capítulo 17

919 Words
# Capítulo 17: A Fuga de Veludo O silêncio que antecedia o eclipse era quase palpável nas profundezas das masmorras de ferro. A luz da lua de sangue, que começava a tingir o céu do submundo com um tom escarlate e doentio, filtrava-se fracamente pelas fendas superiores da rocha vulcânica. Elena permanecia no centro de seu casulo de calor rúnico. Ela não dormia. Seus sentidos humanos, aguçados pelo isolamento e pelo perigo constante, captaram o som metálico e arrastado de passos que tentavam ser furtivos. Não eram os passos firmes e autoritários de Azael, nem os compassados de Balthazar. Eram passos apressados, leves e cheios de uma urgência venenosa. ## O Sorriso da Serpente As grades de ferro frio gemeram quando a chave de latão n***o girou na fechadura. A silhueta esguia da Duquesa Lilith materializou-se na penumbra da cela, envolta em uma capa de viagem escura. Atrás dela, o guarda da masmorra mantinha-se de vigia, fingindo um nervosismo que havia sido previamente encenado sob as ordens de Balthazar. — Ora, ora... veja como a pequena princesa Vance se adaptou ao lixo — debochou Lilith, sua voz um sussurro sibilante que ecoou pelas paredes úmidas. Ela se aproximou, mas parou abruptamente ao sentir a barreira de calor rúnico que ainda protegia o corpo de Elena. Seus olhos negros faiscaram de puro ódio. — Ele realmente mima o seu brinquedo mortal. Mas a diversão acabou, humana. Elena levantou-se lentamente do banco de pedra, mantendo a postura erguida que tanto enfurecia os demônios. — O que você quer, Lilith? — perguntou Elena, a voz desprovida de medo. — Veio terminar o trabalho que seu pergaminho falso não conseguiu fazer? Lilith soltou uma risada melodiosa e c***l, estendendo a mão para revelar um manto de viagem e um rolo de pergaminho amarrado com o brasão real de Obsidian. — Eu vim salvar a sua vida medíocre, sua tola — mentiu a duquesa, fingindo uma pressa impaciente. — O conselho convenceu Azael a assinar sua sentença de morte para o amanhecer. Se você ficar aqui, sua cabeça estará em uma estaca antes que o eclipse termine. Este guarda foi subornado por aqueles que ainda têm alguma simpatia pela causa de Oakhaven. Vista isso e pegue este mapa. Ele contém os caminhos secretos pelos portões subterrâneos até a fronteira sul. Corra. Elena olhou para o manto e para o mapa. Ela sabia, com absoluta certeza, que aquilo era uma armadilha. Valerius e Lilith queriam que ela parecesse culpada ao fugir com segredos militares. Mas ela também sabia que, se recusasse, eles a matariam ali mesmo na cela e forjariam sua morte de qualquer maneira. Sua melhor chance era jogar o jogo deles e confiar no aviso que dera a Azael. Sem dizer uma palavra, Elena pegou o manto e o mapa. Ela vestiu o tecido escuro, cobrindo seus cabelos cor de mel, e encarou a duquesa de prata pela última vez. — Espero que você esteja pronta para as consequências do que está fazendo, Lilith — disse Elena, friamente. — Ah, eu estou — Lilith sorriu, os dentes pontiagudos brilhando na escuridão. — Agora vá. Antes que o próprio rei decida vir aqui e tirar o que resta do seu fôlego. ## O Olhar do Predador nas Sombras Elena cruzou os portões das masmorras, guiada pelo guarda subornado através de corredores de serviço úmidos e escuros que cheiravam a limo e poeira antiga. Ela fingia pressa, mas sua mente estava em alerta máximo. Ela não sabia que, a poucos metros acima de sua cabeça, no topo de uma das torres de vigia do Palácio de Espinhos, Azael a observava. O lorde demônio estava de pé contra o vento frio da noite, suas imensas asas negras estendidas, camuflando-o perfeitamente contra o céu que agora era devorado pela sombra da lua de sangue. Suas runas vermelhas pulsavam em uma cadência lenta e perigosa. Seus olhos de ouro líquido acompanhavam cada movimento da silhueta miúda de Elena através das fendas de ventilação do pátio inferior. — Ela pegou a isca, Meu Lorde — murmurou Balthazar, surgindo das sombras atrás de seu mestre. — Valerius já enviou a patrulha da fronteira para a posição de emboscada. Eles pretendem interceptá-la no desfiladeiro de cinzas em duas horas. — Deixe-os ir — a voz de Azael era um barítono sussurrado, mas carregado de uma promessa de destruição tão violenta que o próprio ar ao redor dele pareceu estalar com eletricidade estática. Ele fechou os punhos de ferro, sentindo a vibração do selo rúnico que havia colocado nela. Ele podia sentir o batimento cardíaco acelerado de Elena, o medo controlado dela, e a fúria dentro de seu peito imortal ameaçava romper as últimas barreiras de seu orgulho. Ele a queria de volta em sua cama, segura, longe da imundície daquela fuga forçada. Mas o teatro exigia o sangue dos traidores em praça pública. — Valerius acha que vai usar a minha fraqueza para me des coroar — continuou Azael, abrindo as asas e impulsionando-se levemente para a frente, pairando sobre o abismo do palácio com uma elegância letal. — Ele vai descobrir que o que ele chama de fraqueza é, na verdade, o monstro que vai devorar a alma dele. Prepare as tropas de elite, Balthazar. Nós vamos caçar uma serpente na fronteira. Com um bater de asas estrondoso que ecoou como um trovão na noite do eclipse, Azael lançou-se no céu escarlate, seguindo o rastro do calor rúnico de Elena como um falcão que protege a sua presa mais valiosa.
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