RAFAEL (Talibã)
— Cara, vê pra mim aquela minha casa na rua 10. Deixa ela impecável, já tô chegando aí. — Falei no telefone assim que Cauê atendeu.
— Bom dia pra você também meu patrão. — Ele fez graça.
— Tenho tempo pra gracinha não, Cauê. Arruma pra mim, pra ontem.
— Que p***a te mordeu? — Não respondi. — Vou mandar irem lá pra ver se tá tudo certinho.
— Beleza, daqui a pouco colo aí e a gente conversa. — Ele concordou e desligou em seguida.
Abrir o jogo pra Maria não foi fácil, mas foi necessário. Agora a decisão vinha dela, se ela iria ou não se distanciar de mim. Claro que o que eu quero é que ela fique aqui em segurança, mas também não posso ser filho da p**a que nem o pai dela de deixar ela trancada dentro de casa como se fosse uma prisioneira — ela só queria liberdade e eu entendi isso muito bem.
Não queria que ela fosse pra um lugar desconhecido. Apesar de eu conhecer o dono do morro da Penha onde a amiga dela mora, eu preferia que ela ficasse em um lugar onde eu confiasse de olhos fechados. E confio em Cauê. Difícil vai ser fazer Maju confiar também.
Entrei no quarto onde ela estava rindo de alguma coisa com Dona Jane e fiquei feliz por ela estar rindo abertamente assim.
— Vamos? — Falei e as duas perceberam minha presença; a mais nova assentiu.
Peguei a mochila de Maju, mesmo não querendo que ela saísse.
— Já volto, Dona Jane.
— Tá bom, meu filho! Até logo, pequena. — Ela acenou para Maju, que riu e acenou de volta.
— Foi um prazer conhecer a senhora, até logo.
Me enchi de esperança com essas últimas duas palavras.
Maria passou na minha frente, eu fui atrás com sua mochila. Peguei a chave de um dos carros no armário de chaves e descemos para a garagem do prédio.
Maria Júlia estava na minha frente e acabou cambaleando, quase caindo. Mas eu puxei sua cintura para que não se estampasse no chão.
— Maju...
— Eu só tô fraca ainda, desculpa.
— Me promete que não vai pular nenhuma refeição? Vai comer direito e vai se cuidar.
— Eu prometo, vou me cuidar sim.
— Lá na Rocinha tem um posto. Vou marcar umas consultas pra você e uns exames também.
— Tudo bem! — Falou e entrou no carro depois que eu abri a porta para ela.
Dei a volta e sentei no banco do motorista e dirigi até a Rocinha. Estava um silêncio; se eu prestasse bastante atenção, conseguiria ouvir os pensamentos de Maju — ela olhava a janela e não desviava o olhar dali, estava bem concentrada em ver as ruas do Rio de Janeiro.
Poucos minutos depois nós chegamos e eu fui logo pegando a mochila dela que deixei no banco de trás. Abri a porta pra ela e percebi alguns olhares pra mim e pra mulher que estava andando na minha frente. Maju era pequena em estatura mas seu corpo chamava atenção; ela estava mais magra, mas isso não deixou ela menos gostosa.
— Dá pra parar de me olhar? — Ela disse ainda de costas, e eu ri sem que ela percebesse. Ela entrou na casa e olhou cada canto ao redor. — De quem é essa casa?
— Minha. Você vai ficar aqui enquanto pensa bem no que eu te falei mais cedo, qualquer coisa pode mandar mensagem, qualquer coisa mesmo. — Entreguei o celular pra ela. — Meu número já tá salvo e acredito que você já sabe que nessas circunstâncias é melhor não dar seu contato pra mais ninguém.
— Não conheço ninguém aqui.
— Na verdade, eu...
— Cadê tu meu patrão? Fiquei sabendo que já chegou no meu... — Cauê chegou gritando mas se calou quando deu de cara com Maju. — Eita, p***a. Porque tu não me avisou que ela era a nova moradora, Rafael?
Maria Júlia olhava pra ele e pra mim com um olhar mortal.
— Rafael... O que tá acontecendo? — Ela me perguntou baixinho.
— Cauê é de confiança...
— CONFIANÇA? — Ela gritou e eu me assustei porque ainda não tinha visto ela nessa versão enraivada. — O cara que me drogou é de confiança pra você?
— Ei baixinha, eu queria pedir desculpas inclusive. Fiz errado em te apagar, nem pensei nas consequências. Desculpa aí, de verdade. Vou ficar na minha, vou nem chegar perto de ti.
— Fique bem longe mesmo. — Ela saiu de perto indo ver o resto da casa e eu olhei pra Cauê como quem dizia "não vou me meter"; ele levantou os braços em sinal de rendição e eu ri.
— Mas o que aconteceu pra trazer ela pra cá? — Ele perguntou.
— Ela vai precisar ficar fora de casa por um tempo e eu abri o jogo pra ela sobre quem eu sou, ela quer distância de mim também, mas aceitou ficar aqui. — Expliquei superficialmente. — Fica de olho nela pra mim cara, tô confiando em você. Não deixa ninguém se aproximar, eu não sei a intenção de ninguém aqui.
— Conta comigo, tu é meu brother. Vou deixar ninguém perto da princesinha não. — Eu ri e ele fez toque comigo. — Eu vou indo, irmão. Tu vai aparecer aqui no baile né? — Ele foi caminhando pra porta mas esperou uma resposta.
— Venho. — Ele assentiu e foi embora.
Procurei Maju pela casa e ela estava no banheiro se olhando no espelho. Cheguei por trás dela e vi que ela estava se segurando pra não chorar.
— Ei, linda... O que foi? — Ela negou com a cabeça me olhando através do espelho.
— Não é nada, eu só tô cansada. — Ela falou desviando o olhar do meu.
E mesmo sabendo que ela estava p**a comigo, eu me arrisquei a abraçar ela por trás, passei meus braços ao redor da sua cintura na posição que estávamos e beijei sua cabeça, vendo que ela fechou os olhos.
Ela abriu novamente e estava olhando pra nós dois pelo espelho; eu sorri pra ela.
— Não vem com esses sorrisos fajutos pra cima de mim. Eu ainda tô com raiva da sua cara.
— Mas não consegue se afastar, né? — Ela estreitou os olhos pra mim. — Você não tem nada a perder estando perto de mim, linda, eu sou só lucro. — Ela riu negando com a cabeça.