Overdose

1617 Words
Callie —Como você está se sentindo hoje Callie? — Perguntou a mulher ruiva com os óculos próximos a ponta do nariz sentada em uma poltrona próxima a mim. —Eu estou bem eu acho... — Respondi olhando para o teto branco daquele consultório. —Você parece melhor do que na nossa última consulta. Um pouco mais animada eu diria... Algum motivo em especial? —Eu comecei a trabalhar em uma pequena loja de ferragens. — Respondi de imediato, mas pensando um pouco melhor eu teria mais motivos para estar de bom humor hoje. — E conheci um garoto... O nome dele é Peter Davis, ele é esquisitinho, mas de uma forma fofa. —Hmm, e vocês têm conversado? —Um pouco... Ele trabalha comigo e estudamos na mesma escola... Ah ele também e o meu vizinho então isso faz com que eu o veja até que bastante... Mas não conversamos tanto... — Agora eu só conseguia olhar para os meus dedos entrelaçados em si, sentindo uma estranha sensação de ansiedade. —Nossa... Mas porque não conversam muito? Ele é o primeiro rapaz que você fala bem. —Tenho medo do que o pode acontecer se eu me aproximar dele... A Dra. Greene não sabia sobre o Charlie, sempre que eu aparecia machucada nas consultas dizia que havia arrumado encrenca na escola, sei que ela seria obrigada a deportar isso para as autoridades e sinceramente não acho que as coisas mudariam para a melhor, na verdade, muito pelo contrário, elas mudariam para pior... —Tem medo de que ele te machuque? De uma forma sentimental eu digo. — Perguntou olhando-me por alguns instantes à espera da minha resposta. —Pôde-se dizer que sim... Mas é estranho sabe... Eu já passei tanto tempo sentindo medo de tantas coisas que não me lembro mais como é a sensação de não se ter medo, sabe, aquela sensação de respirar fundo e dizer a si mesma: "Está tudo bem, não há o que temer"... —E o que você teme? —Tudo... Somos frágeis Dra. Greene, a qualquer momento podemos nos fragmentar da mesma forma que um espelho quando é atirado ao chão... —Você tem que se permitir ser feliz Callie... Permita-se mudar, está julgando que estar com o Peter irá te machucar antes mesmo de tentar, como pode saber disso? Trata-se apenas de ser cuidadosa. — Disse da forma gentil e tranquila com que sempre me aconselhava. — E quanto aos pesadelos? —Pesadelo... É sempre o mesmo... Eu estou caindo de um penhasco, mas parece que nunca chego ao fundo, eu posso sentir que a colisão está próxima, mas ela nunca chega de fato então eu passo o sonho inteiro apenas com aquela agonia de saber que o m*l está próximo, mas ao mesmo tempo não poder fazer nada, apenas cair... — Respondi a olhando vendo que anotava algo no caderno em seu colo. —Bom Callie, a nossa consulta acabou por hoje, mas semana que vem vamos discutir um pouco mais sobre esse seu pesadelo tudo bem? — Perguntou enquanto eu me sentava do divã antes de me levantar de fato. —Tudo bem Dra. Greene... Obrigado. — A agradeci sorrindo. Acompanhando-me até a porta do seu consultório a ruiva me deu um forte abraço antes de eu sair de vez. Ela com certeza era uma das mulheres mais atenciosas e carinhosas que eu conheço, só não tenho muita certeza se esse tratamento se deve ao fato de eu ser sua paciente ou por empatia, mas de qualquer forma eu sempre me sentia mais leve depois que conversávamos então simplesmente adorava as nossas consultas, era muita sorte uma profissional como ela atender sem ser por meio de convênios. Voltei para casa quase saltitando, o dia estava estranhamente bom, eu havia recebido meu primeiro salário, tive uma excelente consulta com a psicóloga e estava decidida a voltar a escola no dia seguinte. Assim que cheguei em casa percebi que a porta não estava trancada o que era estranho já que a minha mãe sempre trancava. Entrei receosa, mas não vi nada que me fizesse suspeitar que algo r**m estaria para acontecer... Mas quando passei pelo quarto da minha mãe pude vê-la deitada na cama pela fresta da porta, quando me aproximei mais percebi que havia uma agulha presa ao seu braço, senti cada músculo do meu corpo se contrair fortemente e sem pensar duas vezes entrei no quarto. —MÃE! — Gritei, mas não obtive resposta. — m***a, m***a, de novo não... Ela estava desacordada e parecia estar com dificuldades para respirar então arranquei a agulha do seu braço a virando de lado, quase que de forma instantânea ela vomitou sobre o lençol da cama, depois de algumas tossidas puxou o ar fortemente o ar como se estivesse aliviada. Com o choque sendo dissipado do meu corpo aos poucos, me sentei no chão com as costas contra a madeira da cama com as mãos sobre as têmporas deixando que o cabelo cobrisse todo o meu rosto. Isso já havia acontecido outras vezes, mas ela havia prometido pra mim que nunca mais faria isso e eu realmente acreditei nela, achei que não faria mais isso... Mas ainda sim, não estou tão surpresa, apenas cansada... Depois de colocá-la embaixo do chuveiro e trocar os forros de cama a deixei dormindo, indo até o meu quarto. Parecia que eu estava vivenciando na pele o meu tão temível pesadelo, caindo em um abismo com o m*l eminente... Eu sentia um grito desesperado arranhar a minha garganta por não poder libertar-se, sentia meu coração apertar ao mesmo tempo que meus pulmões pareciam querer falhar a qualquer momento. Com certa dificuldade fui até o banheiro abrindo a torneira da pia para jogar um pouco d'água no meu rosto e nuca na vã tentativa de fazer aquela sensação passar, mas parecia ser em vão, a cada segundo ficava mais e mais difícil respirar... Abri uma das gavetas do gabinete pegando uma toalhinha repleta de manchas de sangue, me jogando no chão até sentir o gelado da parede nas minhas costas eu tentava respirar fundo com a toalha no meu colo, ao mesmo tempo que sentia o m*l esgueirar-se até mim a ponto de até conseguir sussurrar no meu ouvido, abri a toalha deparando-me com o que eu julgava ser a minha única saída para situações assim... Uma lâmina prata extremamente afiada em meio às manchas de sangue. A peguei logo a deslizando-a em meu pulso deixando um perfeito rastro de sangue por onde passava, logo outro e mais outro até sentir aquele aperto no meu peito dissipar-se conforme as gotas de sangue escorriam do meu braço manchando o branco chão azulejado ao atingi-lo deixando-o escarlate... Só então sentindo as lágrimas escorrendo pelo meu rosto respirei fundo cobrindo meu braço com a toalhinha criando manchas em seu tecido antes esverdeado. Ainda sentada naquele chão frio abri o armário do gabinete pegando uma atadura a enrolando no meu braço, após alguns segundos me levantei guardando a toalhinha e a lâmina em seu devido lugar e secando as minhas lágrimas com as costas da mão. Eu sentia os cortes queimando por baixo das ataduras, mas já não me pareciam tão dolorosos, não era a primeira vez... Voltei ao meu quarto com um semblante totalmente inexpressivo, quando passei pela minha janela pude ver Peter prestes a abrir a dele, assim que me viu o moreno sorriu como se eu fosse a sua pessoa preferida no mundo, mas eu me sentia inapta para retribuir-lhe, estava prestes a me afastar da janela quando ele sinalizou para que eu ficasse ali. Mesmo não entendendo suas intenções fiquei parada o vendo sair do meu campo de visão e voltar escrevendo algo em uma folha sulfite logo a colocando contra o vidro da janela: "Você está bem? :)" era o que estava escrito. "Não..." Assenti apertando meus lábios em um sorriso, o vi pegar outra folha começando a escrever novamente e logo a colocando contra o vidro: "Tem certeza?" "Não..." Assenti novamente, mas dessa vez acenando para ele e fechando as cortinas da minha janela. Sei que as intenções dele eram das melhores possíveis, mas também sei que ele não entenderia... Apenas me deitei em minha cama abraçando um dos travesseiros que estava sobre ela tentando pegar no sono, mas parecia que ele fugia de mim... Me levantei indo até o quarto da minha mãe para olhá-la, ela ainda estava dormindo como eu havia a deixado com os cabelos molhados molhando a fronha do travesseiro. Pegando o espelho de uma maquiagem o coloquei próximo ao seu nariz vendo sua respiração embaçá-lo, respirei um pouco aliviada guardando o espelho e saindo do quarto. Voltei ao meu quarto indo até o banheiro tirando a roupa, a bandagem e entrando embaixo do chuveiro, a água ainda estava fria, mas eu não me importava com isso, ainda era tranquilizador senti-la cair sobre o meu corpo mesmo fazendo os cortes do meu braço arderem ao ir de encontro a ela. Evitando olhar para o meu corpo dei início ao banho, em algum momento me sentei no chão abraçando os joelhos permitindo que as lágrimas voltassem a fluir levemente misturando-se as gotas d'água que caiam do chuveiro, eu me sentia exausta mentalmente e totalmente ludibriada por achar que hoje o dia seria diferente, que seria um dia bom... Sai do banheiro tomando um dos meus comprimidos com a água da pia, vesti um short e uma blusa de mangas longas o suficiente para chegar a metade da minha mão. Me deitei na cama ainda com o cabelo molhado, abraçando um dos travesseiros sobre ela fiquei a observar um ponto fixo na parede até sentir o remédio fazendo efeito arrebatando-me lentamente...
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