Capítulo 5

2609 Words
                                                                                                  Tom Foi Tom que sugeriu o restaurante, que na verdade, não era bem um restaurante e sim, sua lanchonete favorita. Se Elis achou r**m, ela não disse nada. E assim, os dois se acomodaram em uma mesa perto da janela e fizeram seus pedidos. _ Você e Bernardo se dariam bem comendo juntos_ Tom comentou, assim que o pedido de Elis chegou. Uma salada de grão-de-bico e frango. _ Com certeza é mais saudável do que… isso_ Elis apontou para o hambúrguer duplo de bacon em frente a Tom. _ Você tá brincando? Isso aqui é um sonho_ Tom falou, dando uma grande mordida em seu hambúrguer e ignorando a expressão de repulsa de Elis_ Então, você já me falou o que sabe sobre a história do Lucas… E a sua história? _ Minha história?_ Elis pareceu confusa, enquanto experimentava sua salada. _ Sim, você tem uma, certo? _ Hum, o que você quer saber exatamente? _ Você disse que foi deserdado… _ Sim, por defender meu irmão gay… _ Como foi isso? _ Pra que você quer saber?_ Elis o olhou com uma expressão de desconfiança. Lá estava a Elis defensiva, que Tom estava tentando tanto colocar de lado. _ Eu quero conhecer você. Isso é r**m? Ok, não havia necessidade de Tom fingir que não estava interessado em Elis. Era óbvio e se Elis não percebeu, ela era burra, coisa que Tom duvidava muito. Então ele sustentou o olhar dela e esperou. Elis corou, mas não desviou o olhar dessa vez. _ Bom, meu pai me pôs pra fora de casa quando eu tinha 17 anos. Minha mãe tentou impedir, mas ela nunca teve muita voz contra ele… Nessa época o Elton tinha assumido um namorado e meu pai não aceitava, mesmo meu irmão não morando mais com a gente, então eu o defendi. Meu pai e eu tivemos uma briga h******l, ele me deu um t**a e eu revidei. Obviamente foi a gota d'água. Depois que ele me expulsou, fui morar com Elton… Minha mãe continuou pagando minha escola na época e pude me formar… Daí passei pra uma faculdade renomada em São Paulo com bolsa integral e fiquei por minha própria conta. _ E não teve mais contato com seu pai? _ Ele só entrou em contato comigo pra dizer que estava me tirando do testamento… O que pra ele não foi nada difícil. Ele já tinha tirado Nico, Elton, Anna e Dionne. _ Isso é sério?_ Tom balançou a cabeça meio chocado. Que tipo de pai era esse? E que tipo de mãe permitia algo assim? _ Sim. Digamos que nós caímos bem longe da árvore, entende? Elton é gay, eu fiquei ao lado dele, Dionne desafiava meu pai constantemente, Anna pediu emancipação aos 16 anos porque estava apaixonada pelo jardineiro da nossa casa, e Nico… Bom, Nico provavelmente é o único de nós que realmente fez algo r**m… Agora pro meu pai os únicos filhos dele, são George e David. Elis deu de ombros como se isso fosse algo simples. _ E sua mãe nessa história toda? _ Minha mãe tentou, ela realmente tentou… Mas meu pai a dominava. Eu não a culpo pelas coisas que nos aconteceram. E no fim, ela só era mais uma vítima do poderoso Charles Harlan. _ Sinto muito pelas coisas que te aconteceram_ Tom falou com sinceridade. _ Obrigada. _ Você é a filha mais novo? _ Sim. E o David é o mais velho. David, depois Elton, George, Nico, Dionne, Anna e eu. _ Às vezes eu gostaria de ter uma família grande… Seria bom ter outros irmãos, ainda mais quando meu único irmão m*l fala comigo_ Tom falou sem pensar muito. _ É, eu percebi isso ontem… O que aconteceu entre vocês?_ Elis perguntou e Tom pensou que já que Elis tinha se aberto tanto, ele poderia fazer o mesmo. _ Também quer me conhecer melhor?_ ele perguntou com um sorriso de canto. _ Bom, eu falei bastante sobre mim. Acho que mereço algo em troca, não?_ Elis sorriu de leve. _ Parece justo_ Tom sorriu de volta, deu um gole em seu refrigerante e começou:_ Bê está bravo comigo, porque ele acha que ponho a minha carreira acima das outras coisas. _ Tipo o quê? _ O aniversário da minha mãe, por exemplo… Quando ela fez 60 anos ano passado, eu não pude participar da comemoração. Eu estava na Europa promovendo meu novo CD. Bernardo não entende que era um compromisso, um contrato. Eu não podia simplesmente largar tudo e voltar pro Brasil. _ Me parece um bom motivo pra ele ficar chateado_ Elis falou com naturalidade. _ Ah, muito obrigado pela compreensão_ Tom disse com sarcasmo. _ Mas eu também entendo você_ Elis continuou_ Imagino que, com certeza, tinha uma multa envolvida. _ Exatamente. _ Você e Bernardo costumavam ser próximos antes disso? _ De uma maneira quase ridícula_ Tom respondeu meio saudoso_ Sinto falta dele. _ Deveria dizer isso a ele então. _ Não é como se ele me desse muita a******a pra me aproximar agora. _ Olha, quando Elton morreu, eu fiquei meio perdida. Foi o pior momento da minha vida, e tem muita coisa que eu gostaria de ter dito a ele e não disse. Nós éramos mais que irmãos, éramos melhores amigos… E eu nunca mais vou ter a oportunidade de dizer a ele o quanto ele era importante… Carla morreu e deixou o filho aos cuidados de uma estranha. Porque mesmo que ela me conhecesse, não nos víamos há anos e bom, eu poderia ser uma pessoa totalmente diferente agora. E para Lucas, eu sou uma estranha… O que eu tô tentando dizer é que a gente nunca sabe o que o futuro nos reserva. Tom olhou para Elis com um sorriso. _ Essa é sua maneira sútil de dizer que devo tomar a iniciativa? _ Alguém tem que tomar_ Elis disse com simplicidade_ Se não for ele, talvez possa ser você. _ É, talvez. Tem mais alguma coisa que você queira saber? _ Posso perguntar porque você abandonou sua carreira? _ Eu não abandonei, estou num ano sabático_ Tom respondeu dando de ombros. _ Por quê? Como Tom poderia responder aquela pergunta sem soar ingrato? Ele sabia os seus motivos, mas também sabia que muita gente não entendia. _ Eu precisava de um tempo_ ele respondeu por fim_ A carreira meio que tava me consumindo. Não me entenda m*l, eu sou grato por tudo que eu conquistei, mas ao mesmo tempo… Às vezes é um pouco demais. _ Se você não estava feliz, fez bem em se afastar. _ É, eu fico me dizendo isso o tempo todo, mas ainda não tenho certeza. A conversa entre os dois ainda demorou por um grande tempo, bem mais do que um almoço normal demoraria. Elis contou mais coisas sobre sua família e Tom lhe contou algumas coisas sobre sua carreira. Eles continuaram conversando mesmo quando já estavam de volta na oficina e continuaram conversando enquanto Tom mexia no carro de Elis. Nunca passou pela cabeça de Tom que falar daquele jeito, com tanta a******a com uma pessoa que conhecia há um dia, fosse tão fácil. Mas era. E além de fácil era outra coisa. Era bom também. Tão bom que ele quase desejou não terminar o serviço no carro de Elis. Ele quase se viu dizendo que não conseguiria terminar até o fim do dia, apenas para ter um motivo para ver Elis de novo. Mas não podia fazer aquilo só porque estava com t***o. _ Prontinho_ ele disse por volta das 17h, assim que o carro estava totalmente pronto_ Geralmente não demora tanto, mas você me distraiu_ ele brincou e Elis sorriu. _ Com certeza você não foi o único a ser distraído. _ Então acho que a culpa da demora é dos dois. Eles riram e Tom pensou se era a hora de tomar alguma iniciativa. Mas mais uma vez seus pensamentos foram interrompidos pelo celular de Elis tocando. _ É a Dionne de novo_ Elis disse e se afastou um pouco para atender. Enquanto ela estava do outro lado da oficina falando ao telefone, Tom ligou o carro para saber se estava tudo funcionando como deveria. Aparentemente sim. Alguns minutos depois, Elis voltou colocando celular no bolso da calça. _ Eu preciso ir. Dionne tem que estar no bar em menos de uma hora e eu preciso buscar o Lucas. _ Eu entendo… Bom, seu carro parece estar em ótimo estado. Se você não estivesse com pressa, eu recomendaria um teste de rua, mas você pode me ligar se ele tiver outro problema. _ Sim, eu testo na ida pra casa da Dionne. _ Ok. Se Tom não estivesse totalmente sujo de graxa de novo e suado, esse seria o momento em que ele faria alguma coisa. Mas ele desconfiava que mesmo que estivesse completamente apresentável, não sabia se conseguiria tomar uma atitude. O que não era típico dele. Mas Elis não era como as outras mulheres com quem ele já tinha se envolvido. Se ela fosse igual, com certeza não o intimidaria tanto. _ Obrigado, Tom. Você abdicou do seu domingo para mexer no meu carro. _ Você tá brincando? Com certeza isso foi mais difícil pra você do que pra mim_ Tom sorriu_ Férias por um ano, lembra? _ Sim, sim_ Elis sorriu de volta_ Bom, eu vou indo antes que Dionne ache que é apropriado levar um garoto de 14 anos pro bar dela. Então Elis estendeu a mão para ele, e Tom a apertou, depois de limpá-la com um pano. Eles ficaram segurando a mão um do outro por um tempo, enquanto se olhavam e o coração de Tom disparou. O que era muito estranho, porque ele só estava com t***o, certo? E o coração dele nunca disparava quando ele só estava com t***o. _ Até mais, Tom_ Elis disse soltando a mão dele e Tom lhe entregou a chave do carro. Quando ela se foi, Tom ficou parado olhando pro lugar onde minutos atrás, o carro de Elis estava. Tom gostava de seu trabalho como mecânico. Ele gostava muito. E embora também amasse a música, ele sentia falta de ser um mecânico. Mas mesmo em seus melhores dias naquela oficina, ele nunca tinha se sentido tão bem quanto naquele domingo. Ele nunca havia mexido num carro com tanta vontade e parado tanto tempo pra conversar com um cliente como tinha sido naquele dia. Não foi um dia produtivo. Ele mexeu muito tempo num único carro, para ganhar nem metade do valor do serviço e mesmo assim, ele tinha aquele sorriso i****a no rosto. É claro que ele estava interessado em Elis. E para ele também era claro que Elis estava interessada nele. Foi bom poder conhecer Elis um pouco mais, poder conversar. Foi bom mostrar para Elis que ele não era apenas um artista arrogante e chato. Ele era mais e gostou de mostrar esse seu outro lado. E foi legal ver alguém como Elis abrir um pouco a guarda nem que fosse por um dia e poder fazer o mesmo de volta. Ainda com um sorriso, Tom puxou a porta de ferro da oficina, a fechando. Ele estava enganado. Tinha sido sim, um dia produtivo.                                                                                                   -                                                                                                 Elis _ Você vai me contar o que aconteceu na casa da Dionne hoje?_ Elis perguntou a Lucas, assim que os dois chegaram em casa_ Ela estava bem chateada quando fui te buscar. Lucas que estava quase no pé da escada para subir pro quarto, se virou para Elis. _ Não aconteceu nada_ o menino respondeu. _ E toda aquela história do macarrão? Olha, a Dionne não sabe cozinhar, Lucas. A única coisa que ela sabe fazer é macarronada e ela só faz em ocasiões especiais. O que quer dizer que para ela, significava muito a sua presença lá. Lucas ficou um tempo parado olhando para ela. E para surpresa de Elis, os olhos do garoto começaram a lacrimejar e ele começou a tremer. _ Lucas, o que foi?_ Elis se aproximou dele com rapidez, colocando as mãos em seus ombros. _ Desculpe, Elis…_ o menino gaguejou enquanto as lágrimas começavam a cair_ Eu… eu não posso… Não posso comer macarrão. Eu não consigo. Ele chorou com mais força e Elis o conduziu até o sofá. _ Ok, você não precisa comer o que não quer. Tá tudo bem, tá tudo bem, meu amor_ Elis passou uma mão pelos cabelos de Lucas e ela estava apavorado. Não sabia o que estava acontecendo_ Mas eu preciso entender o que está havendo, ok? Eu preciso que você se abra comigo… Lucas, você pode confiar em mim. O menino continuou chorando por um tempo e Elis esperou com paciência. Ela continuava repetindo frases para acalmar o garoto. “Está tudo bem”, “Você pode confiar em mim”, “Eu nunca vou te machucar”. Até que Lucas pareceu ir se acalmando e o choro foi diminuindo gradativamente. Então ele olhou para Elis com aqueles olhos azuis inocentes muito vermelhos agora. _ Você quer me contar sobre o problema com o macarrão?_ Elis perguntou calmamente. Lucas ficou imóvel por um instante e depois fez que sim com a cabeça. _ Ok, quando você estiver pronto. Alguns segundos se passaram e Elis pôde notar o quanto aquilo era difícil para o garoto. Mas ela esperou e estava disposta a esperar quanto tempo Lucas precisasse. Então Lucas respirou fundo. _ Quando… Quando Nico morava com a gente… Uma vez a mamãe teve que ir trabalhar a noite no hospital_ uma coisa que Elis sabia sobre Carla, pois ela falou sobre isso em sua carta, é que quando Lucas era bem pequeno, ela fez um curso de enfermagem e que trabalhava num hospital em Santa Catarina_ E… E eu fiquei sozinho com o Nico… Ele fez macarrão pro jantar… Só que nós tínhamos comido macarrão a semana inteira, e… E eu disse que comeria a lasanha que a mamãe deixou no freezer… Então ele me obrigou a comer… Um novo acesso de choro se seguiu e Elis passou a mão nas costas dele até acalmá-lo. O coração de Elis estava disparado de terror. _ Te obrigou como, Lucas? Lucas fechou os olhos com força e quando os abriu, mais lágrimas caíram. _ Ele… Ele segurou a minha cabeça pelos meus cabelos e forçou o macarrão na minha boca… Mesmo depois que eu comecei a chorar, ele continuou fazendo isso… Então eu comecei a vomitar e mesmo assim, ele não parou até eu ter comido a panela inteira_ Lucas chorou com mais força agora_ Eu vomitei tudo depois e ele me fez limpar com a camisa que eu estava usando… E disse que se eu contasse pra mamãe, ele ia fazer tudo de novo e quando eu vomitasse, ia me fazer comer o vômito. O menino levou as duas mãos ao rosto e Elis o puxou para um abraço. Era como se um peso tivesse sido colocado no peito de Elis. Aquela era só uma das coisas que Lucas havia sofrido nas mãos de Nico, Elis sabia. Se sentiu envergonhada por ser irmã de Nico, e por um dia tê-lo amado. Nico não merecia nada. Elis então, apertou o menino contra seu peito e sentiu uma das mãos de Lucas segurar com força a parte de trás da camisa dela. Ficou se perguntando o que mais Nico havia feito pra deixar Lucas tão traumatizado do jeito que estava. Enquanto o choro de Lucas ia molhando a frente da camisa de Elis, um pensamento terrível lhe dizia que o episódio do macarrão era apenas a ponta do Iceberg.
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