02

1489 Words
02 - Diego/Urso Narrando O pessoal me chama de Urso. Dizem que é porque eu sou calado, mas quando ataco, não sobra nada. Mas antes de ser o Urso, eu era só o Dieguinho, o moleque que corria descalço e achava que o mundo terminava na curva da última ladeira do morro. Minha infância não teve brinquedo caro, mas teve aula de realidade desde cedo. Enquanto os moleques do asfalto aprendiam a ler com livrinho colorido, eu aprendi a ler o céu. Se o helicóptero aparecia, o jogo de bola parava. Se o radinho chiava, a gente corria pra debaixo da cama. Na escola? Eu tentei. Juro que tentei. Mas era difícil prestar atenção na professora explicando divisão de fração quando meu estômago tava fazendo conta de quando ia ter a próxima janta. Sentar naquela cadeira dura, com o caderno todo acabado, ouvindo que "o estudo é o único caminho", parecia a maior piada do mundo. Eu olhava pela janela da sala e via os caras. Eles não tinham diploma. Mas tinham o tênis de mil reais. Tinham a moto do ano. Tinham o respeito que meu pai, que trabalhou trinta anos como servente e morreu sem uma moeda no bolso, nunca teve. A escola me ensinou a ler, mas o morro me ensinou a enxergar. Aos doze, eu já fazia pequenos corre. Levava um aviso aqui, trazia uma marmita ali. A primeira vez que segurei um ferro na mão, o peso não foi no braço, foi na alma. Mas depois de cinco minutos, o peso sumiu. Eu me senti dono de mim mesmo pela primeira vez. Ali, eu entendi: ou você é o bicho, ou é a caça. E eu nunca nasci pra ser caça. Eu larguei tudo. Escola, futuro de papel, promessa de político. Entrei pro crime não porque eu era r**m, mas porque eu era ambicioso. Eu queria tudo que me disseram que eu não podia ter. Mas, no meio desse lodo todo, tinha uma coisa que brilhava e me cegava: a Juliana. Se o morro era o inferno, a Ju era o pedaço de céu que sobrou. Eu olhava pra ela e via o que eu poderia ter sido se tivesse tido outra chance. Ela era limpa. Trabalhadora. Tinha aquele cheirinho de sabão e perfume doce que não saía da minha cabeça nem quando eu tava no meio de um tiroteio. Eu via ela passando, com aquele jeito marrento, fingindo que eu não existia. Eu sabia que ela tinha nojo da minha vida. Eu via nos olhos dela toda vez que ela olhava pro fuzil atravessado no meu peito. — Bandido, não. Teu vizinho de infância — eu disse pra ela naquela noite, tentando forçar uma conexão que eu mesmo tinha quebrado anos atrás. Ela me deu um fora. Mais um. "Não vou jogar minha vida no colo de bandido". Aquelas palavras doeram mais que o tiro de raspão que eu levei na semana anterior. Porque ela tava certa. Eu era o risco. Eu era a incerteza. Eu era o cara que podia jantar com ela e não chegar pro café da manhã porque o Estado resolveu que era dia de invasão. Mas eu sou o Urso. E o Urso não desiste do que quer. Eu sabia que, pra ter a Juliana, eu não podia ser o traficante. Eu tinha que ser o Diego. Por isso eu cercava a dona Marta, trazia o cigarro dela, a cervejinha. Eu queria que, dentro da casa delas, o meu nome não desse medo, mas trouxesse conforto. Eu via ela de longe, na loja. Aqueles cachos soltos, o shortinho que deixava as pernas dela de fora, o sorriso que ela dava pros outros clientes, mas que sumia quando me via. Aquilo me matava. Eu queria dar o mundo pra ela. Mas o meu mundo era feito de grades e túmulos. — Tu é difícil, Juliana... — eu sussurrei pra mim mesmo, vendo ela dobrar a esquina depois de recusar minha carona de novo. — Mas o morro tem dono. E o meu coração também já tem dona. Só falta você aceitar. Às vezes os moleques lá da contenção perdem a noção do perigo. Noite de baile, ou até fim de tarde ali no bar da entrada, a Juliana cismava de aparecer com aquelas amigas dela. Ela chegava de um jeito que parecia que o asfalto era passarela. E eu? Eu ficava ali, no canto, de olho em tudo, fingindo que tava só acompanhando o movimento, mas o radinho no meu ombro podia até pifar que eu nem ia notar. Meus olhos só tinham um alvo. — Ih, lá vai o patrão... travou a mente de novo — o Dener, um moleque que eu vi crescer e que agora tá na minha segurança, soltou um risinho baixo. — A tua namorada sabe que tu tá namorando com ela, Urso? Porque a cara que ela faz pra tu não é de apaixonada não, hein! O pessoal em volta deu aquela risada abafada. Senti o sangue subir pro rosto na hora. Puxei o ar do beck com força, segurando o fumo no peito pra ver se a raiva passava junto com a fumaça. — Tá querendo perder o dente de frente, Dener? — soltei, a voz saindo mais grossa que o normal. — Cuida do teu posto e esquece a vida dos outros. Se eu ouvir mais um pio sobre ela, tu vai passar a noite de vigia lá na parte alta, na chuva. O moleque se calou no ato, mas eu sabia que por dentro eles continuavam zoando. Era f**a. Eu, o cara que decide quem sobe e quem desce nesse morro, o cara que bate de frente com o Estado, fico nervoso igual um moleque de treze anos quando vejo ela rindo de uma piada de algum o****o no bar. Eu não aguentava ver ela ali, dando mole pro perigo — não o perigo do tiro, mas o perigo de algum engraçadinho achar que tem chance. Eu acendia um cigarro atrás do outro. O cinzeiro ali da mesa já tava transbordando e o meu pé não parava de balançar. "Pra onde essa garota vai agora?", eu pensava, vendo ela levantar e ajeitar o short. O nó na garganta vinha forte. Eu queria levantar, pegar ela pelo braço e falar: "Vamo pra casa, Juliana, esse lugar não é pra você". Mas eu sabia que se eu fizesse isso, ela nunca mais olhava na minha cara. Ela odiava essa minha postura de dono. Então eu ficava ali, sofrendo em silêncio, vigiando cada passo, pronto pra virar o morro de cabeça pra baixo se alguém encostasse um dedo que fosse nela. Eu lembro até hoje daquele dia.. Eu tava ali no alto, com o binóculo na mão acompanhando a movimentação da entrada, quando vi uma cena que fez minha visão escurecer. Uma moto dessas barulhentas, de moleque que gosta de dar grau, subindo a ladeira. E na garupa, segurando na cintura do infeliz? Ela. Naquela hora, o cigarro na minha boca ficou amargo, com gosto de veneno. Meus dedos tremeram no fuzil, não de medo, mas de uma vontade absurda de descarregar o pente no asfalto. A Juliana tava rindo, o cabelo voando, parecendo livre e o pior: livre longe de mim. — Quem é aquele o****o? — perguntei, a voz saindo tão baixa que os moleques em volta até se encolheram. Ninguém respondeu de primeira. — Eu perguntei quem é a p***a do moleque na moto com a Juliana! — É o tal do Renan, patrão... lá da parte baixa. Diz que é trabalhador, faz entrega — o Dener gaguejou. Trabalhador o c*****o. Pra mim, ele era um homem morto que só esqueceu de cair. Esperei ela descer na porta de casa. Vi o sorrisinho dela pra ele, vi o "tchau" com a mão. Aquilo foi como uma facada no meu peito. Assim que ela entrou e bateu a porta, eu fiz o sinal pros moleques. A gente cercou o cara duas ruas depois. A Juliana não viu nada. E nunca ia ver. O moleque ainda tentou crescer o peito, dizer que era só amigo de infância, que tava só fazendo um favor. Eu não queria ouvir. Cada palavra dele era um soco que eu devolvia com o triplo de força. Eu batia com ódio de cada fora que ela já me deu, batia por cada noite que eu fiquei em claro pensando nela enquanto ela tava na garupa desse arrombado . Naquela noite, o tal do Renan virou saudade. Ninguém nunca achou o corpo, nem ia achar. O Complexo guarda bem os meus segredos. E a moto? Ah, a moto eu fiz questão de tacar fogo eu mesmo. Fiquei ali assistindo o metal derreter, sentindo o calor das chamas no rosto, enquanto fumava mais um cigarro pra ver se o amargo da boca saía. Se ela não fosse minha meu parceiro, ela não ia ser de ninguém enquanto eu tivesse vivo.
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