Capítulo 4. Garota Materialista

1833 Words
Viver uma vida dupla era nunca se aprofundar realmente em qualquer relação. Juntar cacos de si mesma e por vezes não reconhecer a face diante do espelho. Viver pesando cada palavra dita, cada atitude tomada ou revertendo qualquer deslize cometido. Viver para Alex era exaustivo em sua essência, mas ela era uma lutadora. Muito cedo descobriu que todo mundo adora uma vítima... para pisar. Amigos, namorados, família. Ninguém a conhecia além do que ela permitia. Muitos eram alvos de seu apreço, mas a mulher sabia que se fosse permitido que mostrasse seu verdadeiro “eu”, não haveria tanta retribuição. Haveria julgamentos, recriminações, haveria sanções. Carregava segredos que não eram seus e embora talvez ela contasse com a compreensão de alguns de seus entes queridos, segredos compartilhados com pessoas de confiança tendem a ser compartilhados com outras pessoas também de confiança delas criando ciclos imprevisíveis. E seus segredos eram mortais. Como todos os segredos que envolvem grandes somas de dinheiro. Ela foi treinada (e muito bem treinada) para esconder esses segredos. Mentir convincentemente e seguir em frente quase sem se deixar afetar pelo peso de suas ações. No começo de sua vida adulta, Alexandra fez uma escolha que determinou como seria sua existência. Dinheiro, luxo e todos os mimos que essa escolha proporcionou foi algo com o que ela aprendeu a lidar com o passar dos anos. Benefícios duvidosos, mas ela só descobriu isso quando ela já estava enredada demais na trama para escapar. Para seu alívio, entretanto, a cada dia que passava seu tempo de vida dupla findava e ela não sabia ao certo como seria viver sem esse peso. Como viveria uma vida sem amarras? Saindo de seus devaneios, Alex olhou para a amiga e sentiu sobre si os olhos examinadores dela. Reprimiu um sorriso irônico antes que ele se desenhasse em seu rosto. A mulher ficaria chocada se soubesse de sua vida secreta. O conhecimento de que Alex vendia o corpo era uma das verdades que aquela relação de amizade não poderia suportar. Sandra era uma evangélica perdida entre a doutrina da igreja e o que o seu bom senso achava correto. Não iria colocar mais uma rachadura em suas convicções. Ela já se esforçava demais para lidar com uma amiga “do mundo”. Uma prostituta era mais do que poderia suportar. Conheciam-se desde a infância. Era o mais próximo que Alex possuía de uma melhor amiga. Era uma dessas pessoas que se esforçava para entender o outro, mas dentro dos limites de sua fé cristã, o que não era muito. Adultério, prostituição era algo inconcebível na vida de Sandra. Talvez por isso Alex a mantinha por perto: era a certeza de que seria próxima de alguém sem poder revelar seus pecados. Por quanto tempo a amizade delas poderia sobreviver perante tantas omissões, era uma incógnita. Até ali as omissões as sustentavam. — Vamos, me conte o que incomoda você. Antes de responder, Alex tomou um gole de seu vinho. A amiga estava brigada com o marido e apareceu para uma visita sem avisar. Em suas mãos, um copo de suco natural. Passaria a noite como era comum quando ela queria provar ao marido seu ponto de vista: ele não vivia sem ela. A submissão feminina pregada pelos pastores de sua igreja não era algo que ela conseguia se adequar, a despeito de suas boas intenções. Luiz, o marido de Sandra havia ligado mais cedo e verificado que a mulher estava bem, em questões de fé, ele era menos rígido que a esposa, talvez por ser completamente apaixonado por ela. Provavelmente naquele instante estava desesperado tentando lidar com os três filhos. — Isso é bom para ele saber como é a minha “tranquila vidinha caseira”. — a amiga explodiu quando Alex ousou expressar alguma empatia para com o pobre homem. Sandra, depois de horas se lamentando de sua rotina de dona de casa, se deu por satisfeita e no fundo, já estava com um pouco de saudades de sua agitada casa. Isso era expresso em sua recusa em permitir que o silêncio reinasse na casa habitualmente silenciosa de Alex. A tv estava ligada mesmo sem que nenhuma das duas se concentrasse na programação e no quarto que ela ocuparia naquela noite, o aparelho de som entoava um louvor. Sandra nem mesmo percebia o quanto essas atitudes revelavam dela mesma. — Vamos, me conte o que está incomodando você. — Insistiu, sabendo que a amiga não falaria a menos que fosse coagida, digo, incentivada a isso. — Conheci um cara. — Alex admitiu sem grandes pressões, para o choque de Sandra. No mesmo instante os olhos da mulher brilharam. — Como você não me conta uma novidade dessas? Que tipo de amiga é você? Alex sorriu, falar da vida amorosa das amigas era o passatempo favorito da mulher. Talvez porque desse modo revivesse o que abriu mão ao se casar aos vinte anos. Não que sua formação religiosa a permitisse explorar sua sexualidade se demorasse mais em mudar seu estado civil, mas se casar com o primeiro namorado era uma das suas supostas frustrações. — Não era nada sério, mas... — Não era nada sério! — repetiu Sandra inconformada. — Isso significa que agora é. — Isso significa que agora as coisas começam a ficar sérias, mas não tire o vestido de madrinha do guarda-roupa ainda. Estamos apenas nos conhecendo e talvez a gente vá morar juntos, esse é o máximo de compromisso que estou disposta a assumir. Precisava preparar o terreno caso o contrato fosse fechado e ela precisasse justificar um namorado saído do nada. Não que ela pretendesse apresentá-lo a alguém, apenas precisava se preparar para ter sua vida vasculhada e justificar sua ausência nos próximos meses. — Tão sério assim? — Não sei. É mais uma dessas relações confusas em que eu me envolvo. — Outro novinho? É por isso que você está escondendo ele? Por favor, que ele seja pelo menos maior de idade. — É claro que ele é maior de idade! —Depois do seu francês, nada mais me surpreende! — Pierre era maior de idade, apenas alguns anos mais novo que eu! Por que as pessoas ainda olhavam para ela como uma subversora apenas porque esteve envolvida com um homem mais novo? De inocente o sujeito não tinha nada, ao contrário, foi colocada na vida dele exatamente para colocar um freio em seu apetite s****l voraz. Mas essa parte da história não poderia ser revelada a sua querida amiga. — Desculpe o mau jeito, me ignore, é minha inveja falando. Eu nunca conseguiria namorar um gato daqueles, que ainda por cima era podre de rico. Um dia você vai ter que me contar o seu segredo pra só namorar milionários. — Eu não namoro só milionário! — Reclamou a outra, tentando desviar o foco da conversa, mas Sandra não se deixaria enganar. — Agora me conte do cara novo. Alex hesitou. Havia preparado a história para aquele momento, mas o encontro com o cliente abalou suas estruturas emocionais. Uma única vez queria de fato desabafar com alguém... mas isso seria uma imprudência. Certo? — Ele é mais velho que eu. Muito ocupado. Fomos apresentados por um amigo em comum. É algo recente, mas sei lá... ainda não sei no que isso vai dar, mas ele já insinuou que quer passar mais tempo comigo e isso significa que precisaremos nos adaptar para ficarmos juntos. Talvez eu passe a viver com ele. — Assim, do nada?! — Por que não? Já passei da fase de ficar me preocupando com essas coisas. Ele gosta de mim, eu gosto dele, não vou me privar de sua companhia. — Ele é rico, não é? — Isso é irrelevante. Fugir do assunto não surtiu efeito algum. — Podre de rico. — Determinou Sandra. —Alguém famoso? — Isso é ridículo! É só alguém que está me fazendo feliz no momento. — Então porque você está incomodada? Apesar desse seu discurso despretensioso, eu sei que algo nesse homem está incomodando você. — Um relacionamento novo é sempre desgastante. Eu odeio a incerteza dos ajustes que são necessários nesses casos. Lidar com outra pessoa, atender os seus desejos, isso é tão incômodo... — Nossa, falando assim, parece que você vai fazer um tratamento de canal e não iniciar um namoro. — Hoje em dia namoro não é algo tranquilo nem para os adolescentes que são guiados pelos hormônios, imagine para uma mulher que já passou dos trintas como eu? — Desde quando você se preocupa com sua idade? Não seja chata. Só curta o momento. — É difícil curtir quando ele fica uma semana sem te ligar. Sandra sorriu com a superioridade de quem tem o marido dedicado nas mãos. Ela não precisava passar por aquelas incertezas de saber se o parceiro estava ou não afim dela. — E porque você não liga para ele? — Perguntou num tom solidário. — Porque eu já coloquei as minhas cartas na mesa. Agora é a vez dele. Talvez o tenha assustado com minha objetividade. Outra vez a suposta superioridade da amiga se mostrou evidente, quando ela discursou. — Ai, mulher, você não aprende? No começo a gente finge delicadeza, que depende deles, que eles estão no comando, depois viramos o jogo. Se você já mostra o que pensa no primeiro encontro, eles fogem. Com essa atitude você nunca vai ficar com ninguém. Sandra era uma mulher com alguns pensamentos bem tradicionais, mas era uma boa pessoa. Alex tratou de recordar-se disso e engolir uma frase mordaz em resposta ao comentário. Se estivesse em um relacionamento, Alex diria a amiga naquele momento que não era obrigada a se dobrar para satisfazer o ego de um i****a qualquer... mas aquilo era um negócio e ela não soube conquistar o cliente. Simples assim. Talvez naquele caso, o conselho da amiga estivesse valendo. Afinal, silêncio de seu novo empregador a estava levando a loucura. “Sandra tem razão. Você o afugentou!” Repreendeu a si mesma pela milésima vez. Um homem que buscava uma submissa e estava pagando caro por ela, veria sua atitude atrevida como um sinal vermelho. “Mas ele se divertiu naquela noite. Ambos nos divertimos muito!” Recordou-se com um fio de esperança. Além disso, ele havia sinalizado o interesse em manter o acerto com os representantes do Clube. E enquanto aquele encontro não acontecesse, o contrato não estava de fato selado. Dez anos após ser recrutada pelo clube, Alex sempre se vangloriou de ter aprendido com a experiência. Era raro o tipo de conexão que houve entre ela e o novo cliente acontecer no primeiro encontro. Em seus dois contratos anteriores, a sintonia s****l foi conquistada com o tempo, dia após dia, alimentada pela atração inicial. Seu novo amante a havia levado ao céu desde o primeiro toque, desde a primeira palavra. Era um homem mais velho e consequentemente mais experiente. Esse talvez fosse o diferencial. E era esse diferencial que a deixava ansiosa pelo novo encontro.
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