# Capítulo 19: O Banquete das Lâminas
O vento do desfiladeiro uivava, carregando o cheiro de ozônio e enxofre. Azael mantinha-se imóvel, uma muralha de obsidiana e fúria diante de Elena. Suas asas negras projetavam uma sombra protetora sobre ela, isolando-a do frio e do perigo imediato, enquanto seus olhos de ouro líquido cravavam-se no Marquês Valerius com uma promessa de morte indescritível.
Valerius, que há poucos segundos exibia o sorriso vitorioso de um usurpador, recuou um passo cambaleante. A audácia de seu plano empalideceu diante da presença avassaladora do seu senhor.
— Meu... Meu Lorde — gaguejou o marquês, tentando recuperar a compostura e ajeitando a capa com os dedos trêmulos. — O senhor veio... veio testemunhar a captura da traidora. Como pode ver, nós a interceptamos com os mapas das defesas...
— Cale a boca, verme — o barítono de Azael cortou o ar como uma guilhotina. Ele deu um passo à frente, e a poeira de cinzas sob suas botas derreteu com o calor rúnico de sua fúria. — Você ousa insultar a minha inteligência no meu próprio reino? Cada sussurro seu com Lilith, cada carta forjada, cada suborno pago ao guarda da masmorra... eu permiti tudo. Eu precisava que vocês se sentissem audaciosos o suficiente para mostrar suas cabeças de serpente. E você não decepcionou, Valerius.
Os soldados da patrulha, percebendo que haviam sido usados como bucha de canhão em uma conspiração fracassada, hesitaram. Suas lanças tremeram.
— Traição! — gritou Valerius, desesperado, voltando-se para seus homens. — Ele está enfeitiçado pela humana! Matem-na! Matem os dois!
## O Despertar do Monstro
Nenhum soldado se moveu. Mas Azael sim.
Com uma velocidade que os olhos humanos de Elena m*l conseguiram acompanhar, o lorde demônio avançou. Suas asas bateram uma única vez, criando uma onda de choque que lançou os cinco soldados de fronteira contra as paredes rochosas do desfiladeiro, desmaiando-os instantaneamente com o impacto.
Valerius ergueu sua espada de fogo azul em um golpe desesperado de defesa. Azael sequer desembainhou sua própria lâmina. Ele simplesmente aparou o golpe de aço rúnico com a palma da mão esquerda — as runas de seu braço brilharam em um vermelho incandescente, absorvendo a magia do fogo azul e quebrando a espada do marquês em dezenas de estilhaços metálicos com um estalo ensurdecedor.
Com a mão direita, Azael agarrou o pescoço de Valerius, erguendo o marquês do chão como se ele fosse um boneco de pano. As garras de obsidiana do lorde perfuraram levemente a pele pálida do conspirador, fazendo um sangue escuro escorrer.
— Você achou que usaria a *minha* prisioneira para me derrubar? — sussurrou Azael, o rosto a milímetros do de Valerius, as fendas douradas brilhando com um sadismo gélido. — Você achou que eu permitiria que suas mãos imundas tocassem no que é meu?
Elena observava a cena com a respiração suspensa. Havia uma violência terrível no que ele fazia, mas também uma precisão cirúrgica. Azael não era apenas um monstro descontrolado; ele era o governante supremo de Obsidian reivindicando seu território.
## O Preço da Fuga (A Riqueza que Escapa)
Mas Valerius, em sua ambição desmedida, não havia colocado todas as suas fichas em um único desfiladeiro.
Mesmo asfixiado, o marquês soltou uma risada rouca e sangrenta. Seus dedos tatearam às pressas dentro de sua casaca de brocado, onde carregava seu tesouro mais valioso: um antigo amuleto rúnico banhado em ouro e cravado com cristais de teletransporte de alta patente — uma relíquia de valor inestimável e de uso único, que ele guardara para uma rota de fuga extrema.
— Eu posso cair hoje, Azael... — sibilou Valerius, o sangue escorrendo por sua boca. — Mas a Corte de Cinzas... a riqueza que financia a sua queda... já cruzou os portões. O seu trono ainda vai queimar!
Antes que Azael pudesse esmagar a traqueia do traidor, Valerius canalizou o restante de sua energia vital para o amuleto de ouro.
Um brilho dourado e ofuscante, emitindo um calor quase insuportável de magia pura condensada, explodiu entre os dois. A descarga de energia mágica de alta linhagem foi tão violenta que empurrou Azael alguns metros para trás e cegou Elena temporariamente com o clarão.
Quando a luz finalmente se dissipou e a fumaça de ouro evaporou no ar frio, a mão de Azael estava vazia. O Marquês Valerius havia desaparecido, usando a riqueza de sua herança antiga para escapar das garras da morte e refugiar-se nas sombras das províncias rebeldes. Ele havia fugido, mas o preço fora a perda total de sua posição em Obsidian. Agora, ele era um fugitivo caçado.
## O Retorno ao Gelo
O desfiladeiro voltou a mergulhar no silêncio do eclipse. Azael permaneceu de pé, de costas para Elena, observando o local onde o traidor estivera segundos antes. Suas asas recolheram-se lentamente, e a fumaça n***a de suas runas começou a dissipar-se, retornando ao tom vermelho contido e frio.
Elena deu um passo à frente, as pernas ainda trêmulas pela descarga de adrenalina.
— Ele escapou — disse ela, a voz suave na escuridão.
Azael virou-se lentamente. A máscara de arrogância e frieza já estava firmemente de volta ao seu lugar, mas os olhos dourados ainda carregavam um resquício da tempestade. Ele caminhou até ela, parando a centímetros de distância. Ele não a tocou, mas sua presença a envolveu como um manto protetor.
— Ele apenas adiou o inevitável — declarou o lorde, a voz novamente distante e autoritária. — Valerius gastou sua única rota de fuga. Ele agora é um rato sem toca. E eu caço ratos com extrema facilidade.
Ele olhou para o manto sujo de Elena e para o rosto pálido dela, sentindo uma pontada de raiva de si mesmo por ter permitido que ela passasse por aquilo, mesmo que fizesse parte de seu plano de captura.
— O teatro acabou, humana — disse ele friamente, embora o selo de calor em sua pele a estivesse aquecendo com ainda mais força do que antes. — Você retornará ao palácio. E desta vez, eu mesmo garantirei que você não saia do meu alcance.
Ele estendeu o braço de forma imperiosa para que ela o segurasse, pronto para levá-la de volta ao Palácio de Espinhos, onde as cinzas de Obsidian começavam a se assentar sob o domínio absoluto de seu rei.