46 — Juliana Narrando O silêncio da casa da Dona Nádia depois que o Diego bateu a porta e ganhou a rua era um silêncio que gritava. Eu fiquei ali, de pé na cozinha, olhando para o prato de café da manhã dele ainda sujo, sentindo uma mistura de vazio com uma irritação que subia pela garganta. Dois anos. Eu passei setecentos e trinta dias vivendo a vida dele, respirando a angústia dele, carregando o peso de uma grade que não era minha. E bastou ele sentir o calor do asfalto nos pés por cinco minutos para a promessa que a gente selou com lágrimas começar a evaporar junto com a fumaça do primeiro baseado que ele, com certeza, já estava fumando no morro. Dona Nádia me olhava. Aquele olhar de quem já viu esse filme ser rodado em preto e branco, colorido e em alta definição. Ela não disse "eu

