62 — Manuela Narrando Eu olho para o espelho do provador da loja e, às vezes, não reconheço a mulher que está refletida ali. Essa loja, que antes era o nosso sonho dividido em duas, nosso refúgio de risadas e fofocas enquanto a gente arrumava os cabides, hoje parece um deserto de lembranças. A Juliana não era só minha sócia; ela é minha irmã de alma desde que a gente usava gloss de morango e sonhava com o primeiro beijo no escadão da Penha. E ver o vazio que ela deixou é uma dor que não passa, é uma ferida que o tempo teima em não cicatrizar. Eu vi tudo. Ninguém me contou, não. Eu estava ali, segurando a mão da Juliana em cada noite que ela chorava porque o Diego tinha sido preso. Eu estava ali quando ela recebia as cartas dele da tranca, promessas e mais promessas de que tudo ia mudar.

