Ela desce o restante dos degraus, se apressando em vir ao meu encontro, me abraçando quando já estava perto o bastante.
- É você mesmo! - diz sorrindo, notando a elevação em minha barriga - E tá grávida. Por quê não disse antes?
Não consigo ter reação.
Se fosse antes, vibraria de alegria em vê-la. Mas naquele momento, não.
- Lidiane. Oi! - diz Júlia, indo abraçar Lidiane, que ao contrário de mim, retribui o abraço e coloca um sorriso no rosto - Você tá bonito - Ela passa a mão pelas pontas lisas do cabelo de Lidiane - Seu cabelo então, tá tão bonito.
- Ela não está aqui contra a vontade dela - diz Jô, atraindo meu olhar.
Júlia nos olha.
- Eu vim por quê quis - diz simplesmente, para meu espanto.
- O quê? - digo baixo.
- Vim atrás de você, Maria - Continua - E quando cheguei aqui hoje, a Jô ofereceu trabalho pra mim. Ela disse que foi assim que você começou.
Não queria ter que explicar para Júlia tudo que aconteceu até aquele dia. Não queria ter que remexer em feridas que nem tinham cicatrizado.
- A mãe sabe que você tá aqui?
- Claro que sabe. Ela até mandou umas coisas pra você. Rapadura, doce de leite...
Me aproximo dela, a assustando inicialmente.
- Vou ser bem direta - digo séria - Você vai embora. Vai pegar o próximo ônibus que for pro Ceará e vai sair daqui. Entendeu?
Ela franze o cenho confusa.
- O quê? Por quê?
- Por que sim! Por que eu quero!
Ela abre e fecha a boca ainda sem entender.
- Não gostou de me ver?
Havia amado. Todo aquele tempo naquela cidade, me fazia querer voltar para casa, voltar para meu pedacinho do Paraíso.
Só que eu não era mais as mesma e os planos haviam mudado.
- Não - minto - Aqui não é como lá. Pra visitar as pessoas, tem que ligar avisando, não simplesmente amanhecer nas casas dos outros.
Ela pressiona os lábios, fazendo com que seu queixo tremesse.
- Mas você não é os outros. É minha irmã.
- Poderia ser nossa mãe, eu ia mandar ela voltar. Não tem por quê você tá aqui. Não tem nada pra você aqui - Queria gritar para ela que ali era o último lugar na face da Terra, que ela iria gostar de estar e que Jô era pior do que um carrasco.
Ela dá de ombros.
- Não ligo - diz com raiva - Além do mais, você não é dona da cidade - Mas era daquele morro - E não vou embora.
- Maria Júlia, não brinca comigo - digo entre dentes.
Ela cruza os braços.
- Vai me bater?
Só queria resolver toda aquela situação pacificamente, mas como sempre, o gênio dela, não estava cooperando.
- Faz o que estou mandando.
- Não vou embora, Maria! - diz elevando a voz - Mesmo que quisesse, não posso!
- É dinheiro? Quanto você precisa?
Ela revira os olhos, mantendo os braços cruzados.
- Queria que se fosse tão fácil de resolver. Olha pra você, usando roupas boas, grávida. Manda no seu próprio nariz e agora olha pra mim.
Solto o ar dos pulmões.
- Vou ligar pra mãe. Ela vai esperar você na rodoviária.
- Eu já disse, Maria. Não posso voltar.
Estava prestes para rebater ela, quase perdendo o restante da minha paciência, quando fogos de artifício me interrompem e um sinal de alerta invade minha cabeça.
Lidiane me olha com os olhos arregalados, entendendo o quê estava acontecendo.
Saindo da casa de Jô, entro no meu carro, pegando o radiozinho no painel.
- Que merda tá acontecendo? - questiono, soltando o botão, ouvindo-o chiar em seguida.
- Tão invadindo! É os vermes! - grita o cego do outro lado, com sons de tiro ao fundo - Precisamos de você.
Jogando o aparelho de volta no painel, ligo o carro, sendo impedida de sair por Lidiane, que se coloca em frente do carro.
- Você esqueceu que tá grávida?! - grita.
- Sai da frente do carro!
- Maria!
Não argumento, apenas acelero o carro o suficiente para fazê-la sair da minha frente e subo o morro, desviando de pedestres, carros e motos.
Alguns soldados me olham incrédulos, quando paro o carro no topo do morro e caminho na direção deles.
Com um zumbido nos ouvidos, me aproximei, no momento em que cego joga algo na minha direção.
— Vista isto!
Coletes à prova de balas, percebi incrédula.
Ele acabara de me entregar coletes à prova de balas.
O colete era pesado, mas consegui vesti-lo, mesmo me sentindo fora do meu corpo, por ser a primeira vez que estava a frente de uma operação como aquela.
Ele também segurava uma AK-47, que jogou nas minhas mãos antes de se virar para pegar uma semelhante para ele.
Assim como a arma que Gael me deu, aprendi a usar todos os tipos de armas, para caso de alguma emergência.
- Estão tentando nos cercar - diz cego, me olhando brevemente.
- E os soldados?
- Já começaram a abrir fogo.
Olho novamente para os demais ali.
- E o quê vocês estão esperando? A ordem é pra matar.
Ambos se entreolham, antes de obedecer.
Com a cabeça, indico uma viela próxima, então assim, cego e mais três me seguem, com as armas engatilhadas.
Quando o novo som chega aos meus ouvidos, minha adrenalina aumenta.
Não sabia que era possível me sentir assim, atordoada e viva ao mesmo tempo. Meu coração batia muito depressa e a pele se arrepiou com um medo gelado. No entanto, a raiva que estava sentindo desapareceu, em algum momento entre a segunda e a terceira explosão.
Pelo jeito, uma pessoa conseguia se acostumar com qualquer coisa, até mesmo com tiros e explosões.
Agarrando com força a arma metralhadora, olhava com atenção todos os acessos a frente, sem parar de prestar atenção nos barulhos da batalha que acontecia não muito longe dali.
As vielas ao nosso redor parecia uma zona de guerra, com veículos capotados e em chamas enchendo o espaço estreito.
Era como se estivéssemos em um videogame, exceto que as mortes eram reais.
Mais tiros! Com o pressionar de um botão do controle, um soldado caiu de uma laje. Outra sequência de tiros! Mais soldados.
Caminho em passos rápido, mais cautelosos, esperando que o inimigo surgisse a qualquer momento em minha frente. Obrigando a todo instante, que minha mente permanecesse limpa, apesar de Maria Júlia e nossa breve discussão querer minha atenção.
Um jogo. Como um jogo de tiro realista com efeitos sonoros incríveis. Se eu visualizasse a
situação daquele jeito, conseguiria aguentar. Podia fingir que não havia dezenas de corpos metralhados atrás de nós, tanto do nosso lado quanto do deles.
Era só um maldito jogo, que não podia perder. Perder não era uma opção de nenhuma forma.
Sim, um jogo... no qual agora havia um helicóptero. Conseguia ouvi-lo e, quando me aproximei de um espaço mais alto, pude ver que realmente era um.
Era um helicóptero da polícia, vindo diretamente para nós.
Em outras circunstâncias, como moradora talvez. Deveria ser um alívio o fato de as autoridades tentarem interceder... exceto que o bloqueio que tínhamos acabado de atravessar não parecia uma tentativa de restaurar a lei e a ordem. Vi carros da polícia logo a frente. Eles não tentavam prender todos os criminosos envolvidos naquela perseguição mortal.
Eles tentavam nos eliminar.
Uma nova onda de terror me invadiu, penetrando a calma falsa. Aquilo não era um jogo.
Havia pessoas morrendo por todo lado e, se não fosse pela minha cautela e pelo conhecimento que cego tinha também e estaríamos mortos. Se fosse apenas eu, não importaria tanto. Mas minha família ainda dependia de mim e aqueles bebês dentro de mim. Se alguma coisa acontecesse com eles...
Não, pare. Começo a hiperventilar e forço o pensamento para longe. Não podia entrar em pânico naquele momento. Olhando para trás, vi cego e os demais soldados. Eles estavam tão pálidos que pareciam quase esverdeados.
Achei que os estavam em choque, pois a respiração de um estava pesada e acelerada.
— Vou pra cima! — diz um deles, dando a entender que iria dar cobertura em uma das lajes.
O barulho do helicóptero estava logo acima de nós, ir lá pra cima seria quase um suicídio.
Mais tiros.
Minha visão fica escura e todos os sons desapareceram por um segundo. Arquejando, tento desesperadamente me segurar enquanto sinto tudo balançar de um lado para o outro.
Quando meus sentidos voltaram, percebi que o
helicóptero da polícia atirara em nós, percebi com uma onda de pânico. Ele atirara em nós e eliminara mais dois dos nossos, inclusive o soldado que iria nos dar cobertura.
Me virando, lanço um olhar frenético para cego.
— Perigosa! — Braços fortes envolvem minha cintura, me arrastando para o chão.
Um cego enfurecido estava ajoelhado sobre mim e seu rosto parecia uma tempestade.
— Fica abaixada.
Em uma fração de segundo, registrei duas coisas: ele não estava ferido e suas mãos estavam vazias.
A metralhadora devia estar sem munição.
Mais uma onda de tiros!
Notei vagamente que cego se posicionou em volta de mim, me protegendo com o corpo, mas ainda senti estilhaços de algo contra meu rosto.
Todo o ar saiu dos meus pulmões e o interior do carro girou à minha volta. A visão ficou borrada quando algo penetrou minha pele. Minha cabeça latejava,
como se o cérebro estivesse tentando sair.
— Patroa! — A voz dele chega até mim através do zumbido nos meus ouvidos.
Atordoada, tento me concentrar nele. Quando parte do atordoamento se dissipou, vi que estávamos novamente no chão, com ele deitado sobre mim. O rosto dele estava coberto de sangue, que pingava em mim. Ele disse alguma coisa, mas suas palavras não registraram na
minha mente.
Eu só conseguia enxergar o vermelho mortal do sangue dele.
— Você tá ferido. — O gemido aterrorizado nem parecia a minha voz. — Cego, você tá ferido...
Ele segurou meu maxilar com força, fazendo com que eu me calasse.
— Escute bem — disse ele. — Em exatamente um minuto, quero que comece a atirar. Deu pra entender? Atira nestes filhas da p**a.
Até aquele momento, por causa dos episódios anteriores, meu lado humano estava aflorado, entretanto, com as palavras dele, a Perigosa tomou controle da situação, principalmente do meu corpo.
As gotas vermelhas continuavam a cair. Senti a umidade no rosto, o gosto metálico nos lábios.
— Patroa! — gritou ele, sacudindo-me. — Tu entendeu?
Parte do zumbido desapareceu e o significado das palavras dele finalmente foi registrado.
Atirar. Matar.
— Tu tá com a arma, mas não quero que banque a heroína.
Entendeu, patroa? Tu ainda tá grávida - Consegui assentir de leve.— Ótimo.
Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ele se levantou e me puxou para ficar de joelhos, me entregando a AK-47 que caíra. Minha cabeça girou com o movimento súbito, mas afastei o atordoamento, segurando a arma com todas as forças.
Tudo parecia estranho e meu corpo estava
estranhamente lento, mas consegui me concentrar o suficiente.
Foi então que os primeiros disparos soaram de mim, a medida que me aproximava.