O som ensurdecedor de metal retorcido e vidro quebrado ainda ecoa na minha mente, mesmo anos depois daquela noite fatídica. A estrada estava molhada, uma combinação perigosa que terminou em tragédia. Lembro-me de flashes, visões fragmentadas que não formam um todo coerente: os faróis de um carro vindo na direção oposta, o som dos pneus derrapando, e então… escuridão.
Quando abri os olhos, a confusão foi imediata. Eu estava deitado em uma cama de hospital, sentindo dores lancinantes por todo o corpo. A luz fluorescente no teto era fria e impessoal, e o som das máquinas monitorando meus sinais vitais eram constantes. Ao lado da minha cama, minha irmã, Helena, estava sentada, segurando a minha mão.
Ela soltou um soluço de alívio ao me ver acordado.
- Ethan, graças a Deus! Você acordou! – As lágrimas escorriam pelo o rosto dela, enquanto ela segurava a minha mão com força, como se temesse que eu desaparecesse novamente.
- Helena… o que aconteceu? – a minha voz saiu fraca e rouca.
Ela enxugou as lágrimas rapidamente, tentando se recompor.
- Você esteve em um acidente, Ethan. Foi grave. Você ficou em coma por quase um mês. Estávamos todos preocupados… – tentei me lembrar, mas tudo era um borrão.
- Eu… eu não lembro. Quem mais estava no carro?
- Vitória e Vincent. Eles estão esperando do lado de fora, Noah foi em casa, mais logo ele volta. Vou deixá-los entrar, enquanto isso vou atrás do médico. – disse Helena, beijando a minha testa antes de sair do quarto.
Minutos depois, Vitória e Vincent entraram. Vitória, com os olhos vermelhos de tanto chorar, parecia frágil. Vincent, por outro lado, estava sério, com uma expressão sombria.
- Ethan. – Vitória começou, a voz trêmula. – Estamos tão aliviados que você acordou.
Vincent, no entanto, não perdeu tempo.
- Você causou o acidente, Ethan. Estava dirigindo rápido demais. Nós tentamos te avisar, mas você não escutou. Quando vimos o outro carro, já era tarde demais.
A culpa esmagadora me atingiu como uma maré violenta, sufocando-me. Eu não conseguia lembrar. O rosto angustiado de Vitória, a frieza de Vincent, a dor física e emocional… tudo isso se misturava em um turbilhão de desespero. Desde então, a sombra daquele acidente me perseguiu, e a dúvida sobre o que realmente aconteceu naquela noite nunca me deixou em paz.