Chicago

1089 Words
Subi as escadas de Montmartre com o esterno apertado. Não por fôlego. Por cálculo acelerado. A cada degrau, a imagem do recorte plastificado voltava: Salvatore. Rival direto da Costa Holding. O nome na pasta de couro. O mesmo nome que ele sussurrou enquanto minha nuca tocava o travesseiro dele. O mesmo homem que deixou café na mesa e mandou eu esperar. Inimigo do meu pai. Alvo da minha guerra. E eu, cadáver viva no papel, tinha aberto as pernas para o outro lado do tabuleiro. Clara girou a chave. Duas voltas. Corrente de aço engatada. Encostou as costas na madeira e me fixou. — Respira. Tirei o tênis. Joguei a bolsa no piso de taco gasto. Andei em círculo no studio de cinco metros. O ar parecia rarefeito. As paredes, estreitas demais para o volume do erro. — Ele é o principal concorrente do Alberto — falei, voz baixa, cortante. — Meu pai tentou quebrar ele no ano passado. Bloqueou embarque, moveu liminar, comprou laudo técnico. E eu dormi com ele. Duas vezes. — Três, se contar que você apagou de verdade — Clara corrigiu, seca. — Não ajuda. Sentei no colchão fino. As mãos tremiam. Peguei o pote de vidro sobre a geladeira. Espalhei as notas de euro na mesa. Comecei a contar. Não por necessidade. Por ritual. Um, dois, três. O ritmo mecânico travava o pulso. O cheiro do dinheiro era poeira e tinta de banco. Real. Seguro. — Ele vai rastrear — continuei. — Quando voltar e encontrar a cama fria, não vai achar que fui à padaria. Vai cruzar registro de entrada, vai ligar para o bar, vai verificar câmeras do hall. Arthur Salvatore não aceita fuga silenciosa. Vai bater Helena Moura contra Elena Costa. Vai perceber que a funcionária da lavanderia tem CPF que não gera nota, que a postura não combina com o bairro, que o sotaque não fecha com Vitória. E vai concluir o óbvio: eu subi na cama dele para extrair rota, senha, fraqueza. Clara cruzou os braços. — Você subiu para extrair informação? — Claro que não. — Então ele vai errar a leitura. Homem com império sempre acha que o corpo é contrato. Nunca considera acidente. Nunca aceita que alguém só queria calor. Levantei. — Precisamos sair. Agora. Paris encurtou. Ele tem escritório no 8º, tem rede de segurança privada, tem hotel de fachada para reuniões. Ficar é entregar mapa. — Para onde? — ela perguntou. Pensei rápido. Não ao Brasil. Não à Europa. Precisava de cidade grande, fria, com trânsito de imigrantes, onde sobrenome não virava currículo. — Chicago. Direto ou com escala em Toronto. Clima rígido, comunidade brasileira dispersa, ninguém liga para sotaque ou histórico. A gente some por lá. Trabalha em turno. Espera o rastro esfriar. Clara assentiu. Devagar. — Helena Moura queimou. Precisamos de documento novo. Passaporte limpo. Visto de turista. Entrada registrada, biometria falsa, histórico digital em branco. — A Gabi cobrou oito mil no Rio. Não temos margem para mais. — Deixa comigo — ela pegou o celular. Desbloqueou. Discou. — Conheço um cara. Francês, tatuagem no pescoço, trabalha com visto para magrebinos e brasileiros em situação irregular. Ele faz documento, carimbo, registro na base Schengen. Limpo. — Você dormiu com falsificador? — Eu durmo com acesso útil — respondeu, já falando em francês. Voz baixa, ritmo negociador. Riso curto. Desligou. — Ele faz o pacote. Dois passaportes canadenses. Nomes novos, biometria falsa, entrada registrada no sistema. Quinze mil euros. Arregalei os olhos. — Quinze mil? É um terço do lastro. — Não sai do nosso caixa — ela piscou. — Eu tenho moeda de troca. Ele me deve favor desde o inverno passado. Eu pago do meu jeito. Você entra com o dinheiro vivo para a passagem e aluguel. Fiquei em silêncio. O vento batia na janela m*l vedada. O frio entrava. — Clara… — Relaxa. Não é chantagem. É acordo. Consensual. E ele é bom no que faz. Você foca na logística. Eu resolvo o papel. Respirei fundo. — E depois? — Depois a gente pega voo para O'Hare. Chega como canadense em temporada de frio. Aluga quarto em Logan Square. Trabalha em turno. Junta dólar. E planeja como usar o fato de que você conhece a cama do Arthur Salvatore e a planta da casa do Alberto Costa. Sentei de novo. A cabeça pesava. Três meses atrás, eu assinava contrato de buffet. Agora, eu calculava rotas de fuga com passaporte falso e inimigo na cama. A ironia não tinha graça. Tinha peso. — Já sei como você vai pagar — falei. Ela riu. Canto da boca. — Já sei como você vai pagar também. — Como? — Com a verdade. Quando o momento chegar, você vai sentar na frente dele e falar seu nome. Vai ver se ele prefere destruir seu pai ou proteger a mulher que já esteve nua na suíte dele. Estômago contraiu. — Você é louca. — Sou prática — ela respondeu. — Você tem acesso. Sabe onde o cofre do seu pai fica. Sabe como o Arthur respira quando está cansado. Em guerra, informação é munição. E você está carregada. Puxei a mala do armário. Abri. Tirei o vestido rasgado da noite da fuga. Tecido sintético, costura arrebentada, mancha de chuva seca. Não guardei por sentimentalismo. Guardei por lembrete. A mulher que correu era alvo. A mulher que dobrou roupa em Paris era camuflagem. A próxima seria lâmina. Clara sentou ao meu lado no colchão. O piso rangia. — Chicago então — ela disse. — Novo nome. Nova geografia. Nova espera. Até o sinal verde. — Voltar para quem? Para o Alberto ou para o Arthur? — Para os dois — ela respondeu. — Um te vendeu. O outro vai te usar. A diferença é quem paga a conta. Naquela noite, não dormimos. Dobramos roupas. Separamos notas. Contamos passagens. Guardamos a foto da minha mãe entre duas camisetas grossas. Deixamos as chaves na mesa da Madame Dubois. Junto, um envelope com o último mês de aluguel e um bilhete curto: Merci. La porte reste fermée. Às cinco da manhã, o metrô apitou na estação Abbesses. Descemos as escadas de azulejo branco. O ar subterrâneo cheirava a ozônio e trilho velho. O vagão estava quase vazio. Luz fluorescente piscando. Eu encostei a testa no vidro. Montmartre sumia na neblina cinza. Paris não foi refúgio. Foi bancada de afiação. Agora, a lâmina precisava de novo cabo. Próxima parada: Chicago. Com nome trocado. Com frio no osso. Com a mesma fome de antes. Vingança não se apressa. Se calibra.
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