O diamante cortava a carne do dedo. Não doía ainda. Só apertava, como uma algema que eu mesma tinha aceitado. Empurrei a porta do quarto sem bater. Era minha casa. Meu noivo. Minha cama.
A luz do abajur estava no mínimo. O ar pesava com suor e aquele perfume doce que a Lívia usava quando queria chamar atenção. Marcos estava de costas, a camisa branca amassada no chão, os ombros tensos. E em cima dele, minha meia-irmã. As costas nuas, a mão no peito dele. Ela vestia a minha lingerie de renda vermelha. A que comprei parcelada em três vezes, escondida na gaveta de baixo, para a nossa noite de núpcias.
Parei na porta. O vinho do jantar ainda rodava na cabeça, mas o sangue esfriou na hora. Não gritei. Não chorei. O pulmão travou. Marcos virou. Os olhos arregalaram. Ele tentou pegar a calça, tropeçou no lençol, xingou baixo. A Lívia não se mexeu. Só me olhou. Sem culpa. Com aquele meio sorriso de quem já sabia que eu ia entrar.
— Elena… — ele começou, a voz falhando, as mãos tremendo na fivela do cinto.
Fiquei calada. O silêncio pesou mais que qualquer grito.
— Vocês terminaram? — perguntei. A voz saiu rouca, seca.
— Não é o que você pensa — ele atropelou, finalmente vestindo a calça. — A Lívia estava m*l, eu só…
— Cala a boca, Marcos.
Virei para ela. Ela puxou o lençol para a cintura, devagar, sem pressa.
— Ele me procurou — disse, ajustando o cabelo úmido no ombro. — Sempre fui eu quem ele olhava. Você era o contrato. A filha legítima para lavar a imagem da empresa.
O assoalho pareceu ceder. Apertei o batente até as pontas dos dedos ficarem brancas. Não era o álcool. Era a conta fechando na minha frente. Eu ensaiei votos. Escolhi as flores. Assinei o contrato do buffet. E eles estavam na minha cama, na minha roupa, usando o meu quarto como hotel.
Saí. Fechei a porta devagar. O clique da fechadura ecoou no corredor vazio. Desci a escada principal segurando o corrimão com força. Cada degrau rangia sob o peso do salto. Na sala, meu pai de costas. Copo de uísque na mão. Celular no ouvido. A voz dele baixa, mas cortante no silêncio.
— …seguro ativado. Três milhões. Pagamento à vista. Ponte da Barra. Sete da manhã. O freio vai ceder. Parece imprudência. Ela dirige rápido quando está nervosa. O Marcos já cuidou da cabeça dela. Ela sai sozinha.
Ele riu. Um som seco, de quem acabou de fechar um bom negócio.
— Amanhã comemoramos. Limpa tudo.
Parei no terceiro degrau. O metal do anel queimou a pele. Meu pai. Alberto. O homem que pagou minha faculdade, que me ensinou a trocar pneu, que chorou no velório da minha mãe, estava comprando minha morte. E o Marcos era o entregador. A traição no quarto não foi impulso. Foi armadilha. Me deixar destruída para eu pegar o carro e cair na ponte.
Não desmaiei. Virei as costas e subi. Entrei no quarto. Eles ainda se vestiam, sussurrando, discutindo em voz baixa quem ia me parar primeiro. Passei direto.
— Fiquem com o quarto — disse, sem olhar. — Eu resolvo o resto.
Peguei a bolsa de couro no canto. Enfiei o vestido amassado, uma calcinha limpa, o carregador, o porta-retrato da minha mãe. Helena, sorrindo na praia do Farol, antes de tudo virar ledger e contrato. Tirei o anel. Não joguei na lixeira. Diamante de três quilates paga passagem, hotel, tempo. Enfiei no sutiã. O metal frio contra a pele. Lavei o rosto na pia. A água gelada ardeu. Sequei com a toalha áspera. Olhei no espelho. Rosto pálido. Olhos secos. Nenhuma lágrima.
Desci pela escada de serviço. Peguei a chave do HB20 preto. O carro velho que meu pai guardava na garagem por teimosia, “valor sentimental”, dizia. Agora o sentimental ia me tirar dali. Saí pela porta dos fundos. A chuva caía forte, batendo no capô quente e levantando vapor. Entrei. Liguei o motor. Mãos firmes no volante. Engatei a primeira.
Dirigi sem destino por vinte minutos. A adrenalina mantinha a visão nítida. O ponteiro do tanque batia na reserva. Parei num posto na zona portuária. Desliguei o motor. Respirei.
Tirei o celular do bolso. Tela acendeu. Mensagem do Marcos: “Me escuta. A gente resolve. Eu te amo.” Apaguei. Bloqueei. Sem rastro. Liguei para a Clara.
Ela atendeu no segundo toque.
— Elena? É quase meia-noite.
— Preciso de você.
Silêncio. Ela conhecia minha voz quando eu estava prestes a quebrar.
— Onde?
— Posto Shell, beira do porto.
— Fica aí. Trava as portas. Quinze minutos.
Desliguei. Olhei o reflexo no vidro embaçado. Cabelo colado no rosto, maquiagem borrada, batida no canto da boca. Nenhuma lágrima. Só peso.
Meu pai queria um acidente às sete. Marcos queria silêncio. Lívia queria meu nome, minha herança, minha vida. Achavam que eu era a filha quieta que aceitava o lugar que deram. Erraram.
Toquei o anel no sutiã. Três milhões. Era o preço da minha cabeça. Eu não ia morrer na ponte.
A porta do minimercado abriu. Um homem alto, terno encharcado, comprou café preto e cigarro. Pagou em papel. Olhou para o meu carro. Cruzei o olhar. Olho cansado, mandíbula tensa. Não pedi ajuda. Homens eram complicação para depois. Ele entrou num sedan preto dois boxes à frente. Motor ligou. Faróis apagados.
Faróis cortaram a chuva. O Celta velho da Clara parou ao lado. Ela desceu, correu, abriu minha porta. A chuva molhou o banco.
— Entra. Agora.
Entrei. O couro rangiu. Ela ligou o aquecedor, não perguntou nada. Só acelerou, saindo do posto, mergulhando na noite.
— Eles querem um acidente — falei, olhando pelo retrovisor as luzes sumindo.
Clara apertou minha mão. Dedos quentes, firmes.
— Então vamos fazer eles engasgar com a própria cova.
Fechei os olhos. O anel pressionava o peito. A chuva limpava o para-brisa. Pela primeira vez em vinte e oito anos, eu não tinha família. Tinha uma amiga. Tinha uma foto. Tinha uma dívida de três milhões para cobrar.
Amanhã, eu seria uma mulher morta no papel.
Hoje, eu era o problema deles.
E eu não sabia que, naquela mesma noite, já tinha cruzado com o homem do terno que mudaria tudo. Só sabia de uma coisa: eu não ia morrer às sete da manhã.