O despertador toca antes do sol nascer. A primeira reação é odiar o som, a segunda é prometer a mim mesma que amanhã coloco pra tocar vinte minutos mais tarde. Mas, como sempre, eu levanto.
O chão frio do quarto me desperta de vez. Caminho até a cozinha ainda sonolenta, amarro o cabelo num r**o alto e preparo um café forte, do jeito que o Heitor odeia, preto, sem açúcar. Tomo o primeiro gole encostada na bancada, olhando a claridade tímida que começa a invadir a varanda.
Lá fora, a cidade ainda está meio adormecida, mas já há vida: o barulho distante dos ônibus, o porteiro lavando a calçada, alguém correndo na praia.
Visto a roupa de academia: legging preta, top e uma camiseta larga e calço o tênis com a lentidão típica de quem ainda não aceitou que o dia começou. No espelho da sala, confiro o reflexo: cabelo preso, olheiras disfarçadas e uma preguiça que nem o café vence. Dou um meio sorriso.
— Vamos lá, guerreira — murmuro pra mim mesma.
A academia fica a dez minutos de caminhada, e esse trajeto virou uma espécie de ritual. Passo pela padaria que já abre cedo, sinto o cheiro de pão quente e ouço a risada do atendente chamando as senhoras pelo nome. O ar da manhã tem aquele frescor salgado do mar, o tipo de coisa que só a Barra tem.
Quando chego, o ambiente já está vivo: som alto, gente suando, o instrutor animado demais pra hora que é. Coloco os fones e me desligo. Uma hora de treino, música alta e nenhuma preocupação. É a parte do dia em que consigo calar a cabeça.
Enquanto corro na esteira, observo o movimento pelo reflexo do espelho. Pessoas que parecem ter tudo sob controle: corpos perfeitos, sorrisos tranquilos, planos de viagens e brunchs. Eu nunca fui assim. Não planejo tanto. Só sigo o fluxo, tentando manter o equilíbrio entre o que quero e o que posso.
Depois do treino, paro pra respirar um pouco. Pego o celular e vejo uma mensagem do Heitor:
"Bom dia. Tá viva?"
Rio e respondo, digitando com os dedos ainda trêmulos do esforço:
"Viva e suando. Você devia tentar um dia."
Ele visualiza, mas não responde. Nada anormal, o Heitor é assim. Às vezes aparece com dez áudios seguidos, às vezes some o dia inteiro. Eu me acostumei.
No caminho de volta pra casa, passo na padaria e compro um croissant e um iogurte natural. O sol já está alto, dourando as fachadas dos prédios e refletindo no mar.
Sinto uma leveza que me faz bem — corpo cansado, mente quieta, e a sensação simples de que tudo está no lugar.
Quando chego em casa, coloco o croissant num prato, deixo o celular carregando e abro as janelas da varanda. O vento quente invade o apartamento, bagunçando as cortinas.
Me sento pra comer e penso que talvez esse seja o tipo de manhã que vale a pena guardar: comum, tranquila, cheia de vida sem esforço.
Nenhuma preocupação, nenhuma sombra. Só o som do mar, o gosto do café e a falsa certeza de que o mundo continua igual.
O resto da manhã passa devagar, do jeito que eu gosto. Depois do café, tomo um banho demorado, deixo o cabelo secar ao natural e fico de short e camiseta, estudando na varanda. O sol entra de lado, aquecendo a pele, e o barulho do mar se mistura com o das gaivotas. O vento sopra leve, trazendo o cheiro de maresia e o som distante das pessoas caminhando lá embaixo.
Por alguns instantes, a vida parece perfeita na sua simplicidade. Anoto algumas ideias para o trabalho, tomo um suco gelado e deixo o corpo relaxar na cadeira. O celular vibra algumas vezes com mensagens da Lídia sobre a aula da tarde, mas eu não me apresso. É uma daquelas manhãs que a gente sente que pode durar pra sempre, ou pelo menos até o mundo resolver mudar de ideia.
O toque do celular me tira desse transe. Dessa vez não é mensagem. É ligação.
"Heitor 💀".
Sorrio antes de atender.
— Já me stalkeando de novo? — brinco, colocando o celular no ouvido.
Mas o que vem do outro lado não é a voz dele.
É um barulho de fundo, vozes altas, confusão.
E então, uma voz feminina, firme, sem emoção:
— É a irmã do Heitor Ferreira? — O ar me escapa por um segundo.
— Quem tá falando?
— Aqui é a delegada Marta, do 32º DP. Seu irmão foi preso agora há pouco.
Por um instante, o som do mar desaparece. O mundo fica mudo. As palavras demoram pra se encaixar, como se não fossem comigo.
— Preso? — repito, num sussurro. — Deve ter algum engano...
— Não há engano, senhora. Ele foi detido durante uma operação. Está tudo sob controle, mas precisamos que a senhora compareça pra assinar alguns documentos.
Olho ao redor como se o apartamento pudesse me dar uma resposta. Tudo continua igual: o sol, o vento, o som das ondas. Só eu mudo. Uma sensação gelada sobe pelas mãos até o peito.
— Ele tá bem? — pergunto, a voz falhando.
— Está. Nenhum ferimento. Mas será transferido nas próximas horas.
A ligação termina com orientações práticas: endereço, horário, documentos. Coisas que soam normais demais pra uma situação que parece absurda. Fico parada no meio da sala, o celular ainda na mão, o coração batendo alto demais.
O Heitor preso.
A ideia é impossível, mas real. Meu irmão, o homem que sempre soube se proteger, o que sempre disse que nada podia atingi-lo... agora está atrás de uma grade.
Meu primeiro pensamento é negar… Talvez eu ainda estivesse dormindo e isso fosse um pesadelo horrível.
Deixo o corpo cair no sofá, o olhar perdido. As vozes da rua lá embaixo continuam as mesmas: crianças, buzinas, vida. Mas dentro de mim, tudo silencia.
Pela primeira vez, o apartamento parece grande demais. Vazio demais e uma única pergunta começa a ecoar na cabeça, insistente, sufocante: O que ele fez dessa vez?