O relógio do aplicativo marcava 17:42. Meu tornozelo latejava dentro do scarpin emprestado, mas eu não pedi para o motorista frear. O dinheiro na bolsa de lona pesava no meu colo. Notas amassadas, cheiro de tinta de banco e mofo. Cento e cinquenta mil. Era o preço do meu sumiço.
Clara olhou pelo retrovisor. Os olhos dela varreram meu rosto, o suor na testa, a mandíbula travada.
— Muda o endereço — ela disse ao motorista. — Norte Shopping. Entrada da Avenida Dom Hélder Câmara.
O carro virou à direita. O trânsito da Linha Amarela engrossava. Eu encostei a cabeça no banco. O couro sintético grudava na nuca. Não era fuga. Era recalibragem. Meu pai tinha minha foto de noiva espalhada em delegacias e postos de gasolina. Cabelo longo, castanho, maquiagem pesada, sorriso ensaiado. Se eu mantivesse aquela silhueta, eu era alvo. Se eu mudasse, eu era fantasma.
Subimos no elevador social do terceiro piso. O ar condicionado do shopping zumbia alto, misturado com cheiro de pipoca e perfume barato de loja de departamento. O salão ficava entre uma assistência técnica de celular e uma loja de calçados. Luz fluorescente, espelhos sem moldura, cadeiras de vinil rachado.
A cabeleireira era uma mulher de uns cinquenta anos, cabelos platinados, unhas pintadas de vermelho descascado. Ela não perguntou meu nome. Só jogou a capa preta por cima dos meus ombros e prendeu no pescoço.
— O que fazemos? — ela perguntou, pegando a tesoura.
— Tudo que ele reconheceria — respondi, olhando meu reflexo. Castanho escuro. Comprido. O mesmo corte desde a formatura. O corte da filha obediente. — Corta na raiz. Pinta claro.
A lâmina fechou. O som foi seco, metálico. Uma mecha grossa caiu no piso branco. Depois outra. Eu não pisquei. Clara ficou em pé atrás de mim, mãos cruzadas, respiração contida.
— Mais embaixo — ela pediu. — Deixa irregular.
A tesoura trabalhou rápido. O cabelo que antes caía nos ombros agora batia na linha do queixo. Repicado, torto, sem simetria. A cabeleireira preparou a mistura num bowl rosa. O cheiro de amônia subiu forte, ardeu no fundo do nariz. Ela separou mechas com o pincel, passou a tinta com movimentos rápidos. O couro cabeludo queimou. Eu mordi o interior da bochecha. Contei os segundos. Não pensei no noivado. Não pensei na ponte. Pensei em sobrevivência.
Quarenta minutos depois, a água gelada do chuveiro lavou o excesso de química. A toalha enrolou minha cabeça. A cabeleireira secou com o soprador quente, passou pomada modeladora, ajeitou as pontas. Olhei no espelho. Loiro acinzentado, raiz escura proposital, corte assimétrico. O rosto parecia mais magro, os olhos mais fundos. A postura era a mesma, mas a imagem era outra. Eu não parecia mais a herdeira da Costa Holding. Parecia uma mulher que tinha trabalhado o dia inteiro e só queria ir para casa. Exatamente o que eu precisava.
— Quanto? — Clara perguntou, já com a carteira na mão.
— Duzentos e oitenta. Dinheiro ou Pix.
Clara pagou em espécie.
Fomos direto ao banheiro feminino do piso térreo. A cabine cheirava a desinfetante e papel higiênico úmido. Tranquei a porta. Tirei o scarpin. O pé doeu quando o apoio saiu, mas o alívio foi imediato. Desabotoei a calça escura, tirei a blusa que grudava no suor, arranquei o sutiã que tinha carregado o anel por dois dias. Joguei tudo no saco de lixo preto. Inclusive a aliança que não existia mais. O peso no peito sumiu.
Vesti a calça jeans reta, sem brilho. A camiseta preta de algodão grosso. O moletom cinza. O tênis branco, sola limpa, cadarço justo. Nada de etiqueta. Nada de caimento caro. Roupa de quem não chama atenção. Lavei o rosto na pia. Tirei o batom escuro com um pedaço de papel toalha úmido. Passei hidratante simples. Coloquei os óculos de grau comprados na feira da Saara. Olhei de novo. Estranha. Funcional.
Saí. Clara estava encostada na parede, celular na mão.
— Nome? — ela perguntou.
Pensei na foto dobrada na carteira. Minha mãe na praia, antes do sobrenome Costa. Antes dos contratos. Antes do veneno.
— Helena Moura — falei. — Nome dela antes de casar.
Clara digitou no bloco de notas. Salvou. Trancou o celular.
— Helena Moura. Sem redes. Sem histórico. Sem rastro.
Descemos pela escada rolante. A praça de alimentação estava cheia. Comprei um pastel de carne e uma garrafa de água. Comi de pé, encostada no balcão de vidro. O gosto era salgado, oleoso, real. Pela primeira vez em dias, minha boca não tinha gosto de medo.
No caminho de volta, passamos pela Central do Brasil. Dois seguranças da empresa do meu pai estavam na calçada, segurando folhas A4 plastificadas. Minha foto de noiva. Eles varriam os rostos da multidão. O carro parou no sinal vermelho. Um deles olhou para dentro. Seus olhos cruzaram os meus por um segundo. Não houve reconhecimento. Só indiferença. Ele virou a página e seguiu.
Soltei o ar devagar. Encostei a testa no vidro. Não era alegria. Era cálculo funcionando.
No apartamento da Tijuca, Clara trancou a porta. Duas voltas. Corrente de segurança. Joguei a bolsa na mesa de fórmica. Tirei o dinheiro. Contei de novo. Cento e quarenta e nove mil e setecentos. Separei em três pilhas iguais. Documentos falsos. Aluguel em bairro periférico. Fundo de operação.
— Operação? — Clara perguntou, cruzando os braços.
— Meu pai me vendeu por três milhões — respondi, alisando as notas. — Eu me converti em cento e cinquenta. Com a sobra, eu compro a queda dele. Um por um. Sem pressa. Sem erro.
Ela não discutiu. Pegou o celular, discou.
— Gabi? Preciso de RG e CPF limpos. Nome: Helena Moura. Encontro amanhã, nove horas, Lapa. Sim, à vista.
Desligou. Guardou o aparelho.
Peguei a fronha do travesseiro do sofá. Dentro, o vestido rasgado da noite da fuga. Tecido sintético, mancha de chuva, costura arrebentada. Não guardei por sentimentalismo. Guardei por prova. A mulher que correu daquela casa era alvo. A mulher que vestia tênis e corte torto era caçadora.
Apaguei a luz. Clara deixou apenas o abajur do corredor aceso. Deitei no sofá. O tecido áspero arranhou minhas costas. Fechei os olhos. Não vi Marcos. Não vi Lívia. Vi a tesoura caindo. Vi o loiro cobrindo o castanho. Vi o espelho do salão devolvendo uma desconhecida.
Amanhã, Helena Moura teria documento. Depois, um endereço. E quando Alberto Costa procurasse a filha morta, ia encontrar uma mulher que ele nunca soube que existia.
O relógio da parede marcou 22:17. A dor no tornozelo diminuiu. O dinheiro na gaveta trancada pesava. Eu respirei fundo. E esperei