cap 24 agindo como se nada

1089 Words
RAFAEL (Talibã) — Cara, vê pra mim aquela minha casa na rua 10. Deixa ela impecável, já tô chegando aí. — Falei no telefone assim que Cauê atendeu. — Bom dia pra você também meu patrão. — Ele fez graça. — Tenho tempo pra gracinha não, Cauê. Arruma pra mim, pra ontem. — Que p***a te mordeu? — Não respondi. — Vou mandar irem lá pra ver se tá tudo certinho. — Beleza, daqui a pouco colo aí e a gente conversa. — Ele concordou e desligou em seguida. Abrir o jogo pra Maria não foi fácil, mas foi necessário. Agora a decisão vinha dela, se ela iria ou não se distanciar de mim. Claro que o que eu quero é que ela fique aqui em segurança, mas também não posso ser filho da p**a que nem o pai dela de deixar ela trancada dentro de casa como se fosse uma prisioneira — ela só queria liberdade e eu entendi isso muito bem. Não queria que ela fosse pra um lugar desconhecido. Apesar de eu conhecer o dono do morro da Penha onde a amiga dela mora, eu preferia que ela ficasse em um lugar onde eu confiasse de olhos fechados. E confio em Cauê. Difícil vai ser fazer Maju confiar também. Entrei no quarto onde ela estava rindo de alguma coisa com Dona Jane e fiquei feliz por ela estar rindo abertamente assim. — Vamos? — Falei e as duas perceberam minha presença; a mais nova assentiu. Peguei a mochila de Maju, mesmo não querendo que ela saísse. — Já volto, Dona Jane. — Tá bom, meu filho! Até logo, pequena. — Ela acenou para Maju, que riu e acenou de volta. — Foi um prazer conhecer a senhora, até logo. Me enchi de esperança com essas últimas duas palavras. Maria passou na minha frente, eu fui atrás com sua mochila. Peguei a chave de um dos carros no armário de chaves e descemos para a garagem do prédio. Maria Júlia estava na minha frente e acabou cambaleando, quase caindo. Mas eu puxei sua cintura para que não se estampasse no chão. — Maju... — Eu só tô fraca ainda, desculpa. — Me promete que não vai pular nenhuma refeição? Vai comer direito e vai se cuidar. — Eu prometo, vou me cuidar sim. — Lá na Rocinha tem um posto. Vou marcar umas consultas pra você e uns exames também. — Tudo bem! — Falou e entrou no carro depois que eu abri a porta para ela. Dei a volta e sentei no banco do motorista e dirigi até a Rocinha. Estava um silêncio; se eu prestasse bastante atenção, conseguiria ouvir os pensamentos de Maju — ela olhava a janela e não desviava o olhar dali, estava bem concentrada em ver as ruas do Rio de Janeiro. Poucos minutos depois nós chegamos e eu fui logo pegando a mochila dela que deixei no banco de trás. Abri a porta pra ela e percebi alguns olhares pra mim e pra mulher que estava andando na minha frente. Maju era pequena em estatura mas seu corpo chamava atenção; ela estava mais magra, mas isso não deixou ela menos gostosa. — Dá pra parar de me olhar? — Ela disse ainda de costas, e eu ri sem que ela percebesse. Ela entrou na casa e olhou cada canto ao redor. — De quem é essa casa? — Minha. Você vai ficar aqui enquanto pensa bem no que eu te falei mais cedo, qualquer coisa pode mandar mensagem, qualquer coisa mesmo. — Entreguei o celular pra ela. — Meu número já tá salvo e acredito que você já sabe que nessas circunstâncias é melhor não dar seu contato pra mais ninguém. — Não conheço ninguém aqui. — Na verdade, eu... — Cadê tu meu patrão? Fiquei sabendo que já chegou no meu... — Cauê chegou gritando mas se calou quando deu de cara com Maju. — Eita, p***a. Porque tu não me avisou que ela era a nova moradora, Rafael? Maria Júlia olhava pra ele e pra mim com um olhar mortal. — Rafael... O que tá acontecendo? — Ela me perguntou baixinho. — Cauê é de confiança... — CONFIANÇA? — Ela gritou e eu me assustei porque ainda não tinha visto ela nessa versão enraivada. — O cara que me drogou é de confiança pra você? — Ei baixinha, eu queria pedir desculpas inclusive. Fiz errado em te apagar, nem pensei nas consequências. Desculpa aí, de verdade. Vou ficar na minha, vou nem chegar perto de ti. — Fique bem longe mesmo. — Ela saiu de perto indo ver o resto da casa e eu olhei pra Cauê como quem dizia "não vou me meter"; ele levantou os braços em sinal de rendição e eu ri. — Mas o que aconteceu pra trazer ela pra cá? — Ele perguntou. — Ela vai precisar ficar fora de casa por um tempo e eu abri o jogo pra ela sobre quem eu sou, ela quer distância de mim também, mas aceitou ficar aqui. — Expliquei superficialmente. — Fica de olho nela pra mim cara, tô confiando em você. Não deixa ninguém se aproximar, eu não sei a intenção de ninguém aqui. — Conta comigo, tu é meu brother. Vou deixar ninguém perto da princesinha não. — Eu ri e ele fez toque comigo. — Eu vou indo, irmão. Tu vai aparecer aqui no baile né? — Ele foi caminhando pra porta mas esperou uma resposta. — Venho. — Ele assentiu e foi embora. Procurei Maju pela casa e ela estava no banheiro se olhando no espelho. Cheguei por trás dela e vi que ela estava se segurando pra não chorar. — Ei, linda... O que foi? — Ela negou com a cabeça me olhando através do espelho. — Não é nada, eu só tô cansada. — Ela falou desviando o olhar do meu. E mesmo sabendo que ela estava p**a comigo, eu me arrisquei a abraçar ela por trás, passei meus braços ao redor da sua cintura na posição que estávamos e beijei sua cabeça, vendo que ela fechou os olhos. Ela abriu novamente e estava olhando pra nós dois pelo espelho; eu sorri pra ela. — Não vem com esses sorrisos fajutos pra cima de mim. Eu ainda tô com raiva da sua cara. — Mas não consegue se afastar, né? — Ela estreitou os olhos pra mim. — Você não tem nada a perder estando perto de mim, linda, eu sou só lucro. — Ela riu negando com a cabeça.
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