Chegada

1288 Words
Entrego o documento pela a******a de vidro. O oficial da Polícia Federal folheia as páginas, compara a foto com meu rosto, verifica o visto de entrada. Carimba. O som seco ecoa no balcão. Ele nem levanta os olhos da carimbeira. — Bem-vinda de volta ao Brasil, Sra. Laurent. — Obrigada. Recolho o passaporte. Guardo no bolso interno da bolsa. Sinto o peso do papel contra a coxa. Clara empurra o carrinho de malas. As rodas batem no piso liso do desembarque internacional. O ar condicionado do terminal é forte, mas o calor do Rio já espera do outro lado das portas automáticas. — Você tá tremendo, Clara diz, ajustando a alça da bolsa no ombro. — Não tô. — Tá sim. Sua mão. — É o ar-condicionado. E a altitude da esteira. Anthony puxa a barra da minha calça. Ele usa tênis novo, cadarço bem amarrado. " — Mãe, a rede Wi-Fi pública aqui é aberta. Posso fazer um teste de latência? — Não. — Por quê? — Porque a gente acabou de desembarcar. E porque você não vai hackear o sistema de um aeroporto federal na primeira hora. — Justamente. É vulnerável. Se eu entro, vejo a falha antes de outro entrar. Eloá segura meu dedo indicador. Aperta com força constante. O calor da mão dela atravessa a pele. — Tá calor. — Eu sei, amor. O clima aqui é diferente. — Podemos tomar sorvete? — Depois do hotel. Depois do check-in. Caminhamos até a saída. Porta automática abre. O ar quente bate no rosto. Cheiro de asfalto, diesel, maresia pesada. Nada mudou na orla. Só o peso da minha mala e a postura da minha espinha. Mantenho o queixo reto. Respiração controlada. Passo firme. Motorista particular abre a porta do SUV blindado. Uniforme impecável. Postura rígida. — Hotel Fasano, senhora Laurent? — Isso. Entro. Clara senta do meu lado. Crianças nos assentos de trás, presas nos cintos de segurança. Partimos. Trânsito na Avenida Vieira Souto. Motoqueiros entre os carros. Semáforos vermelhos longos. Olho pela janela vidrada. Ipanema. Leblon. Mesmas fachadas. Mesmas calçadas. Meu estômago contrai. Não por nervosismo. Por cálculo. Cinco anos fora. Cinco anos construindo base. Agora, fase de execução. — Cinco anos, Clara diz, olhando para a rua. — Eu contei. — E aí? Como se sente? — Como se a operação tivesse entrado no cronograma. Anthony já conectou o tablet a um hotspot próprio. Tela acesa. Dedos rápidos. — Mãe, o sistema de rastreamento do carro usa protocolo antigo. Dá para monitorar a rota em tempo real. — Desliga, Anthony. — Já desliguei. Só verifiquei a segurança. Eloá abre o caderno de desenho. Lápis azul. Risca linhas retas. Mostra para mim. Três figuras. Um prédio grande. Janelas alinhadas. — Quem é? pergunto. — A gente no Rio. — Gostei. Guardo o caderno no bolso da bolsa. Mão firme. Olho fixo na rua. Entrada do Fasano. Piso de mármore polido. Ar condicionado gelado. Funcionária atrás do balcão de madeira escura. Postura reta. Uniforme impecável. — Reserva no nome de Emma Laurent. — Sim, senhora. Suíte presidencial. Três adultos e duas crianças. Laurent Group. — Dois adultos. Duas crianças. Corrijo a voz. Tom neutro. Sotaque controlado. Sem vibração. Sem pressa. — Perdão. Ajustado. Bem-vinda. Vi sua matéria na Forbes Brasil ontem. — Obrigada. Clara cochicha. — Forbes Brasil já? — Clara. — Desculpa, chefe. Recebo o cartão magnético. Sigo para o elevador privativo. Eloá aperta o botão do andar. Anthony encosta a mão no painel de aço. Tenta deslizar os dedos pela superfície. — Para os dois. — Foi ela, Anthony aponta. — Foi você, Eloá faz a cara. Inclina a cabeça. Aperta os lábios. Eu rio. — Ninguém resiste mesmo. Portas se fecham. Subimos. Silêncio. Apenas o zumbido do motor e o rangido suave dos cabos. Suíte 412. Vista para o mar. Varanda fechada. Camas king size. Mesa de reunião com cadeiras estofadas. Clara larga a mala na cama. Abre zíper. Tira roupas. Organiza gavetas. — Ok. Plano? — Amanhã, nove horas. Reunião com a Costa Holdings. Ela congela. Mãos param no meio da mala. — Seu pai. — Meu pai não sabe quem eu sou. Para ele, eu sou Emma Laurent. CEO canadense. Empresa de facilities. Quero contrato de manutenção predial. Falo de margem, de escala, de cláusula de rescisão. — E se ele reconhecer sua voz? — Faz cinco anos minha dicção mudou. Meu ritmo mudou. Eu falo mais devagar. Pauso antes de responder. Ele vai ouvir executiva. Não vai ouvir filha. — E o Arthur? — Reunião com a Salvatore na quinta, às dezesseis horas. Clara senta na poltrona. Cruza os braços. — Você vai sentar na frente do homem que te comprou e não vai dizer nada? — Vou dizer bom dia, Sr. Salvatore. Vamos falar de número. De KPI. De entrega. Nada pessoal. Nada emocional. Só contrato. — Você é louca. — Eu sou paciente. Anthony aparece com meu notebook aberto na mesa lateral. Tela brilhante. E-mail sincronizado. — Mãe, sua caixa tá atualizada. — Anthony! — Não li. Só vi que tem reunião marcada. Costa Holdings, 9h. Assunto: proposta de limpeza premium. — Fecha. Ele fecha. — Posso ir com você? — Na reunião? Não. — Por quê? Eu sou bom com números. — Você tem cinco anos. — E daí? Eloá sobe no meu colo. Peso leve. Cheiro de sabão neutro e algodão. — Mãe, você tá triste? — Não, amor. Tô ansiosa. — É a mesma coisa? — Quase. Ela faz a cara. Inclina a cabeça. Aperta os lábios. Olha para cima. — Posso dormir com você hoje? — Pode. Meu celular vibra na mesa de centro. Número de Nova York. Atendo. Coloco no viva-voz baixo. — Emma Laurent. — Sra. Laurent, aqui é o Vitor, assistente executivo do Sr. Salvatore. Confirmo a reunião de quinta às dezesseis horas. — Confirmado. — Ele pediu para adiantar para amanhã às dezesseis horas. Após sua reunião com a Costa. Ele viu sua chegada no sistema do hotel. Travo. Respiração para. Dedos apertam o celular. — Ele viu? — Sim. O grupo Salvatore é investidor majoritário do Fasano. O check-in gera alerta automático para a diretoria de segurança. Ele foi notificado em tempo real. Olho para Clara. Ela entende pela minha postura. Ombros tensos. Mandíbula travada. — Pode confirmar. Amanhã às dezesseis horas. Desligo. Coloco o telefone sobre a mesa. Tela para baixo. Clara: — O quê? — Ele sabe que eu cheguei. — Quem? — Arthur. Silêncio. Apenas o ar condicionado zumbindo. O som do mar batendo lá fora. Anthony: — Quem é Arthur? — Ninguém, respondo rápido demais. Eloá me olha. Olhos castanhos fixos. — É o moço da foto? — Que foto? — Aquela que a tia Clara guarda no álbum velho. De Paris. De terno molhado. Clara fica pálida. Respira fundo. Fecha os olhos por um segundo. Eu encaro as crianças. Mantenho a voz plana. — Vamos jantar. Depois cama. — Você não vai fugir de novo, né mãe?"m Anthony pergunta, sério. Olhar direto. Postura reta. — Não. — Promete? — Prometo. Ele estende o dedo mínimo. Eu aperto. Eloá aperta também. Pele quente. Força real. Compromisso selado. Lá fora, o Rio acende. Luzes na orla. Faróis na avenida. Sirene distante. O mesmo cenário de cinco anos atrás. Só que agora eu não estou fugindo. Eu voltei. Com documento válido. Com empresa registrada. Com contrato na mesa. Com filhos na varanda. Com Clara ao meu lado. Verifiquei o zíper da mala. Conferi a bateria do celular. Travei a porta da suíte. Ativei o alarme do quarto. A operação começou. Amanhã, nove horas. Costa Holdings. Eu entro. Sento. Assino. Observo. E espero o movimento dele. A conta vai ser cobrada. Com juros. Com contrato. Com calma.
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