Eu estava no salão de cabeleireiro do shopping, com aquela certidão de casamento queimando em minha bolsa, e enquanto aquela moça lavava e tratava meu cabelo, pensei em todo o absurdo da situação:
Depois que perguntei se ele ainda queria casar comigo, ele deu um sorriso, ligou para o segurança e motorista dele:
— Alexandre, libera o mané e vem me buscar. Amália vai me salvar!
No carro ele explicou que a mãe dele, doente em estágio terminal, exigiu o casamento dele até aquele dia. Não contou qual doença, nem porque não pensou em se casar por vias normais. Também não perguntou nada sobre mim. Reforçou os detalhes do casamento e eu só queria chorar, pensando na afronta e falta de gratidão de Tarciso. Acho que Vitor percebeu meu desconforto, porque soltou:
— Eu estou falando sem parar para você esquecer o que eu presencie no hall do café do complexo.
— Você viu tudo?
— Vi. Mas não ouvi. Não sei do que se trata, mas a postura daquela senhora e depois do rapaz, pareciam bem desagradáveis.
— Não importa! O senhor está certo, vamos assinar esse contrato.
— Você não quer nem discutir os termos?
— Não, posso parecer não prestar atenção, mas ouvi tudo: o senhor vai me pagar um milhão e duzentos mil reais, divididos em 12 vezes, e ao fim do contrato, um valor indenizatório, vai bancar todas as minhas despesas durante esse tempo e roupas, jóias e carro são “presentes de esposa” e eu vou ganhar conforme merecer, se tiver desempenhando bem meu papel. Se o senhor viu o que aconteceu, mesmo sem ouvir, deve ter entendido todo o cenário: aquela senhora é minha sogra há quase dez anos e hoje descobri que não gosta de mim ou do fato de eu ser órfã, ter sido criada por meu avô em um sítio ou ter poucas posses. E meu agora ex noivo, parece concordar com ela de que: ele ser estudado, ter um emprego bagaceira, poder financiar um carro bacana, torna ele superior a mim e não merecedora de o desposar. Não estou aceitando por dinheiro, senhor Vitor.
— Nada de senhor. Vamos ser marido e mulher!
— Não, vamos ser casados. Marido e mulher dormem juntos e o senhor deixou bem claro no contrato que não vai haver nenhum tipo de envolvimento entre nós. Vamos dormir em quartos separados e vamos seguir nossas vidas o mais distantes possível, até o divórcio.
— Sim, também está no contrato a obrigação da discrição de ambos, quando o assunto for relações extra conjugais.
— O senhor não se preocupe. Não tenho ninguém para ter relações extra conjugais, e o senhor não perguntou, mas eu tenho um emprego e vou me dedicar a ele.
— Bem lembrado. Com o que você trabalha? Se tinha a informação sobre o Oriente Médio…
— Chegamos, senhor. — Alexandre, o motorista de Vitor avisou.
— Vamos acabar logo com isso…
Enquanto a gente era encaminhado para uma sala especial dentro do cartório, eu tentava me lembrar o que sabia sobre Alexandre: tem porte de armas, curso de segurança armado, era motorista de e segurança pessoal de Vitor há cerca de sete anos. Mais ou menos o mesmo tempo que eu sou contratada dele!
Quando entramos na sala, tinha uma senhora baixinha n***a lá, que me examinou dos pés a cabeça. Achei que Vitor era adotado e aquela fosse ser minha nova sogra, depois mordi o lábio como punição por meu pensamento preconceituoso: porque ela não poderia ser mãe biológica dele?
Mas ele se aproximou dela e a beijou no rosto:
— Obrigada por fazer isso, Lourdes!
E então eu entendi como o dinheiro move o mundo! Lourdes e Alexandre foram nossas testemunhas, de um casamento que não passou pelos trâmites legais, que Alexandre informou meus dados durante o percurso do complexo empresarial até lá, que deve ter durado uns dez minutos!
E em menos de cinco minutos estávamos casados, com uma certidão atestando isso, e já tinha até cópia autenticada!
Na saída, Vitor me apresentou Lourdes como a governanta do apartamento dele, e disse que ela se mudaria para nossa casa no dia seguinte, pois hoje depois do jantar seria nossa lua de mel e ela ia nos dar privacidade.
Depois que dispensou Lourdes, me deu um cartão Black e disse que meu primeiro pagamento já estava nele, com um adicional para eu comprar roupas e calçados para o evento de hoje a noite.
Disse que precisava trabalhar para deixar tudo alinhado, pediu meu endereço pra mandar me buscar no horário do evento e perguntou se eu ia ficar bem sozinha e ia saber me arrumar para o evento.
— Não se preocupe, sei me comportar.
Quando me deu um selinho pra se despedir, um motorista encostou com a Marisa atrás do carro dele. Enquanto nos casamos, ele mandou fazer uma chave reserva pra caminhonete do meu avô.
E enquanto eu dirigia para o shopping pra começar me preparar, pensava em como eu iria contar para meu avô, meu pai, meu amigo, meu mentor, que saí de casa noiva de um e voltei casada com outro?