pronta para dizer mais alguma coisa, quando a campainha tocou. Tom caminhou até a porta da frente e para sua surpresa, era Bernardo, seu irmão mais novo. _ Você não ia chegar daqui a meia hora? _ Oi pra você também, Tom_ Bernardo falou e abriu caminho para entrar, uma vez que Tom não saiu da frente, nem o convidou para dentro. Bernardo colocou as malas encostadas no sofá da sala e caminhou em direção a cozinha, com Tom o seguindo de perto. _ Bê_ Sofia o abraçou_ Como foi a viagem, querido? _ Tranquila. Como a senhora está? _ Estou ótima. Estávamos esperando você mais tarde. _ Sim, consegui adiantar o voo. Espero que não tenha problema. _ Nenhum_ Sofia disse, sorrindo e o olhando com carinho. Tom, que estava na porta da cozinha com os braços cruzados, ficou olhando para os dois. A última vez que estiveram os três juntos, foi há dois anos no aniversário de morte de seu pai. Eles não conseguiam se reunir muito nos últimos anos por causa da carreira de Tom. Aliás, foi esse o motivo da briga que ele teve com Bernardo há pouco mais de um ano. O aniversário de 60 anos de Sofia, no qual ele não pôde comparecer, pois tinha ido em sua primeira turnê internacional e na época estava em Portugal. Bernardo achou absurdo que ele não pudesse tirar um final de semana de folga para ir a pequena festa de aniversário que ele e sua esposa, Olívia, tinham organizado para Sofia. O que Bernardo não entendia, é que Tom tinha um contrato, que lhe custaria uma multa se ele quebrasse. Infelizmente ele teve que dar uma entrevista para um programa português divulgando seu CD, exatamente naquele final de semana da festa. Sua mãe entendeu, mas Bernardo não. Bernardo nunca entendia. Ou pelo menos, não fazia questão. Depois disso sempre que eles se encontravam, havia aquela hostilidade. _ Não tem problema se ausentar do escritório por esses dias?_ Tom ouviu sua mãe perguntando a Bernardo, assim que seu irmão mais novo se acomodou em uma das cadeiras na mesa da cozinha. _ Não. O escritório está em obras e eu aproveitei para tirar uns dias de descanso, eles estavam me devendo algumas folgas… _ Parece que todo mundo resolveu tirar um tempo para descansar_ Sofia comentou e olhou para Tom com um sorriso_ A sorte é minha, pois assim meus dois meninos estão em casa comigo, pela primeira vez em anos. _ Parece que a única pessoa que em vez de descansar, está na ativa, é você_ Bernardo disse com um sorriso. _ Eu já descansei muito. Dez anos de descanso é muito tempo. _ E como vão as aulas? Gostando? _ Muito. Ainda estou me adaptando, mas está tudo bem… Falando nisso, sábado vamos receber uma das professoras aqui. Eu a convidei para jantar. _ Ah, legal. É alguma das suas colegas que já conhecemos? _ Não, ela é nova. Se mudou tem menos de duas semanas vinda de São Paulo com o filho. Ela tem uma irmã mais velha que mora aqui também, mas não conhece mais ninguém. Como ela voltou a dar aula agora e eu também voltei há pouco tempo, pensei que seria bom convidá-la… Ela deve ter a idade do Tom mais ou menos. _ Acho uma ótima ideia_ Bernardo sorriu. _ E a Olívia?_ Tom perguntou. Era estranho Bernardo ir passar alguns dias lá sem a esposa. _ Não pôde vir. Tem uma grande exposição prestes a ocorrer na galeria em que ela trabalha e ela não pôde se ausentar agora_ seu irmão respondeu sem olhar para ele. Então Sofia começou a contar a Bernardo como estavam sendo os últimos meses desde que voltou a dar aulas, e ela tentava incluir Tom na conversa, sempre perguntando o que ele achava ou dizendo coisas como “Não é, Tom?” ou “O Tom sabe do que estou falando”, mas simplesmente não rolava. Bernardo m*l olhava para ele quando ele dizia alguma coisa e parecia se esforçar para não rolar os olhos a cada palavra que saía da boca de Tom, o que acabou deixando Tom irritado e cansado. Ele sentia falta do irmão, da cumplicidade, de como um dia foram melhores amigos. Mas mesmo com toda a amizade que um dia os uniu, o relacionamento deles sempre foi feito de altos e baixos. Enquanto Tom sempre seguiu cegamente as ordens do pai na juventude, Bernardo foi o contrário. Ele sempre fazia de tudo para contrariar o pai deles, o que gerava brigas históricas entres os dois, com Tom e Sofia sempre ficando no meio. Enquanto Sofia tomava partido de Bê, Tom se dividia entre os dois. Ao mesmo tempo que ele tentava agradar o pai, ele também queria a felicidade de Bernardo. Bernardo, que sempre foi o que ele mais amou na vida. Aparentemente não era recíproco. E Bê não parecia dar a mínima que agora eles agissem feito estranhos ao lado um do outro. Não parecia sentir falta de Tom como Tom sentia dele. Quantas coisas Tom gostaria de poder compartilhar com o irmão como fazia antes. Falar sobre as inspirações para as músicas que escrevia, comentar as coisas engraçadas que aconteciam nas turnês, as mulheres que conhecia, as aventuras, até mesmo suas irresponsabilidades de artista. Pois ele sabia que o irmão não o julgaria. Mas agora… Agora Bernardo m*l olhava para ele e não parecia fazer questão de resolver qualquer problema que houvesse entre os dois. A revolta de Bernardo com ele foi mais uma das coisas ruins que sua carreira lhe trouxe. Além de todas as outras merdas com as quais ele precisava lidar todos os dias. Mas tudo bem. Ele tinha dez meses pela frente pra tentar consertar o que estava quebrado entre ele e o irmão, e o que estava quebrado em sua vida no geral. E quando voltasse para sua carreira, faria as coisas diferentes, faria do seu jeito e não do jeito que Fernando e a gravadora queriam. Também sem tantas festas, sem tanto s**o com pessoas aleatórias, sem tanta bebida e sem tantos shows. Mais tempo para ele, para a família, para as coisas que lhe faziam bem. Essa seria sua resolução no tempo em que estivesse afastado da música. Talvez assim, pudesse reencontrar o Tom Castro que foi um dia. Sentia uma p**a saudade dele.
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