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4826 Words
Não soube mais o que rolou depois daquilo. Iane arranjou um jeito de descolar meu número e acabou me ligando para marcar uma entrevista. É claro que eu quis muito ficar para acompanhar todo o desfecho, mas então me lembrei da grande oportunidade que Samuel — seu marido — me deu lá no Guatemala e não hesitei ao aceitar. — Só vou me atrasar um pouco, Iane — expliquei saindo do boteco, sem ao menos olhar para trás. — Tá tudo bem, Larah — respondeu compreensiva —, eu imagino como sua vida deve ser corrida, noiva de um dos partidões da cidade, afinal... — Que é isso — dei de ombros e mordi os lábios para não rir da situação. O motivo do meu atraso chegava a ser humilhante, eu teria de peregrinar até a cafeteria — a mesma na qual eu e Ricardo nos encontramos ontem —, para conceder a tal entrevista. De que adianta ter grana no bolso se nesse bairro não passa um mísero táxi ou ônibus sequer?! — Nos vemos em breve — falei subindo o meio-fio da calçada —, beijos. — Beijos, Larah — ela disse afetuosa e depois desligou. Fui me arrastando com sofreguidão até meu destino, nesse tempo ignorei cantadas indecentes, livrei-me de motoristas irresponsáveis, namorei vitrines de lojas e reli algumas vezes o bilhete que Lucas me deixara, hoje pela manhã. Ao chegar avistei Iane, enrolando uma mecha curta de seu cabelo e fingindo espiar o cardápio em sua frente, quando meu viu esboçou um sorriso e relaxou. Estava com medo de eu não vir, pude ler isso em cada expressão sua. — Ei — eu cumprimentei abraçando-a —, tudo bem? — Larah. — ela apertou-me com carinho. — Tudo bem, e contigo? — Tirando a ansiedade por conta do casamento, tudo em ordem — joguei o corpo sobre a cadeira e forcei um sorriso para que ela caísse em minha mentira. — Sei bem como é — ela disse complacente, depois tirou de sua bolsa um gravador minúsculo e um caderno de capa vermelha. Franzi o cenho. — Não quero te assustar — explicou-se —, só estou adiantando o processo. — Tá Ok — me acomodei melhor na cadeira —, vamos só, sei lá, bater um papo enquanto tomamos um café forte. — Você também ama café? — ela perguntou deslumbrada inclinando-se para frente. — Un-un — colei o pingente em minha mão —, só finjo que gosto porque o Ricardo ama. Não consegui olhar para ela, era como se, de repente, eu não me reconhecesse mais. — Podemos pedir suco — Iane falou com naturalidade —, aposto que o de abacaxi é seu favorito. Encarei-a e abri um sorriso vitorioso. — Acerola. Com leite, anota aí. Ela sorriu. — Seu pedido é uma ordem. — rabiscou algo em seu caderno e depois me olhou, com ansiedade — Podemos...? — Podemos. — Me ajeitei na cadeira e mantive uma postura mais séria, entretanto nem foi preciso. Iane abordava os assuntos com delicadeza, sem muita pretensão ou rapidez. Caso notasse que algo me incomodou não perdia tempo, me falava da sua vida, elogiava meu cabelo ou fazia algum comentário curioso a respeito do jornalismo ou do Universo. Eu me senti numa conversa entre amigas, sendo assim fiquei bastante à vontade para responder todas suas questões. — Era uma morena peituda — me defendi envergando-me para trás de tanto rir —, não tive tempo de pensar. — Ninguém teria — Iane opinou, tirando uma lágrima do olho —, mas jogar um jarro na cabeça de um Albuquerque? Eu sabia que chegaria esse momento, onde a diferença social entre mim e Ricardo falaria mais alto e os nossos sentimentos — principalmente os meus — seriam postos em prova, fugi disso por diversas vezes, mas havia chegado a hora de tocar no assunto. Respirei fundo, posicionei o corpo para frente, juntei uma mão na outra e abri um sorriso sincero para ela. — Eu não o vejo assim, Iane. Pra mim o Ricardo é um cara comum, que me roubou um beijo num show da Ivete e me pediu em namoro quatro meses depois. Ela me olhava com tanta atenção que eu não fiz outra coisa a não ser continuar com meu discurso romântico. — Não ligo pra nada disso — confessei tomando uma boa golada do suco —, sabe, esse lance de brasão e tal. Ricardo podia ser um Sousa ou um Martins que eu ainda assim continuaria com ele. Até o fim. — Isso foi tão lindo — ela falou emocionada. — Você é uma pessoa incrível, Larah. —Eu concordo — a voz de Ricardo soou atrás de mim, pegando-me de surpresa —, Larah é a mulher que eu escolhi nessa vida, e escolheria em todas as outras se pudesse. — Anota — ordenei com o dedo em riste e os dois riram. Olhei para meu noivo e sorri, ele então arrastou uma cadeira ao meu lado, depois colou sua boca na minha com ternura. Mas meu coração não pulou como de costume. — Tá tudo bem? — Ele perguntou estudando meu rosto. “Não — eu quis dizer —, tá uma bagunça dentro de mim.” — Claro — respondi —, por que não estaria? — Não sei — ele deu de ombros e avaliou o cardápio —, você parece estranha. — Tensão pré-casamento — Iane apontou —, eu roí todas minhas unhas nas vésperas do meu. — Deus me livre — me benzi, largando o pingente —, minhas unhas são sagradas, se umazinha quebra eu fico de luto por semanas. — Acredite — Ricardo falou, descontraído —, ela não está exagerando. A jornalista sorriu meio sem jeito e aprumou bem os ombros, mantendo uma postura formal. — Obrigada por vir — agradeceu ao meu noivo —, posso começar a entrevista? Ele sorriu, com toda sua imponência, e assentiu calmamente, em seguida segurou minha mão e não soltou um minuto sequer. Para tornar tudo ainda melhor, Iane não foi invasiva em suas perguntas, não mencionou as traições nem as notícias maldosas ao meu respeito, pelo contrário, quis saber através de meu noivo sobre minhas qualidades, meus gostos e de como ele lidava com minha TPM. E sendo bem justa, Ricardo não poupou elogios. Enfatizou diversas vezes o quão boa e divertida eu era, relembrou com carinho os nossos bons momentos, falou do meu talento com a dança e de como se sentia protegido ao meu lado. E foi aí que a culpa me atingiu em cheio porque, de repente, eu lembrei que quase, quase, beijei Lucas naquele elevador, e como se não bastasse eu o abriguei em meu apartamento, e praticamente o devorei assim que ele saiu do banho. Respingos d’água por todo o corpo seminu, barriga petrificada, duas lindas covinhas, cheirinho bom de sabonete, cabelos levemente molhados... Hummm... — Larah sempre foi meu porto seguro — Ricardo contou trazendo-me de volta à realidade —, e é por isso que mulher nenhuma ocupará meu coração. Apenas ela. Então ele virou o rosto e seus olhos encontraram os meus, havia dentro deles uma emoção diferente, como se... Afastei o mau pensamento e peguei o cartão que Iane me estendera, em seguida descansei a cabeça no ombro do meu noivo e continuamos a conversar com a jornalista tão simpática e comunicativa. — Coloquei créditos no seu celular — Ricardo me disse assim que embicou o carro em frente de casa, por volta das cinco. — Obrigada — desafivelei o cinto —, eu tava mesmo precisando. Ele aquiesceu, depois destravou o banco, puxando-o para trás, e esticou bem as pernas, fiz o mesmo. — Nos divertimos pra caramba, não foi? — Perguntou acariciando minha mão. — Hoje? — Eu quis saber, ele balançou a cabeça em sinal de negação. —Durante esse tempo todo — havia nostalgia em sua voz —, sei que te magoei pra c*****o, Larah, e nem eu mesmo consigo me perdoar por isso, mas tivemos nossa parte boa, não tivemos? — Tivemos — algumas lágrimas encheram meus olhos —, tivemos sim. Ele assentiu e pescou o controle do som, zapeou por algumas músicas até chegar nela — a mesma que dedicou para mim na boate, três dias atrás. Depois voltou à posição de antes e fechou bem os olhos, mergulhando em seus pensamentos. Encostei a cabeça no vidro da janela, pensativa. — Eu estava sendo sincero lá na cafeteria — Ricardo falou encarando-me —, eu sempre escolheria você. — Eu também — assegurei. — Eu meio que percebi isso. — me olhou de canto e sorriu —, e minha cabeça então... Fulminei-o com o olhar e antes que eu protestasse, Ricardo me silenciou com um beijo intenso e voraz. Afundei-me em seus lábios, jurando-lhe silenciosamente amor eterno. E fidelidade, Larah. E fidelidade. O beijo foi ficando mais lento — um selinho aqui, outro acolá —, até se tornar uma espécie de carícia, ternura e chamego. Deitei a cabeça em seu ombro e ele descansou sua mão em meus cabelos, acariciando-os vez ou outra. Então seu celular estrondou de repente, rompendo com toda aquela áura de sossego e cumplicidade entre nós. Ricardo checou o aparelho de última geração e bufou entediado. — É da empresa — desculpou-se me lançando um olhar sugestivo. — Tá, eu... hum... espero lá fora — abri a porta do carro e saí em direção à minha casa. Olhei para trás e o avistei ainda no celular, aparentemente alterado, enquanto afundava uma das mãos em sua cabeleira. Senti medo, não sabia ao certo do quê, mas minha intuição — que nunca falhava — me dizia que algo de muito r**m estava acontecendo com ele. — Ei — Ricardo chamou assim que saiu do carro, enfiando o aparelho no bolso da calça social. — Sim...? — Perguntei com o corpo encostado no muro de casa, a mão na correntinha, o coração apertado. Meu noivo foi se aproximando a passos largos, e, assim que chegou bem perto, olhou bem no fundo dos meus olhos e segurou meu rosto com as duas mãos. — Nosso ensaio vai ser lindo — garantiu —, como nos seus sonhos. Assenti e duas lágrimas rolaram pelo meu rosto, ele enxugou-as e puxou seu corpo contra o meu. — Fique Larah — meio que ordenou meio que suplicou. — Ficarei — prometi, apertando-o com mais força. Estava ali, a coisa toda que eu quis afastar de mim lá na cafeteria. Aquele nosso abraço tinha gosto de despedida. “13 de Março de 2014 Oi, mamãe! Sim, eu sei que isso saiu bem seco, mas é que não ando tãão empolgada como achei que estaria um dia antes de me casar. Aconteceu tanta coisa de lá pra cá, mamãe, que eu me sinto estranha, nervosa e muito, muito, confusa. Como eu te disse, conheci Lucas, e sim, ele é maravilhoso mesmo! E como se não bastasse, somos vizinhos. Descobri isso no dia seguinte, quando fui pra minha despedida de solteira, no apartamento que papai me deu — esqueci de te contar isso, foi m*l. Voltando, ficamos presos no elevador e houve um momento em que nossos olhos se encontraram, o tempo pareceu congelar e faltou um tiquinho para que nós nos beijássemos (sim, a senhora não leu errado). Vou resumir o que houve depois, curti minha despedida de solteira, fiz amigos novos e já no fim da noite, quando foi proposto que a noiva desafiasse sua madrinha de casamento, eis que recebo uma mensagem com uma foto de Linda e Ricardo. De mãos dadas! Foi h******l, mamãe. Era como se eu estivesse de costas enquanto minha amiga, a pessoa que eu mais confio nesse mundo, me cravava uma espada, destruindo-me por completo. Então, para me vingar, desafiei que ela se declarasse para o Guga, só que isso não amenizou nenhum pouco a dor que senti pela sua traição. Quando voltei, afundada em meu desconsolo, descobri que incendiaram o apartamento de Lucas, e em questão de minutos, ele bateu em minha porta me pedindo abrigo. Queria te escrever que o expulsei de imediato e deletei qualquer vestígio dele de minha memória, mas, caramba, mamãe, nenhum cara mexeu tanto comigo como ele, e sendo assim, é claro que eu o deixei entrar. E quando Lucas saiu do banho, praticamente pelado, eu quase o arrastei de volta a fim de me perder em seus braços e me afundar em seus beijos. Hoje pela manhã ele me deixou um bilhete, convidando-me para almoçar no restaurante do Gustavo, e mesmo com todos seus garranchos, eu achei fofa cada palavra sua, e guardei-as em meu coração... Voltando para meu irmão e Linda, soube através dela que os dois tiveram uma noite mágica, e no fundo me senti feliz por eles, entretanto, quando chegamos em casa, depois de papai inventar um de seus grandes almoços, descobrimos que Emile, (sua ex e agora atual nora) está grávida, e como consequência os dois acabaram reatando. Linda não chorou, ela nunca chora — a menos que esteja bêbada —, mas seus olhos em total desconsolo me confessaram que estava sofrendo a beça. E isso fez com que eu me sentisse uma amiga péssima. Bem, o resto foi confusão total e acabou com Gustavo se declarando para ela, num boteco aqui perto e Anabela aos beijos com Brad. Estou checando o celular toda hora para ver se as duas me dão algum sinal de vida, mas não chega uma mensagem sequer... Ah, encontrei com Ricardo hoje pela tarde, e juntos concedemos uma entrevista para Iane Gomes (aquela jornalista que não saía do meu pé, lembra?). Mais tarde é nosso ensaio matrimonial, amanhã o nosso casamento, e eu devia estar vibrando, soltando fogos de artifício e gritando aos quatro cantos que finalmente consegui arrastar Ricardo para o altar, mas volta e meia meu pensamento me trai e me puxa para um par de olhos azuis e duas covinhas... Queria a senhora aqui, sei que me abraçaria e me ajudaria a lidar com essa confusão toda. Sei também que, mesmo não estando entre nós fisicamente, seu coração gigantesco ainda me acolhe, me entende, e me ama, da maneira que eu a amo, e que sempre amarei. Amanhã é meu grande dia, dona Eloá, trate de assistir meu casamento daí de cima, de preferência na área vip do céu. Ainda sinto saudades, sempre sentirei. Com amor, Larah.” Enxuguei as lágrimas e fechei meu diário, colocando-o sobre meu colo. Depois daquele meu abraço com Ricardo, corri para casa e entrei em meu quarto, desnorteada. Foi quando segurei em minha correntinha que me dei conta de quem eu precisava naquele momento. Não importa quantos amigos você tenha, existem coisas na vida que somente o colo de uma mãe é capaz de resolver. — Eram gases — Madá foi dizendo, invadindo o quarto —, gases! — Hum...? — Perguntei ainda atordoada. Ela olhou para o diário em meu colo e suas bochechas ficaram vermelhas. — Ah, bambina — desculpou-se constrangida —, eu te atrapalhei, não foi? — Tudo bem, Madá — devolvi o diário para o criado-mudo —, eu já acabei. Me diz, o que houve mesmo? Ela veio em minha direção, sentou-se na beirada da cama, de frente para mim, e bufou. — Não foi chute do meu bambino aquele dia, Larah — contou indignada —, seu tio garantiu que eram gases! Mordi bem os lábios para não rir e encarei-a o mais sério possível. — Cazzo! Estou tão humilhada — ela grunhiu —, confundi o chute do meu filho com um pum! Não me aguentei, caí na gargalhada, sacudindo os ombros de tanto rir, Madá fulminou-me com seu olhar e eu tentei me recompor. — Foi m*l — me desculpei, tirando uma lágrima do olho —, mas você é mãe de primeira viagem, Madá, é normal meter os pés pelas mãos de vez em quando. — Ah, sim. De repente estou trocando seu irmão e ao invés de colocar talco, sapeco farinha de trigo. — Não é pra tanto — mas acabei rindo outra vez —, tenho certeza de que você será uma ótima mãe, Madá. Seus olhos escuros me encararam, agradecidos, e ela sorriu, então uma pontadinha de tristeza cruzou seu rosto. — Não vou poder ir ao seu ensaio matrimonial — ela comentou com certa angústia —, ordens médicas. — O que houve? — Eu quis saber, alarmada. — Nada tão grave — deu de ombros e evitou me encarar —, apenas um sangramento. Sabe como é, bambina, não tenho mais meus vinte anos, uma gravidez na casa dos quarenta tem de ser seguida a risco. Agarrei em meu pingente, preocupada. — Se quiser eu cancelo o ensaio e assistimos a um filme italiano — propus —, legendado, é claro, porque eu não entendo bulhufas do que seu pessoal fala. — Só por isso vou declinar do convite — se fez de rogada, depois segurou minha mão e me prometeu: — Amanhã eu estarei lá na igreja para te prestigiar. Assenti e deitei-me em seu colo feito criança assustada, Madá afundou suas mãos grandes e delicadas em meus cabelos e cantarolou alguma música italiana, fechei os olhos e tentei afastar de mim todo medo e inquietação. É assim, você se dedica e se empenha em seu sonho durante muito tempo, então a coisa toda está prestes a acontecer e você é jogado pra cima duma corda bamba, basta um passo em falso para tudo se desfazer de repente. Sonhar é algo complicado. — Posso entrar? — a voz de tia Lena invadiu o ambiente. — Claro — eu falei, tirando a cabeça do colo de Madá e ajeitando a postura —, aconteceu alguma coisa? — Pergunte ao seu noivo — ela respondeu aproximando-se, com uma sacola luxuosa na mão —, o rapaz da loja acabou de entregar. Franzi o cenho e, assim que tia Lena sentou-se na cama, peguei cuidadosamente a sacola que ela me estendia. Minha pupila dilatou, e não foi por conta das anáguas que encontrei, mas sim porque, ali dentro, havia uma tiara toda cravejada de pérolas e diamantes. — Dio Mio! — Madá exclamou de queixo caído — Isso é... — É — respondi com os olhos presos no bilhete de Ricardo —, é verdadeira. Após todo trabalho com a maquiagem, finalmente, me senti satisfeita. Depois do preparo de pele, optei por um blush em tom de pêssego e sombra laranja mesclada com um marrom bastante esfumado, caprichei no rímel, delineador e lápis de olho preto, por último passei um batom vermelho, meio puxado para o vinho — que já estava bem gasto por ser um dos meus preferidos. Ajeitar os cabelos foi fácil, ondulei as pontas com uma técnica que aprendi no You Tube e tia Lena veio ao meu auxílio para me ajudar com o vestido, que ficou mais rodado por causa das três contas de anágua. Sendo assim, aqui estava eu, de frente para o espelho do quarto, contemplando meu reflexo. — Posso...? — Tia Lena perguntou. Olhei para o lado e assenti, emocionada. — C-claro — inclinei-me para ela, que, cuidadosamente, colocou a tiara em minha cabeça. — Meu Deus, olha! — virou-me novamente para o espelho.— Você ficou maravilhosa! — Obrigada, tia — agradeci com os olhos cheios d’água. — Linda deu notícias? — Sim, ela disse que já está a caminho. — apertou meus ombros de forma incentivadora.— Vai dar tudo certo, querida. — Vai — concordei esperançosa. Depois disso, ela saiu para apressar tio Fernando, mas antes me deu um abraço tão cauteloso, como se pudesse me desmontar caso usasse mais força. Já eu fiquei aqui, admirando minha visão, com um sorriso vitorioso nos lábios. Foram tantos anos esperando, planejando, sonhando... e finalmente amanhã eu terei meu final feliz. Olhei para a tiara, toda requintada, depois para meus pés, enfiados num par de havaianas, e bufei. Caminhei em direção à porta entreaberta e enfiei a cabeça para o lado de fora. — Madá — gritei —, quanto tempo dura um ensaio matrimonial?! — Umas duas horas...? — ela arriscou lá da cozinha. Certo, duas horas. Eu sobreviveria. Fechei a porta e caminhei em direção ao guarda-roupa semi-aberto, corri os olhos para a parte de baixo e encarei minha coleção de saltos novos, não eram muitos; a última doação foi recheada de sapatos e sandálias de dedo. Abaixei-me e tirei de lá uma caixa preta de letreiro dourado, ao abri-la fui tomada por calafrios. Lá estava ele, meu scarpim prateado, cheio de glitter, bico fino, quinze centímetros e... responsável pela minha queda desastrosa no réveillon retrasado. Depois de me estatelar na frente dos Albuquerque eu o enfiei de volta à caixa e prometi nunca mais usá-lo. Mas eu também prometi não comer chocolate nem voltar para o Ricardo, então minha palavra meio que não conta. Sentei-me na cama e calcei os sapatos, abri a gaveta do criado-mudo, enfiei meus votos no decote do vestido e me levantei com certa insegurança e desequilíbrio. Vamos lá, Larah, você consegue! Respirei fundo e saí. Desci os degraus com muita sofreguidão e esforço, intercalando-me em me equilibrar no salto agulha e segurar o corrimão da escada. Ao chegar à sala dei de cara com Madá, olhando para mim totalmente deslumbrada. — Dio! — cobriu a boca com uma das mãos — Está parecendo una principessa! — Grazie! — fiz uma breve reverência e caminhei até ela — Tem certeza que não vai? — Ah, bambina — ela lamentou —, seu pai sofreria um ataque se me visse quebrando o repouso. — E depois me mataria — sorri, embora quisesse implorar por sua presença, de repente fiquei apreensiva outra vez. E, claro, ela percebeu. — Odio! Eu jamais permitiria que Rodolfo fizesse isso! — exclamou indignada. — Quem vai trocar as fraudas do bambino quando ele fizer meleca? Olhei para ela e caí na gargalhada, depois me dei conta de que era essa sua intenção. Sempre seria. — Onde tá todo mundo? — Perguntei mais relaxada, correndo os olhos pela casa. — Rodolfo está lá fora, te esperando — ela contou caminhando para a cozinha, ordenando com as mãos que eu a acompanhasse —, seus tios já foram para a igreja e Linda acabou de ligar avisando que já está por lá. — E o Guga? — Eu quis saber, arrastando uma cadeira e jogando o corpo em seguida. — Não deu notícias — Madá respondeu vindo até mim, sentou-se na cadeira ao lado e esticou um pacotinho feito de guardanapo preso num laço vermelho. Ao desenrolá-lo encontrei um pãozinho, em formato de coração, todo coberto por açúcar. — Madá — balbuciei, fitando a massa cheirosa. — Eu sei que é um dia importante — ela disse buscando minha mão, depois apertou-a com firmeza —, e quando estávamos em seu quarto algo me veio à cabeça. — O quê? — perguntei encarando-a. Madá sorriu, e algumas lágrimas avolumaram-se em seus olhos. — Quando eu e seu pai começamos a nos conhecer, ele falou da sua relação com a mãe, estava preocupado porque você se isolou do mundo depois que a perdeu. — É — me remexi na cadeira, agarrada em minha correntinha com urgência. —, foi tipo isso. — Papà e eu éramos praticamente um só — sua voz foi ficando triste, nostálgica... —, quando ele adoeceu, fiquei com tanto medo que acabei me isolando também. — Eu sinto muito — falei com as lágrimas ameaçando sair. Ela sorriu novamente e fez uma careta engraçada, para afastar a tristeza que tomou conta de mim. Sei disso porque Madá é assim, capaz de se desdobrar por inteiro para arrancar um sorriso das pessoas que ama. E por sorte, eu sou uma delas. — Eu era muito nova para lidar com perdas — continuou fitando o pano da mesa —, e imaginei que se eu me escondesse em meu próprio mundo, onde tudo era bonito e cheio de cores, eu jamais o perderia de verdade. — Eu te entendo. — Porque é isso que eu faço com Ricardo, não é? — Bene — ela respirou fundo e fez um afago em minha mão —, eu estava errada. A parte boa disso é que descobri antes que fosse tarde demais. Quer saber a história desse pão? Assenti. — Eu tinha dez anos quando ele se foi — Madá falou com pesar —, nessa época eu acreditava que papai-noel me deixava presentes nos natais e que a fada do dente me fazia visita à noite. Escutei um fungado, mas permaneci em silêncio e não olhei para ela. Era algo delicado, eu sabia, e o mínimo que podia fazer era respeitar sua dor. Porque, assim como os sonhos, as dores também são complicadas. — Certa noite, mia madre invadiu meu quarto, com um pacotinho semelhante a esse — foi dizendo assim que se recompôs —, e também com a notícia de que papà queria se despedir. — Ah, Madá — foi a minha vez de buscar sua mão e confortá-la. Ela balançou a cabeça, como se quisesse afastar as más lembranças, e sorriu para mim. — Eu falei que não tinha forças — confessou —, então ela me contou sobre a história de um marinheiro que, sempre que estava fraco, comia seu espinafre e ficava forte. Eu ri. — Não acredito que você não conhecia o Popeye — contestei. — Eu não era uma garota muito televisiva — Madá argumentou —, mas tinha a mente fértil, e Mamà aproveitou-se disso para me convencer. — O que ela fez? — perguntei curiosa. — Ela disse que havia conseguido roubar um pouco do espinafre desse marinheiro, e que, por sorte, escondeu dentro de um pãozinho. — Igual a esse...? — Arrisquei. — Sim. E garantiu que se eu comesse teria forças para enfrentar àquilo tudo. — E você comeu? — Sem nem pensar — respondeu orgulhosa —, e fui para o quarto, onde mio padre estava enfurnado há meses. Mamà viu o resultado e passou a fazer todo dia esse mesmo pão para mim, com o argumento de que havia conseguido roubar mais espinafre do tal marinheiro, e assim eu saí da minha bolha colorida e fiquei com meu papà até o último instante. — É uma história linda, Madá — comentei emocionada, então olhei para ela, de forma interrogativa —, mas por que tá me dando isso? Madá apertou minha mão novamente e respondeu sincera: — Por que, lá no quarto, eu vi medo em seus olhos. Não sei o que está acontecendo, bambina, mas você precisa de forças, como eu precisei. É claro que eu não espero que acredite na história do espinafre, mas esse pão é simbólico e carrega uma lição. Você precisa enfrentar seus medos, criar coragem para tomar suas decisões, ainda que elas não sejam fáceis. Ela estava certa, como sempre. — Obrigada — falei saboreando o pão —, e isso aqui tá divino! Melhor que o espinafre do Popeye. Madá gargalhou, e observou com carinho eu devorar seu presente em questão de segundos. — Como você soube — comecei meio insegura —, como você soube que daria certo com papai? — Ah, essa é fácil — ela respondeu na lata —, eu segui a teoria do velhinho. — Teoria do velhinho? — franzi o cenho. — Sim — ela confirmou. — Minha vó sempre dizia: “Você vai rir com alguns ragazzos, vai gostar dos seus traços joviais e se apaixonar pelos seus belos músculos. Mas amará apenas aquele com quem gostaria de dividir a cadeira de balanço, num sábado à tarde, quando seus cabelos já não estiverem mais pretos e sua memória falhar. E esse será, para sempre, o seu velhinho da varanda.” — E como você soube que esse cara era o papai? — Indaguei com certo interesse. — Essa foi mais fácil ainda! — ela sorriu, meio abobada. — Estávamos em uma sorveteria aqui perto, e, enquanto eu escutava Rodolfo conversar sobre suas ideias, eu conseguia visualizar rugas no cantinho dos seus olhos, os cabelos caindo com o passar dos anos, a barba esbranquiçada, os músculos indo embora dando espaço para a flacidez... E foi assim que eu conheci, aos trinta e um anos, o meu velhinho da varanda. Eu aquiesci emotiva. — Bene — ela levantou-se —, é melhor você ir. O tal velhinho deve estar arrancando os cabelos a essa altura, isso se ele tivesse cabelo, é claro. Eu ri novamente, e, ao me levantar, abracei Madá com gratidão. — Faz de conta que eu estarei lá — ela me aconselhou, apertando-me com mais força. — Vai dar tudo certo. E m*l sabia Madá que, assim como tia Lena, ela também estava enganada.
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