Eu não fui naquela noite. Fui na seguinte.
Passei dezesseis horas dobrando lençóis hospitalares na lavanderia da Rue des Abbesses, com o cartão preto queimando no bolso do avental. Tirei. Guardei. Tirei de novo. O papel grosso raspava a palma. Às dezoito horas, Clara trancou a porta do apartamento e me entregou a bolsa.
— Vai — ela disse. — Você não atravessou o Atlântico para virar máquina de passar roupa até os trinta.
Tomei banho no studio apertado. A água morna lavou o cheiro de alvejante industrial. Vesti o vestido de malha escura. Passei batom vermelho, aplicação reta, sem tremer. Não por ele. Por mim. Peguei o metrô linha 12, desci em Miromesnil, caminhei duas quadras. O Le Bristol ficava atrás de portões de ferro e jardim simétrico. O porteiro nem pediu documento. Viu o cartão, assentiu, girou a chave do elevador privativo.
Suíte 412. Bati duas vezes. Seco.
Ele abriu. Camisa preta, mangas dobradas até o antebraço, descalço no tapete grosso. Não pareceu surpreso. Pareceu quem espera o próximo movimento do tabuleiro.
— Você demorou — disse.
— Eu calculo o salto antes de pular — respondi.
— Ótimo. Eu também.
O quarto era maior que todo o meu andar. Janela do chão ao teto, Paris acesa em tons de âmbar, cama king com lençóis de linho cinza, garrafa de vinho aberta na mesa lateral. Ele serviu duas taças. O líquido escorreu lento, vermelho escuro.
— Sem compromisso — falei, antes de levar à boca. — Sem promessa.
Ele ergueu a taça. — Sem mentira. Só o agora.
Brindamos. O vidro tocou. Som claro.
Conversamos por quarenta minutos. Nada importante. Ele mencionou voos noturnos, reuniões em Zurique, contratos que não iam a registro. Eu falei de turnos, de pernas dormentes, de aluguel pago em dia. Nenhum dos dois pressionou. O silêncio entre as frases era o acordo.
A música ambiente baixou para um jazz instrumental. Ele se levantou. Caminhou devagar. Parou na minha frente. Mão no meu quadril, firme, quente.
— Posso? — perguntou. Olho no meu. Não no decote. Não no tecido.
Não respondi com palavra. Inclinei o rosto. Fechei a distância.
O beijo não foi ensaio. Foi colisão. Ele tinha gosto de tanino e fumaça fria. Eu tinha gosto de saliva seca e ansiedade contida. As mãos dele subiram pelas minhas costelas, encontraram o zíper lateral. Puxou devagar. Metal rangendo. Tecido cedendo. Eu segurei o ombro dele. Unha cravando de leve. Sinal. Não pare.
O vestido escorregou. Caiu no tapete. Ele me olhou. De pé. Desarmada. Sem joia. Sem maquiagem cara. Só pele, sutiã simples, marca do elástico na cintura. Não havia fome no olhar dele. Havia leitura. Como quem decifra um mapa antigo.
— Você é perigosa, Helena — sussurrou.
— Você não viu o rastro — respondi.
Ele me ergueu. Braço sob as coxas, mão nas costas. Peso redistribuído. Eu não lutei. Deixei. Ele me depositou na cama. O linho gelou a pele. Ele se ajoelhou na beirada. Tirou o sutiã com um movimento prático. Não dramatizou. Beijou a clavícula. Depois o esterno. Depois a curva do seio, língua quente, pressão controlada. Eu arquei as costas. Respiração travou. Mão no cabelo dele, puxando para mais perto, depois empurrando para longe. Testando limite. Ele entendeu. Parou. Esperou.
— Pode — eu disse. Voz rouca.
Continuou. Dedos desceram. Encontraram a calcinha. Puxaram para o lado. Não arrancou. Deixou eu mesma tirar. Joguei no chão. Ele subiu. Joelhos no colchão. Peso dividido. Entrou devagar. Não foi suave. Foi real. Atrito, calor, ajuste de quadril, respiração sincronizada no ritmo do movimento. Eu mordi o lábio. Gemido curto, abafado no travesseiro. Ele ouviu. Acelerou. Não por pressa. Por resposta.
Não foi romance. Foi física. Suor, músculo contraindo, unha marcando o ombro dele, testa encostada na minha, respiração ofegante, ritmo quebrando e voltando, pele colada, lençol amarrotado, som abafado de corpo contra corpo. Eu fechei os olhos. Não pensei no meu pai. Não pensei na ponte. Pensei no peso dele sobre mim. No controle. Na entrega. Na escolha de não estar sozinha naquela cama.
Ele goou primeiro. Respiração travada, corpo rígido, mão apertando meu quadril. Eu senti o espasmo. Segurei. Depois veio o meu. Contração profunda, onda subindo pela espinha, dedo cravando no antebraço dele, som baixo, garganta fechada. Ele desabou ao meu lado. Braço jogado sobre os olhos. Peito subindo e descendo.
Ficamos em silêncio. Só o ar condicionado e o trânsito distante.
Em algum ponto, adormecemos. Acordei com a luz cinza da manhã entrando pela fresta da cortina. Ele dormia de bruços, respiração pesada, marca vermelha no ombro onde minha unha cravou. Fiquei olhando. Sem armadura. Sem nome pesado. Só homem. Cansado. Real.
Levantei. Pés no chão frio. Vesti o vestido. Recolhi o tênis. Deixei o cartão preto na mesa, ao lado da garrafa vazia e da taça manchada de batom.
Ele abriu um olho. Íris escura, voz rouca de sono.
— Vai embora sem café?
— Sem café. Sem número. Sem volta garantida — respondi, fechando a bolsa. — Foi o combinado.
Ele sentou. Lençol na cintura. Cicatriz velha na costela. Olhou para mim.
— E se eu quiser te encontrar de novo?
— Você sabe onde — falei. — Se eu deixar a porta aberta.
Ele sorriu. Canto da boca. Não forçado. Quase verdadeiro.
— Você vai me dar trabalho, Helena Moura.
— Eu sou turno integral — respondi.
Saí. Porta fechou. Elevador desceu. Espelho devolveu uma mulher com cabelo bagunçado, batom borrado, olhar seco. Não estava apaixonada. Estava reabastecida. Pela primeira vez em meses, alguém me tocou sem pedir documento, sem cobrar dívida, sem olhar para o que eu perdi.
Na rua, o ar de Paris cortou a pele. Coloquei os óculos. Enfiei as mãos no casaco. O cartão ficou na mesa. Eu sabia.
Mas o peso da noite ficou no corpo. E no fundo, uma parte fria e calculista pensou: homem com recursos, com rede, com silêncio, pode ser a alavanca que falta. Não por amor. Por logística. Quando eu voltar ao Brasil, não vou enfrentar sozinha. E ele, sem saber, já estava na fila.
O metrô apitou na esquina. Eu desci a escada. Passos firmes. Sem olhar para trás. A vingança não dorme. Só espera o momento certo de morder.