Capitulo 7. Um favor especial

1316 Words
Depois que Marcelo se foi, Caíque informou pelo interfone ao chefe. — Andreas, o prefeito insiste em falar com você. Andreas fez uma careta de desagrado. Sabia que em breve precisaria se posicionar sobre as eleições que se aproximavam. O prefeito estava inquieto, preocupado com uma possível retirada de apoio. Ele tinha razão para isso. A proposta do governador era muito mais interessante e vinha com o bônus adicional do apoio do governo federal, mas ele era o tipo que não gostava de se envolver diretamente com políticos. Apesar de ser constantemente assediado por eles. — Eu não estou. — Ele insiste que tem urgência em localizá-lo. O homem revirou os olhos, contrariado. — Sei disso, mas eu não estou disponível hoje. Nem pra ele, nem para ninguém. — decidido, fechou a pasta que esteve tentando analisar e colocou dentro de sua maleta. — Venha até minha sala. Quando o homem apareceu, Andreas arrancava a gravata. — Vou tirar o resto do dia de folga. — Como?! — A surpresa do secretário com a atitude do patrão era notória. Em dez anos trabalhando para ele, pouquíssimas vezes o viu fugir do trabalho e isso só acontecia quando a esposa dele era viva, o visitava e o arrastava para fora do escritório sob algum tipo de ameaça. — Está com problema de audição, Caíque? O assistente recuperou a compostura rapidamente e perguntou, num tom profissional. — Precisa do motorista? — Não, vou dirigir. — O que devo fazer com os compromissos de hoje? — Remarque o que for importante. O que não for, apenas cancele. — Sua sogra virá... — Não estarei disponível. — Ela vai espernear bastante. — Mas vai superar. Como já disse, não estarei disponível, a menos que aconteça algum desastre econômico nos envolvendo, mas nesse caso, mande mensagem para eu avaliar os riscos. — Entendo. Sua sogra vai me demitir se não conseguir localizá-lo. — Só quem pode demiti-lo sou eu. Se ela fizer isso, arrume as suas coisas e saia. Tire o dia de folga também. Será interessante e educativo para ela uma tarde controlando o escritório sozinha. — Como queira. Com uma sutil reverência educada, Caíque voltou a sua sala, é claro que estava surpreso com a mudança dos planos do patrão, mas após o choque inicial, soube esconder seus pensamentos. “Você se tornou um velho chato e previsível.” Repreendeu-se enquanto tomava o elevador. O ar frio da rua o atingiu assim que saiu do edifício, uma garoa fininha deixava o dia úmido e escuro. No primeiro instante, Andreas se sentiu deslocado. Há anos ele não quebrava sua rotina. Os seguranças se movimentavam nervosos a sua volta, mas ninguém ousava dizer nada. Queriam obviamente repreendê-lo por não pegar o carro na garagem, mas sua fama de pavio curto era grande e temiam por seus empregos. O carro parou ao seu lado e o motorista entregou a chave com visível relutância, como se temesse por sua habilidade no volante e pela integridade do veículo. Não era que ele não soubesse dirigir, ele era tão bom motorista, mas dirigia muito raramente, tinha coisas mais importantes a fazer no dia-a-dia, como se concentrar no trabalho. — Vou sozinho, quero uma escolta discreta. — Informou ao chefe de sua segurança que se aproximou silenciosamente, não esperou uma resposta do homem. Diante do volante percebeu que ainda não sabia o que iria fazer. Nunca sabia o que fazer quando estava longe do trabalho. “Você precisa de um hobby ou de uma mulher.” Marcelo sempre comentava. Andreas teve vários hobbys ao longo da vida, mas ultimamente havia perdido contato com todos, e mulheres... elas iam e viam, ele não era exatamente adepto do celibato. Ligando o carro, simplesmente o colocou em movimento. Dirigiu sem destino, fugindo do tráfego intenso. Vez ou outra, percebeu-se andando em círculos. Possivelmente estava enlouquecendo os seguranças que o seguiam. Quase pegou o celular para dispensá-los, mas então compreendeu que tal atitude seria tolice. Fugir e deixar suas responsabilidades eram uma grande tolice, descuidar da segurança, uma maior ainda. “A gente precisa cometer uma tolice de vez em quando, ou enlouquece.” Lembrou-se que Sofia falou certa vez. Estaria a ponto de enlouquecer? Por isso o ato de rebeldia? Mergulhar no passado e pensar em coisas que não costumava pensar eram sintomas clássicos de estresse. “Que perfeito!” Depois de algum tempo dirigindo sem destino, pegou a autoestrada. Os prédios e casas foram desaparecendo, sendo substituídos pelo verde pálido da vegetação que margeavam a saída da cidade. O tráfego intenso foi deixado para trás quando entrou numa estrada secundária. Seguiu adiante, até que soube para aonde se locomovia e ficou surpreso não só pela escolha inconsciente, como por ainda conhecer o caminho. Havia uma cerca de arame farpado fechando a propriedade e uma placa imensa informando que era particular. Mais uma vez um sorriso irônico surgiu no rosto do empresário. Ainda não acreditava que foi até ali pensando que nada havia mudado em dez anos. Não tardou para que sua escolta parasse ao lado de seu carro. — Eu quero entrar. — Informou olhando em direção a cerca. Os quatro homens se entreolharam, incertos quanto àquela ordem, mas por fim dando os ombros, um deles conseguiu um alicate na mala do veículo que conduziam, logo cortavam o arame e afastavam a cerca para que Andreas passasse com seu carro. Depois de dirigir por uma pequena estrada de barro, chegou ao seu destino e ficou um tanto decepcionado. A lagoa que antes era majestosa, agora era uma poça lamacenta. As pedras e vegetação que rodeavam o local, já não estavam ali. Uma escavadeira abandonada era como uma arma deixada no local do crime. Dez anos é muito tempo para algo ficar imutável. Mesmo ele já não era o mesmo. Não havia mais nada ali para Andreas. Um ciclo de sua vida havia se fechado e outro se iniciava. Um que a cada instante ganhava mais importância do que ele planejou dar a princípio. Finalmente percebeu que esteve preso ao passado. Sempre acreditou que não tinha vida pessoal porque o trabalho o absorvia. Um erro básico. O trabalho o absorvia porque não tinha vida pessoal. Simples assim. Ele escolheu não ter uma vida pessoal desde que perdeu a esposa. O caminho de volta foi feito sem hesitação, rumou direto para casa. Lá, apenas se permitiu não fazer nada. Era algo inquietante e libertador ao mesmo. Libertador porque o mundo não havia parado apenas porque ele deixou o trabalho. Inquietante, porque não fazer nada lhe permitiu pensar sobre coisas que antes eram dolorosas e isso não trouxe sofrimento algum. Será que finalmente havia vencido o luto e seguido em frente? De qualquer modo, deu vazão aos sentimentos que tentou esconder de si mesmo. Estava ansioso, confuso e um tanto quanto curioso. Tudo isso por causa de uma mulher. Uma noite e ela tinha sua completa atenção. Isso era tão raro que mesmo ele estava chocado. Era preocupante envolver-se naquele negócio quando simplesmente não conseguia tirá-la da cabeça. Quando não conseguia ser objetivo. Talvez envolver-se com aquela mulher fosse até perigoso... “Um pouco de perigo não faz m*l. Você precisa disso”. Uma voz interior o encorajou. Seria definitivamente emocionante, pelo menos a princípio. Era provável que quando a conhecesse mais a fundo, o encanto passasse. Talvez ela se tornasse uma distração incômoda, que tiraria o seu foco. Talvez ela o entediasse após as primeiras semanas. Então seria dispensada antes do tempo e ele teria feito um mau negócio. Havia também a possibilidade dela ser apenas a amante ocasional que ele buscava. Valeria o risco? Tolice perguntar-se tal coisa. Fugindo, o desejo frustrado se tornaria um problema. Iria resolver a questão com bom senso e não se esconder como um covarde. Finalmente, pegou o telefone e discou. — Vou precisar de você esta noite, Caíque. Será um favor especial.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD