Denis narrando
Ligação on
-ta mãe eu já fiz a inscrição no Enem
A verdade é que eu não tinha feito nada e nem iria fazer.
-Ah que bom pois me mande aí no zap o comprovante quero ter certeza que tu fez mesmo.
Fiquei indignado
-oxi mainha tu não confia em mim não?
-não, não confio em tu.
Por essa eu não esperava.
- Quero ver o comprovante, mande já no meu Zap.
Ligação off
Ela desligou a chamada na minha cara, olhei incrédulo para o telefone; respirei fundo largando o garfo.
Estava almoçando e a fome até passou.
-não entendo essa insistência de tua mãe para que tu faça Enem...
Tio Jorge disse levando uma porção de comida na boca
-que tu faça faculdade para que isso?
Ele me olhou.
-Ela não sabe que tu já tá com a vida definida trabalhando na oficina ao meu lado.
Cocei a cabeça nervoso porque eu também pensava como ele, a oficina era minha vida eu dominava aquele lugar.
Eu sabia tudo sobre aquilo e eu estava satisfeito, não digo feliz mas satisfeito com a vida que eu tinha ali.
Mas mainha não entendia e não aceitava minha escolha, para ela era inadmissível que eu quisesse ser empregado do tio Jorge para o resto da vida.
-faculdade é bobagem pura ilusão, olha para mim não fiz faculdade.
Ele deu um gole no seu refrigerante.
-não tenho nem ensino médio completo e sou o dono da maior rede de autopeças de toda a região fluminense.
Ele bateu no meu ombro
-gente esperta não precisa de faculdade e você ...
Ele apontou o dedo pra mim
-você é esperto .
Fiquei feliz com o reconhecimento dele, sobre minha esperteza.
-eu sei tio Jorge concordo com o senhor.
Eu o admirava demais, tio Jorge era o exemplo de homem que eu queria ser.
- desde que a gente teve aquela conversa sobre assumir a os negócios no seu lugar, que eu entendi que a faculdade não é importante.
Mexi no garfo brincando com a comida
- mas minha mãe não entende assim e dona Ema é dura na queda.
Respirei cansado
-para ela se eu não tiver um diploma eu não serei reconhecido ou bem pago pelo meu serviço.
-Bobagem comigo você será reconhecido e já é bem pago, pelo serviços que me presta não é?
Balancei a cabeça positivamente, eu acredito que ele poderia me pagar um pouco a mais?
Claro que sim, afinal eu faço muitas coisas além de chefe da oficina sou como um gerente do lugar, resolvo a parte administrativa e financeira.
Mais ainda recebo como chefe de oficina, ele me dá uma bonificação por fora mas não é nada demais.
Enfim não vou dizer a ele que acho que mereço ganhar mais, seria ingratidão demais da minha parte.
- já disse isso a ela ?
Eu o olhei
-que não quer fazer faculdade?
Ele comeu outra porção do seu contra filé
-Sim várias vezes.
Bebi um gole do meu suco.
- hoje mesmo pela manhã ela veio com esse assunto do Enem de novo e eu deixei claro que ainda não tinha feito a inscrição por que não tenho interesse.
Olhei em seus olhos
-mas ela não entende e não aceita minha decisão, ela acha que mais tarde vou me arrepender.
- quer que eu fale com ela?
Arregalei meus olhos, não ia dar certo
-não não deixa isso quieto
Ele bateu no ar com a mão
-eu posso convence-la a mudar de ideia
-dificilmente vai funcionar...
Falei sincero, olhei sério pra ele
-e acho até perigoso ela lhe ofender melhor deixar para lá, eu faço a inscrição para agradá-la
Ele negou com a cabeça veemente
- não não de jeito nenhum.
Ele foi categórico em sua resposta.
-faço questão de resolver isso pra você.
-nem sei se vou passar então não tem com o que se preocupar.
Ele segurou em meus ombros.
-você é como um filho para mim...
Toda vez que ele falava isso eu ficava emocionado.
-esquece esse negócio de faculdade, eu convenço sua mãe a deixar isso para lá.
Eu sabia que não ia funcionar mainha nunca ia voltar atrás, porque ela acredita seriamente que tio Jorge me explora no serviço .
Que ele não tem toda essa consideração que diz ter e que ele jamais vai deixar os negócios para mim, como ele promete .
Acho até que ela pode falar algo que o ofenda mas ele também é duro na queda.
Então não vai adiantar eu dizer para ele não ir, agora é só rezar para depois dessa conversa; eu não acabar demitido e tio Jorge agredido.