Capítulo 1. Como uma virgem

2110 Words
Precisamente as dezenove horas e cinquenta e cinco minutos, Alexandra atravessou o saguão de um luxuoso hotel no centro da cidade. A caminho do elevador privativo que conduzia a exclusiva suíte da cobertura, preparava-se mentalmente para encarar aquele compromisso exatamente como ele era: um encontro de negócios. No máximo, a primeira partida de xadrez entre oponentes desconhecidos. Bem, a vida de algumas pessoas é uma sucessão de jogos de azar. O som de seus passos ecoava contra o piso de mármore provocado pelo impacto com seus saltos finíssimos, enquanto seu discreto e elegante vestido esvoaçava dando a sua figura uma leveza e serenidade que contradizia o momento tão crítico que vivenciava. O primeiro contato era sempre tenso e cheio de desconfianças. Emocionalmente, estava armada até os dentes, na superfície, para os que a olhavam encantados sua figura quase etérea, era a serenidade e elegância em pessoa. A capacidade de esconder as emoções sempre foi a mais reconhecida qualidade daquela mulher. O que a fazia a pessoa certa para o trabalho que realizava. Sabia que atraía olhares de hospedes e funcionários enquanto se encaminhava ao seu destino. Estava acostumada a atrair olhares de admiração, cobiça e inveja por onde passava, mais que isso, sabia exatamente o que fazer para transformar sua beleza mediana, algo fascinante. Como realçar seus pontos positivos e esconder os negativos. Tornar-se o centro das atenções, quando era do seu interesse. Alexsandra quase sorriu ao lembrar que sua melhor amiga pensava que quando dizia que não era tão bela como as pessoas pensavam, que era um ataque de falsa modéstia. Bobagem. Modéstia, falsa ou genuína era pura perda de tempo. , No elevador, conferiu a aparência irrepreensível enquanto agradecia a benção de estar sozinha. Só ali se permitiu um breve momento de fraqueza. Apoiando-se contra a parede, fechou os olhos, mentalizando a serenidade que fingia ter. O homem que encontraria possivelmente seria alguém atraente aos seus olhos, ou estaria designada para outra missão. Focando-se nessa prerrogativa, tentou desarmar-se de toda tensão em nome de um encontro agradável e impactante. Precisava impressionar e ser impressionada para que o contrato de trabalho beneficiasse ambas as partes. Era assim que as coisas funcionavam em seu mundo. Um mundo de aparências que ficava camuflado ao primeiro olhar. Ciente de suas obrigações naquela noite, Alex colocou um sorriso na face, afastando-se da vítima que começava em personificar. Estava ali por uma escolha consciente. Essa era a saída mais racional para seus problemas mais imediatos, se por fim desgostasse mesmo do sujeito, era só agradecer pela noite e ir embora. Em meio aos seus devaneios, um discreto sinal sonoro anunciou a chegada de seu andar. Recompondo-se efetivamente, seguiu com passos decididos pelo corredor. Parou diante da porta entreaberta, uma prova que sua chegada foi anunciada, e esperou. Faltava apenas dois minutos para o horário combinado, mas ela sabia que pontualidade iria impressionar. Exatamente às 20 horas, ela anunciou sua chegada. — Senhor...? — Entre e feche a porta. — A ordem direta e firme causou um leve estremecimento na mulher. A voz rouca e o tom baixo sugeria alguém acostumado a comandar. Bem, o dinheiro gasto naquela transação não poderia pertencer a um mero operário. A luz tênue do ressinto deu a Alexandra a inquietante sensação de expectativa. Talvez um pouquinho de medo também. O que aquele homem escondia? Por que optou pela penumbra? “Ele passou por uma seleção severa.” Lembrou-se, “Rute não permitiria o encontro se não tivesse checado minunciosamente os antecedentes e perfil psicológico”. Os testes aplicados para os que pleiteavam tornassem sócios do Clube buscavam traços específicos e poucos teriam a capacidade de burlá-los. E mesmo após os testes, cada candidato era investigado minunciosamente. — Vá até a cama, tire a roupa e deixe dobrada sobre ela. Depois ajoelhe-se, coloque as mãos para atrás e abaixe a cabeça. A voz grave veio do canto esquerdo do quarto. Nenhuma conversa constrangedora. Nenhuma tentativa desnecessária de sedução. Um início promissor. Não gostava dos encontros onde o sujeito tentava impressionar, isso às vezes propiciava uma leitura precipitada. Os olhos da mulher deslizaram rapidamente na direção da voz, tentando visualizar ali o seu futuro amante. Acomodado numa poltrona robusta e de designer peculiar (o recosto curvava-se como num abraço sobre ocupante, o que cobria seu rosto de sombras), apenas longas pernas estavam visíveis em um fio de luz vindo da janela que iluminava precariamente o quarto e denunciavam seu porte atlético. Calças sociais que se moldavam a coxas grossas. Sapatos de couro italiano feito sob medida (por um artesão com clientela seleta), muito bem lustrado. Rico. Definitivamente. Quer dizer, para ele estar ali, precisa ter dinheiro, mas seu bom gosto pessoal era a prova que ele possuía dinheiro e classe, ou uma excelente personal stylist. Apesar de que, pela sua postura até agora, Alex apostava que ele não delegava o cuidado com sua imagem para terceiros. Um tubarão comercial? Isso seria interessante. Alex tinha um fraco por homens poderosos. Bonito? Não importava. Se se encaixasse em seus critérios, rolasse alguma química entre eles e conseguisse sustentar os arranjos propostos no contrato, tudo mais era irrelevante. — Não sou a pessoa mais paciente do mundo, Alex. Se não pode atender as minhas necessidades, por favor, saia. Não havia impaciência, vaidade ou persuasão em sua voz. Apresentava fatos simplesmente. Um homem cru e sem meias palavras. Suas dúvidas sobre a situação foram ignoradas enquanto ela obedecia às ordens do seu novo senhor. Sem a menor pretensão de mostrar-se sensual, a mulher fechou a porta atrás de si e deu os passos que a levava até a cama. Usava um vestido modesto, conforme especificações prévias. Cabelos presos num coque. Pouca maquiagem. Brincos e colar de pérolas. Nos dias anteriores aquele encontro, quase riu ler a descrição de como deveria se apresentar. Desconfiava que fosse um homem mais velho, tradicional. Talvez alguém na casa dos sessenta? Não era a primeira vez que lidava com gostos inusitados, porém, exigir tanto recato não deixava de ser irônico se levasse em conta o arranjo entre eles. Bem, quem pode entender fetiches? Seguindo as ordens, Alex levou a mão aos grampos que prendiam o coque. — Não! Deixe o cabelo exatamente como está. Eu disse tire a roupa. Só a roupa. A mulher estremeceu. Não por medo. Era o tom usado para ordenar. Duro. Cru. Másculo. Ela gostava disso. Muito. Sem pressa tirou o vestido, dobrou com cuidado e colocou sobre a cama. Usava um lingerie de renda azul, num tom parecido com o do vestido. Então, ajoelhou-se como solicitado. — Eu disse toda a roupa. Dessa vez havia aspereza e impaciência em sua voz. Ela prensou os lábios, temendo deixar escapar um sorriso. Não seria interessante se ele percebesse que estava provocando-o propositalmente para deixa-lo no limite. Precisava ter uma mostra do que seria capaz se contrariado. Era sua primeira e única oportunidade de saber exatamente o que a esperava antes de tomar uma decisão. Depois seria dele por três meses, sem reclamar. E três meses que poderiam durar uma eternidade. Rapidamente, levantou retirou a calcinha, dobrando com cuidado. O sutiã foi retirado com menos pressa, gostava da voz áspera e queria ser repreendida. Para sua tristeza, entretanto, dessa vez não houve reação. O homem esperou pacientemente que cumprisse sua ordem. Só quando terminou, ela ajoelhou-se outra vez, colocou os braços para trás e abaixou a cabeça à espera de novas ordens. Por algum tempo, nada aconteceu. Alex se concentrou no desenho do tapete enquanto aguardava o homem ir ao seu encontro. Atenta a qualquer movimento, esperava uma reação que ajudaria na leitura do sujeito que seria ou não seu próximo parceiro s****l. Em momentos como aquele, tratava de esvaziar a cabeça. Criar expectativas não fazia parte de sua realidade. Uma vez que optou por estar ali, aquele seria o seu lugar até que a noite acabasse. Tudo aconteceria ou não em seu tempo. Às vezes a espera era gratificante. Às vezes uma inegável perda de tempo. Paciência, ela aprendeu duramente que era algo necessário. Vivenciar lentamente a experiência do primeiro encontro era um jeito de evitar complicações futuras. Assim, mesmo sentindo-se um pouco incomodada pela demora de reação do homem, não falou qualquer coisa. Lentamente seu corpo pendeu para trás, os joelhos reclamavam do peso que sustentavam. O pescoço e as costas começavam a doer. O tempo passava e o homem nada fazia, era como estar sozinha num quarto escuro. Sendo punida. Ele teria percebido sua insolência disfarçada? Seus pensamentos vagaram e ela se viu presa em recordações que havia selado fundo em sua mente há muitos anos. A ausência de sons exteriores lembrava demais o seu antigo quarto de castigo na casa da mãe. Involuntariamente sorriu, com certa amargura, ao lembrar-se de que nem mesmo horas com os joelhos sobre o milho conseguiu transformá-la numa boa menina. — Compartilhe. A voz grave encheu o quarto e chegou até Alex. De súbito ela olhou por sobre a cama, encontrando uma forma masculina mais clara do outro lado. Um homem alto e forte. Ela gostava cada vez mais daquele jogo. — Você não tem permissão de olhar para mim, abaixe a cabeça. — Ele reclamou. A mulher reagiu, afastando os olhos num ato reflexo da figura máscula. — Agora, apenas compartilhe. Essa ordem foi ignorada no primeiro momento, talvez por não ser compreendida. Há quanto tempo estava ali naquela posição incômoda? Talvez meia hora. De guarda baixa, não apenas havia trazido questões pessoais para aquele quarto, mas quebrado uma regra básica. — Desculpe, mas eu não entendi o que espera de mim. O que devo compartilhar? — O motivo do seu sorriso. Eu quero conhecer. — Ah... — Não sou um homem paciente, Alex. E lembre-se que dentro deste quarto não pode haver mentiras. Se não quer me falar a verdade, se vista, saia e o acordo estará desfeito. Engolindo em seco, percebeu que seria obrigada a revelar um pouquinho de si. Isso não estava em seus planos, mas como havia errado, precisava pagar o preço do deslize. — Eu me lembrei de quando era pequena e tinha um quarto de castigo especialmente para mim. — Compartilhe a piada inteira, Alex. Não foi isso que provocou o seu sorriso. Ela hesitou. O homem veria como um desafio. Quanto tempo poderia viver sem o auxílio de um novo parceiro? Aguentaria até ser submetida a uma nova seleção? Não era como se tivesse muita escolha. Ao menos teria que passar pelo primeiro encontro. — Eu estava me lembrando de que nem mesmo horas com os joelhos sobre milhos conseguiram me transformar numa boa moça. Uma risada sensual encheu o quarto surpreendendo a mulher. De algum modo a admissão de sua natureza atrevida o agradou. Dessa vez o homem levantou-se e finalmente veio ao encontro de sua parceira. De canto de olho, Alex tentou observá-lo, sem sucesso. Além da penumbra do quarto, ele era alto demais para que ela enxergasse seu rosto na posição em que se encontrava. Pés grandes, passos decididos. O cheiro dele invadiu seus sentidos com a proximidade, era uma mistura de cítricos e algo que ela não soube definir. Não identificou o perfume, possivelmente algo feito sob encomenda, já que Alex conhecia bem perfumes exclusivos. A moça percebeu a força de sua presença, a autoconfiança que ele emanava e isso aumentou a sensação de que era um homem acostumado a mandar. E ser obedecido. — Insubordinada no primeiro encontro. — Seu tom era repreensivo, mas sem agressividade — Primeiro erro. Eu não gosto de ser desafiado, pois cada vez que isso acontece me sinto compelido a responder a altura e talvez isso não seja tão prazeroso quanto você espera. — E após uma pequena pausa, ele sussurrou junto ao ouvido da mulher, que estremeceu — Não brinque comigo. Nem contrariedade, nem zombaria em sua voz. Outra vez ele instruía sobre o que desejava. Precisamente. Emoções guardadas. Algo novo para ela. Pela primeira vez, Alex conheceu um homem que não poderia ler. Ele estava irritado e queria manda-la embora ou o aviso era uma espécie de preliminar para apimentar o primeiro encontro? Seja como for, ainda não estava decidido. Se valesse a pena, ela poderia reverter qualquer situação. Só precisava olhar em seus olhos e ler suas expressões, então saberia que tipo de pessoa ele era. Um pouco mais de paciência era tudo o que precisava. — Está me avaliando descaradamente desde o momento em que chegou. Você acredita que de algum modo conseguirá me dobrar. Interessante. Não era preciso me manipular para obter respostas. Hoje eu as daria de bom grado. Por causa disso, mais cedo do que deveria, vai receber o castigo que tanto buscou.
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