De manhã do dia da minha morte, eu mastigava pão com ovo na cozinha da Clara, cabelo pingando, vestindo uma calça de moletom dela que batia dois dedos acima do tornozelo. Na TV de tubo ligada no mudo, o jornal matinal já tinha minha cara.
“Jovem empresária desaparece após sair de festa de noivado. Carro encontrado abandonado na Ponte Rio-Niterói.”
A imagem mostrava o HB20 preto atravessado na pista de emergência, porta aberta, chuva lavando o capô. Nenhum corpo. Nenhum sinal de luta. Perfeito.
Clara apertou o volume. O repórter, com cara de quem tomou café frio no trânsito da Linha Vermelha, falou: “Fontes próximas à família afirmam que Elena Costa enfrentava quadro depressivo e seguia acompanhamento médico.”
Depressão. Claro. Meu pai já tinha até laudo psicossocial pronto.
Desliguei a TV com o botão vermelho. “Ele é rápido. Nem esperou o café esfriar.”
Clara despejou mais café minha xícara rachada. — Seu pai não quer seguro de vida. Ele quer seguro de morte. Três milhões pra cobrir o rombo que ele abriu apostando em fundo de private equity que nem existia.
Quase cuspi o café. — Como você sabe disso?
— Porque eu trabalho na contabilidade da terceirizada que cuida da folha da Costa Holding ela disse, sem olhar pra mim, abrindo a geladeira. — E porque eu sou sua amiga, não sua funcionária. Eu anoto tudo.
Puxou um notebook da gaveta. Ligou. Digitou a senha: `Helena1503`. O nome da minha mãe. A data do aniversário dela.
— Olha aqui. A tela acendeu. Planilha aberta. Linhas e colunas. Ela apontou o dedo indicador, unha descascada.
— Apólice 78493-B. Segurada: Elena Costa. Beneficiário principal: Alberto Costa. Valor: três milhões. Data de contratação: vinte e dois dias atrás. Você assinou?
— Eu não lembrava de ter assinado nada nas últimas três semanas a não ser contrato de buffet e checklist de mesa de doces. Ele falsificou.
— Claro que falsificou. E o corretor é cunhado do Tavares, aquele que brindou com champanhe morno ontem. É um círculo tão fechado que parece rodízio de família.
Eu ri. Rir era mais barato que quebrar a xícara.
— Tem mais. Clara rolou a tela. — O pagamento do prêmio saiu da conta pessoal do seu pai, não da empresa. Ele tava com pressa. E adivinha quem é a segunda beneficiária caso o pai morra antes do resgate?
— Lívia.
— Bingo. Sua meia-irmã queridinha. Ela não só pegou seu noivo. Ela ia pegar seu seguro.
Fiquei olhando para o porta-retrato na mesa de fórmica. Helena sorrindo na praia de Grumari, com aquele biquíni azul que meu pai odiava porque
— chamava atenção demais, Ela morreu quando eu tinha doze. Pelo menos foi o que me contaram. Nunca vi atestado. Nunca vi cova. Só foto.
— Você acha que minha mãe realmente morreu? perguntei. A voz saiu plana.
Clara não riu. — Eu acho que seu pai é capaz de vender a filha por três milhões. Imagina o que ele faz com esposa que sabia onde ele escondia o dinheiro.
O celular burner vibrou na mesa. Tela preta. Número desconhecido. Atendi no viva-voz.
— Elena?
Voz do Marcos, abafada, fundo de sirene. — Por favor, me atende. Seu pai tá desesperado. A polícia tá aqui.
Desliguei. Bloqueei.
— Desesperado por não achar corpo eu disse.
Clara pegou o anel que eu tinha deixado perto do açucareiro. O metal rangeu na palma dela. — Vamos transformar esse seguro em problema dele. Você tá morta no papel, certo? Morta não pode ser segurada. Se a seguradora descobrir fraude na assinatura, quem paga multa e responde criminalmente é o beneficiário.
— Como a gente prova?
— Você não prova. Você aparece.
Levantei da cadeira tão rápido que o joelho bateu na mesa. O ovo caiu no prato.
— Não. Não agora. Ele me mata de verdade.
— Não aparece viva
ela explicou, com aquele sorriso de canto que me metia em encrenca desde o ensino médio.
— Aparece como fantasma. Uma foto. Um áudio. Um e-mail da conta que só você tem a senha. Só o suficiente pro corretor suar frio e ligar pro seu pai perguntando se a apólice ainda vale.
Pensei no e-mail antigo da faculdade, `elenacosta88@g*******m`. Meu pai nunca soube a senha. Eu usava o nome da minha mãe e a data. `Helena1503`.
— Eu tenho o e-mail falei.
Clara girou o notebook na minha direção.
—Escreve.
Digitei devagar. Os dedos doíam de frio e de raiva. O cursor piscava.
`Assunto: Sobre o pagamento`
`Sr. Tavares, confirmação do depósito da apólice 78493-B. Aguardo retorno antes das 7h. E.`
Cliquei em enviar. A barra de progresso subiu. Tela escura. Notebook fechado.
— Agora a gente espera Clara disse.
Às onze da manhã, o jornal atualizou.
— Polícia suspeita de suicídio. Família pede privacidade. Mostrou meu pai saindo da delegacia da Barra da Tijuca, óculos escuros, terno amassado. Lívia ao lado, de preto, segurando o braço do Marcos como se fosse bengala.
— Minha meia-irmã chorava. Bem. Atriz r**m, mas chorava. O nariz vermelho, o lenço apertado.
Clara pausou a imagem no controle remoto gasto. — Olha a mão dela.
Zoom. Na mão esquerda da Lívia, brilhando sob a luz fraca do hall da delegacia, estava um anel. Não o meu. Outro. Mais simples. Ouro rosé. Pedra pequena. De noivado.
— Ele já pediu ela em casamento eu falei. A garganta fechou.
— Nem esperou meu corpo esfriar.
— Ótimo Clara disse, largando o controle. — Quanto mais pressa, mais erro.
Levantei, peguei a xícara, lavei na pia com água fria. Olhei pela janela de grade.
Virei pra Clara. — Meu pai quer minha morte . Eu vou dar pra ele seguro de cadeia.
Ela brindou com a caneca rachada. — Ao plano.
Porque traição tem preço. Morte tem preço. E eu tinha acabado de descobrir que o meu valia três milhões. Barato pra quem ia cobrar com juros.