# Capítulo 6: Cicatrizes e Coroas
O beijo na torre não foi um recomeço; foi uma declaração de guerra.
Assim que os lábios de Azael se afastaram dos de Elena, o transe violento que o havia dominado quebrou-se. O lorde demônio recuou um passo, a respiração ainda arfante, mas seus olhos dourados perderam o brilho da fome carnal para serem obscurecidos por uma muralha de gelo e puro nojo. Ele olhou para Elena como se ela fosse uma doença que ele acabara de contrair.
— Nunca mais — sibilou ele, limpando os lábios com as costas da mão nua, um gesto deliberadamente insultuoso. — Nunca mais repita essa audácia, humana. Você não é nada além de um parasita que conseguiu pegar um vislumbre da minha fraqueza momentânea.
Elena permaneceu encostada na amurada de pedra, os lábios ainda vermelhos e latejando pelo impacto do beijo. Ela sentia a humilhação queimar em suas bochechas, mas recusou-se a desabar.
— Uma fraqueza momentânea? — Elena soltou um riso soprado, amargo. — Continue mentindo para si mesmo, Milorde.
Sem dizer mais uma palavra, Azael virou as costas, sua capa esvoaçando como asas de corvo na noite, deixando-a sozinha com o vento congelante da Torre Norte.
## O Retorno à Servidão
No dia seguinte, o vislumbre do demônio possessivo que destruíra uma taça de cristal para defendê-la havia desaparecido por completo. Azael garantiu que Elena entendesse o seu verdadeiro lugar. Ela não foi mantida em seus aposentos luxuosos; foi transferida para uma ala fria do palácio, encarregada das tarefas mais degradantes.
Durante toda a semana, Elena limpou os longos corredores de mármore, as salas de armas e os aposentos dos oficiais da guarda. Azael cruzava com ela várias vezes ao dia. Ele caminhava acompanhado por seus generais ou pela própria Duquesa Lilith — que exibia um sorriso triunfante cada vez que via a humana de joelhos, esfregando o chão.
Sempre que passava por Elena, Azael agia como se ela fosse invisível. Ou pior: como se fosse um estorvo.
— Balthazar — disse Azael friamente no meio do corredor principal, parando a poucos passos de onde Elena limpava as manchas de sangue seco de uma armadura. — O palácio cheira a lixo. Certifique-se de que os servos humanos usem incenso. O odor de carne frágil está me dando náuseas.
Elena apertou o pano úmido entre os dedos até que os nós de suas mãos ficassem brancos. Ela ergueu os olhos azul-tempestade e encontrou o olhar dourado dele. Azael a encarava de cima, o queixo aristocrático erguido, os olhos vazios de qualquer emoção humana. Ele a tratava com um desprezo calculado, uma tentativa deliberada de quebrar o espírito dela e, ao mesmo tempo, de provar a si mesmo que ela não significava nada.
— Sim, Milorde — respondeu Elena, a voz firme e desprovida de submissão. — Providenciarei para que o cheiro da minha humanidade não incomode sua sensibilidade... monstro.
Um general ao lado de Azael prendeu a respiração, chocado com a audácia. As runas no pescoço de Azael piscaram em vermelho vivo por um milésimo de segundo, mas seu rosto permaneceu uma máscara de gelo.
— Se ela falar novamente sem permissão, Balthazar... corte a língua dela — ordenou Azael, sua voz fria e cortante como uma lâmina. Ele continuou marchando sem olhar para trás.
## O Veneno de Lilith
Naquela mesma noite, enquanto Elena recolhia as lamparinas de óleo do jardim de espinhos, uma silhueta esguia bloqueou seu caminho. Era Lilith. A demônia sorria, segurando uma pequena adaga de osso entre os dedos longos e cinzentos.
— Ele cansou de você rápido, não foi, pequena presa? — desdenhou Lilith, circulando Elena como um abutre. — Eu avisei. Azael é um lorde de Obsidian. Ele usa o lixo e depois o joga onde ele pertence. Agora ele me procura todas as noites para esquecer que um dia tocou em algo tão imundo quanto você.
Elena sentiu uma pontada de dor no peito, a imagem da antecâmara voltando à sua mente, mas manteve a cabeça erguida.
— Se ele está tão satisfeito com você, Duquesa, por que você ainda gasta seu tempo tentando me convencer disso? Uma rainha não se importa com a opinião de um verme. A menos... que você saiba que, no fundo, ele só te usa como anestesia.
O sorriso de Lilith sumiu. O ódio puro deformou suas feições perfeitas. Ela ergueu a adaga, pronta para rasgar o rosto de Elena.
— Você vai morrer hoje, humana!
— *Chega.*
A voz não veio de Azael, mas do General Malakor, que surgira das sombras do jardim. O enorme demônio de chifres pesados segurou o pulso de Lilith.
— O Lorde ordenou que ninguém toque na humana — disse Malakor, a voz grave. — Ele mesmo decidirá o momento de sua execução. Não desobedeça as ordens do trono, Lilith.
Lilith soltou um bufo de frustração, guardando a adaga. — Ela não passará da próxima lua de sangue, general. Guarde minhas palavras.
## O Olhar na Penumbra
Mais tarde, no silêncio da madrugada, Elena recolheu-se para o seu pequeno quarto nos níveis inferiores. O corpo doía pelo trabalho pesado, e as mãos estavam calejadas. Ela sentou-se na esteira de palha, abraçando os joelhos, permitindo-se finalmente chorar baixinho na escuridão, cansada da crueldade diária, do desprezo e daquela fome contraditória que ainda sentia pelo monstro que a aprisionara.
Ela não percebeu a sombra que se materializou na porta entreaberta.
Azael estava lá, camuflado pela escuridão do corredor. Ele a observava chorar. Seus olhos dourados não tinham o gelo do dia; carregavam uma dor violenta e uma frustração ensurdecedora. Ele odiava vê-la sofrer nas mãos dos outros, odiava tratá-la com desprezo, mas odiava ainda mais o fato de que, a cada soluço dela, seu próprio peito parecia se despedaçar.
Ele queria entrar. Queria tomá-la nos braços, rosnar para o mundo e queimar qualquer um que a fizesse chorar. Mas o orgulho e o medo daquela conexão humana o mantinham estático, condenado a ser o executor de sua própria tortura.
Lentamente, sem fazer som, ele desapareceu nas sombras, deixando apenas o aroma sutil de tempestade e cinzas no ar.