JULIANA NARRANDO
Eu não virei “mulher de bandido” do nada. Antes disso, eu era só a Juliana da lojinha.
Trabalhava numa loja de roupa ali mesmo no morro, no meio da principal. Vendia shortinho, cropped, vestido colado, chinelo, essas coisas. Todo mundo me conhecia: as tias que pediam pra anotar no caderninho, as novinhas que imploravam por desconto e os moleques que paravam na porta só pra jogar conversa fora e ver o movimento.
— Fala, Ju! Separa aquele vestidinho vermelho pra mim, hein? — gritava a Vanessa, passando apressada.
— Já tá separado — eu respondia, rindo. — Pode deixar n**a!
Eu gostava daquilo. Gostava do barulho da criançada correndo, do cheiro de café vindo das casas, do povo parando pra bater papo. Era um corre danado, um cansaço que batia no final do dia, mas era uma vida que eu entendia. Vida simples, de cria, de quem aprendeu cedo que se você não se virar, ninguém vai se virar por você.
E, no meio dessa rotina, sempre teve ele. Eu conheço o Diego desde que ele era o “Dieguinho”: magrelo, joelho ralado de queda de bicicleta, camisa do Flamengo desbotada e uma bola debaixo do braço. A gente cresceu vendo as mesmas coisas: o caveirão subindo a ladeira, o som seco do tiro de madrugada, o cheiro de gás de pimenta entrando pela fresta da janela.
A diferença é que eu sempre olhei pra isso com um nó na garganta e ele olhava com uma certeza esquisita no rosto. Como se já tivesse decidido, antes mesmo de ter barba na cara, de que lado daquela guerra ele ia ficar.
Desde moleque ele dava sinal de que ia pro lado errado. Foi largando a escola, andando com uns caras dez anos mais velhos, sumindo de dia e voltando de moto barulhenta de noite. Quando o boato correu que ele tava “no corre”, eu não me surpreendi. Fiquei decepcionada, sim. Mas surpresa? Nunca.
Por isso ele nunca teve chance comigo. Na minha cabeça, o mantra era um só:
“Deus me livre me envolver com bandido. Já basta o perigo do morro, não quero ele dentro da minha casa.”
Enquanto eu virava vendedora, pagava minha academia e ajudava minha mãe com as contas, Diego virava aquele nome que as pessoas só falam em voz baixa quando o rádio da polícia chia por perto.
Meu dia começava cedo. Abria a loja, arrumava a vitrine, botava um pagodinho baixo no celular e passava álcool nas araras. De tarde, eu fechava um pouco mais cedo só pra não perder o treino na academia lá embaixo. Era o mesmo roteiro todo santo dia: descer a rua principal com fone no ouvido e garrafa d’água na mão.
E ele, claro, sempre ali encostado num carro de luxo que não combinava com o asfalto esburacado, ou sentado numa moto potente, cercado pelos "soldados" dele. Às vezes tava rindo, às vezes sério, mas era batata: eu passava e o olhar dele grudava.
Eu fingia que não via. Ele fingia que acreditava no meu fingimento. Se algum engraçadinho falava qualquer gracinha quando eu passava, o clima mudava no ato. A risada dos caras morria e o silêncio pesava.
— Ô, cabelão hein, morena — um cara de fora se arriscou uma vez.
Diego virou o pescoço devagar. O sorriso que ele exibia segundos antes sumiu, dando lugar a um olhar vazio, gelado, de quem decide o destino de alguém num estalar de dedos.
— Fala de novo. Quero ouvir melhor — ele disse, a voz baixa demais para ser um bom sinal.
O cara arregalou o olho, perdendo a cor.
— Foi m*l, Urso, to só zoando, pô.
— Então zoa com a tua mãe — Diego cortou, sem piscar. — Aqui tu respeita a Juliana.
Eu ouvi aquilo já dobrando a esquina. Meu coração batia rápido, uma mistura de ódio pela vida dele e uma sensação covarde de segurança. Eu odiava o que ele fazia, mas não podia negar: era bom saber que, naquele caos, existia um muro invisível me protegendo. E o nome desse muro era Diego.
Ele sempre tentava puxar assunto. Não desistia nunca.
— E aí, Juliana? Como é que tá o movimento na loja?
— De boa, Diego. — Eu respondia seca, sem parar de andar.
— Tá precisando de alguma coisa? Algum problema com a fiação, com a porta?
— Tô precisando de cliente com dinheiro limpo no bolso.
Ele soltava aquela risada rouca que, confesso, às vezes me desarmava.
— Isso aí comigo não falta, hein?
— Não quero dinheiro sujo né? — eu cortava logo.
Ele levantava as mãos, como se estivesse se rendendo.
— Calma c*****o! Só tô trocando ideia, garota maluca.
Eu não dava a******a. Era o básico: “oi”, “tchau”, “com licença”. Não aceitava bebida no baile, não aceitava carona, não ria das piadas. Mas ele insistia. Tinha uma paciência de pescador.
Teve uma noite que eu nunca esqueci. Saí da academia tarde, quase meia-noite. A rua principal estava deserta, com aquela luz amarelada dos postes falhando e um silêncio que dava arrependimento de ter demorado tanto. Comecei a subir rápido, fone desligado, ouvindo até o barulho da minha própria respiração.
De repente, o motor de um carro veio rastejando atrás de mim. O corpo gelou na hora. Apertei a chave entre os dedos, pronta pra qualquer coisa. O carro emparelhou.
— Sobe aí, Ju. — A voz dele saiu do vidro escuro que abaixava.
Respirei fundo, misturando alívio e raiva.
— Vai pra casa, Diego.
— Tô indo. Mas só vou se te levar junto — ele deu aquele sorriso de canto.
— Não vou entrar em carro de bandido. Obrigada.
— Bandido, não — ele corrigiu, com o olhar fixo em mim. — Teu vizinho de infância. Aquele que dividia o dindim contigo na calçada da tua vó.
— Meu vizinho de infância não andava com um fuzil no banco do carona, Diego.
Ele ficou em silêncio por um tempo, o carro seguindo o meu passo lento.
— Sobe logo, Juliana. A rua tá esquisita hoje, tem operação prevista pra zona norte. Tu vai ficar à pé aqui pra provar o quê? Que é orgulhosa?
— Vou porque eu gosto de fazer um cardio subindo — respondi, parando e encarando ele de frente.
O olhar dele mudou. Ficou sério, profundo, como se ele estivesse realmente me enxergando. Ele não achou brecha no meu rosto.
— Tá bom — ele cedeu, por fim. — Mas quando tu cansar de subir esse morro sozinha, lembra que eu sempre vou estar aqui pra te carregar.
Engatou a marcha e seguiu na minha frente, mas antes de sumir na próxima rua, gritou:
— Chega bem em casa! Se alguém triscar em você, o morro vira de cabeça pra baixo!
Eu revirei os olhos, mas por dentro, o estômago deu uma volta. Era uma vontade i****a de rir e uma vontade maior ainda de chorar.
Ele começou a tentar outro caminho: minha mãe.
Aparecia na porta de casa ou da loja com agrados. Uma cerveja gelada, um pacote de café do bom, até o cigarro que ela gostava. Minha mãe, que já tinha sofrido muito na vida, se derretia.
— Ih, Diego, não precisava, meu filho! — ela dizia, sorrindo.
— Precisa sim, dona Marta. A senhora criou sua filha sozinha nesse lugar. Tem que ser tratada como rainha.
Eu ficava possessa atrás do balcão. Minha colega de loja vivia sussurrando:
— Teu namorado chegou, Ju.
— Não é meu namorado. É sentença de morte — eu rosnava.
Um dia ele cruzou a linha.
— Ô, tia Marta, trouxe esse docinho aqui pra senhora. Fica bem, hein, sogra!
Eu quase caí da cadeira.
— Quem é tua sogra, garoto? Tá maluco?
Ele me olhou, com a maior cara de santo do mundo.
— Minha sogra é a mãe da minha futura esposa. Tô mentindo, dona Marta?
Minha mãe só ria, se esquivando.
— Eu, hein! Não me metam nas confusões de vocês!
Quando ele saía, minha mãe vinha com aquele olhar de sermão.
— Juliana… ele é um bom menino.
— Mãe, ele é traficante! — eu gritava, incrédula.
— Traficante ele é pro Estado — ela dizia, com aquela sabedoria de quem já viu de tudo. — Pra você, eu só vejo um homem que te respeita. Já vi muito "trabalhador" tratar mulher feito lixo.
Aquilo me dava um nó na cabeça. Eu odiava o que ele era, mas amava o jeito que ele me olhava, que me desejava. E o pior é que, no fundo, as vezes eu queria provar.
Quando eu finalmente caísse e eu sabia que a gravidade daquele morro ia me empurrar pra ele cedo ou tarde, Diego não ia me deixar levantar e ir embora tão fácil assim.