A gente não esquece um amor do dia para a noite porque nada é tão simples assim, e por mais doloroso que tenha sido o passado, quando amamos de verdade alguém, nada é tão simples de se deixar para lá.
A tarde chegou, e Victoria se perguntava se deveria ir ou não ao tal hotel onde ela ia há um tempo atrás. Na sua cabeça, havia muitas confusões, mas também mil perguntas — e, no fundo, tudo que ela mais queria era tirar toda a história que lhe foi dita lá atrás a limpo.
— Mãe, tô saindo.
Victoria disse assim que terminou de colocar seu casaco.
— Vai pra onde, garota? Espero que esteja indo se resolver com o Jasper.
A mulher de cabelos loiros falou, aparecendo na sala e vendo a filha ali.
— Como sabe que não estamos bem?
Victoria perguntou, curiosa e confusa.
— Ele ligou pra cá ontem à noite. Estava chorando. Ele perguntou se você tinha chegado, e eu disse que não. Depois disso, ele desligou a chamada.
Agora Victoria entendeu o porquê do surto do namorado mais cedo.
— Hum, eu preciso ir.
A ruiva disse, indo em direção à porta.
— E aonde você vai?
Maya perguntou à filha.
— Por que fica monitorando ela como se a nossa filha vivesse fazendo coisas erradas? Deixa a garota em paz.
Lucky disse, aparecendo na sala e olhando para a esposa.
— Vai lá, filha. Vai se divertir, não liga para a chata da sua mãe.
Ele disse, sorrindo, e Victoria apenas saiu dali.
— Você não deveria fazer isso, eu sei o que é bom para ela.
Maya disse, cruzando os braços.
— De uns dias pra cá você tá chata demais com a nossa filha, e você não é assim.
Lucky disse, simples.
— Eu tenho meus motivos.
Ela disse baixinho, saindo dali.
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Respirando fundo e pensando duas vezes antes de bater na porta daquele quarto, Victoria tentava se manter calma, porque daquela porta pra dentro poderia acontecer uma discussão, ou simplesmente eles iam sentar e conversar. Então ela deu três batidas na porta e logo ela foi aberta, revelando o platinado ali.
— Você veio.
Caleb disse, olhando para a ruiva, que deu um sorriso pequeno.
— Entra.
Caleb disse, dando espaço para Victoria passar, e assim ela fez.
— Quer um suco? Café? Não sei.
Caleb perguntou, um pouco sem jeito. Já fazia um bom tempo que não falava com Victoria, e eram tantas coisas que eles precisavam conversar, que ele nem sabia por onde começar.
— Não quero nada, obrigada.
Victoria disse, simples, e Caleb nada disse. Os dois se sentaram, e um longo silêncio tomou conta do lugar.
— Eu...
Victoria ia começar a falar, mas Caleb lhe jogou a bomba de uma só vez.
— Foram os nossos pais.
O platinado disse, fazendo a outra arregalar os olhos.
— O quê?
A ruiva perguntou, confusa.
— Foi o meu pai e a sua mãe que separaram a gente.
Ele disse, sem encarar Victoria.
— Caleb, não fale besteiras.
Era loucura. Isso não podia ser real. Como assim sua mãe tinha algo a ver com a separação dos dois?
Victoria e Caleb namoraram há um tempo atrás, e eram apaixonados um pelo outro. Porém, algumas coisas aconteceram, fazendo Caleb ir embora da cidade sem mais nem menos, deixando Victoria completamente desolada. Agora, depois de um tempo, ele retornou, deixando a cabeça dela confusa.
— Não estou falando besteiras, Victoria, essa é a verdade. Meu pai e sua mãe nunca aceitaram o nosso namoro. Eles fizeram de tudo para nos separar — e conseguiram.
Caleb disse, enquanto Victoria ficou em silêncio.
— Deixa eu explicar do início. Quando meu pai descobriu sobre nós dois, ele já não gostou. Pediu diversas vezes para que eu terminasse com você, porque na cabeça dele a gente não era um bom casal.
Caleb disse, e a outra prestava atenção no platinado.
— Mas eu, por amor a você, não fiz isso. Permaneci com você sem medo do que poderia vir como consequência da minha desobediência. Era mais um daqueles dias em que meu pai me enfiava nas salas dele para saber como as coisas no governo funcionavam. E, em meio a isso, eu vi sua mãe chegando para falar com meu pai. Fingi ir ao banheiro e fiquei ouvindo a conversa dos dois.
Caleb disse com calma.
— Foi uma troca de favores.
O platinado disse, deixando Victoria confusa.
— Como assim?
Ela perguntou.
— Meu pai disse à sua mãe que ajudaria a separar a gente se ela desse uma licença para ele construir um prédio de luxo próximo ao centro da cidade. Sua mãe era candidata a deputada federal. Ela podia muito bem fazer isso — e fez.
Caleb disse, e Victoria tinha os olhos arregalados, incrédula com a situação. Não achava que sua mãe seria capaz de tanto. Tudo pelo poder.
— Ela deu a licença de construção para o meu pai, que ficou feliz da vida, e no fim veio me ameaçar. Disse que, se eu não deixasse você, ele iria fazer da sua vida um inferno, não permitindo você realizar seu sonho de ser uma grande dançarina. Eu fiquei com medo, Victoria. Porque meu pai é capaz de tudo por fama, poder e dinheiro — e eu sabia que ele poderia sim perturbar você, com a ajuda da sua mãe ainda por cima.
Caleb disse, ao lembrar de tudo que aconteceu.
— Mas tem uma coisinha pior nisso tudo.
Ele disse, dessa vez olhando para a outra.
— Do que está falando?
Victoria perguntou, preocupada.
— Os dois queriam ganhar a eleição. E sua mãe queria ser muito mais do que apenas deputada federal. Ela queria ser senadora. E quem é a única pessoa capaz de ajudar ela a ter esse cargo?
Ele perguntou, fazendo Victoria pensar.
— O pai do Jasper.
A ruiva respondeu.
— Exatamente. Os dois foram atrás do pai do Jasper e pediram "ajuda", não só com a política como com a nossa separação. Eu já tinha ido pra Coreia naquele tempo. Quando cheguei por lá, comecei a procurar provas para incriminar meu pai dos desvios de dinheiro que ele andava cometendo. Por isso passei tanto tempo longe e dei a desculpa da faculdade. Nesse intervalo de tempo foi quando o Jasper se aproximou de você. Meu pai ganhou as construções, e sua mãe virou senadora, ficando no mesmo patamar do pai do Jasper.
Caleb disse, e Victoria começou a pensar.
— Então... ele ajudou os nossos pais... e fez o Jasper se aproximar de mim pra me fazer esquecer você.
Victoria disse, incrédula.
— Foi tudo um plano. E-eu não sei o que falar ou fazer. Eu não tô bem. Como minha mãe foi capaz de tanto? Como o Jasper foi capaz de tanto?
Victoria dizia com lágrimas nos olhos.
— Victoria, olha pra mim.
Caleb disse, e assim ela fez.
— Talvez o Jasper não tenha ideia de tudo isso. O pai dele pensou em tudo. Então é muito fácil ele ter manipulado a cabeça do filho. O Jasper talvez tenha feito tudo na mais pura inocência.
Caleb disse, fazendo a outra se acalmar.
— Eu não fui embora porque quis. Eu fui praticamente obrigado. Eu fiz tudo pelo seu bem, Victoria. Por esse motivo eu queria tanto falar com você. Não foi na intenção de te ter de volta, porque eu sei que você seguiu a sua vida, mas foi pra finalmente conseguir respirar de verdade. Foi pra eu ter minha paz e seguir em frente sabendo que a verdade chegou até você. Nossos pais são os vilões dessa história.
Caleb disse, olhando nos fundos dos olhos da ruiva. Porque no fim, era disso que ele precisava — contar a verdade, falar o que realmente aconteceu. Ele sabia que, durante todo esse tempo, Victoria achava que ele era o vilão. Mas, na verdade, não era bem isso. Ele ainda ama Victoria — é claro que ama —, mas não pode simplesmente pedir para voltar depois de tanto tempo, e por saber que hoje Victoria seguiu sua vida e até pode estar amando outro alguém.
— E-eu preciso ir pra casa, eu preciso raciocinar tudo isso. A gente pode se ver depois?
Victoria perguntou, olhando para o platinado.
— Claro. Aqui, esse é meu endereço. Acho que não vai ser legal a gente se ver aqui de novo.
Ele disse, referindo-se ao quarto de hotel onde sempre se encontravam para ficarem juntinhos.
— Tudo bem. Até depois.
Victoria disse, levantando e saindo dali.
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A realidade cai sobre a nossa cabeça sempre. Mas quando essa realidade é pesada demais, faz a gente ficar completamente desnorteada. E era assim que Victoria estava — perdida em pensamentos, se perguntando diversas vezes se Jasper a ama de verdade ou se foi tudo uma mentira.
Se perguntando o porquê de sua mãe colocar sempre a maldita carreira à frente de qualquer coisa, ao invés de pensar na sua felicidade. Ela se tornou a pior pessoa do mundo. Tudo por conta do maldito poder. Maldita seja a política por mexer tanto com a cabeça das pessoas.
— Você chegou...
Maya disse assim que viu a ruiva adentrar a casa. Lucky achou estranho a filha estar com o rosto vermelho e ficou a encarando por longos segundos.
— O que foi? Essa preocupação toda é medo que eu encontre o Caleb?
Victoria perguntou, com raiva.
— Do que está falando?
Maya perguntou, nervosa.
— Por quê, mãe?
Ela respondeu a pergunta com outra pergunta.
— Garota, o que p***a você bebeu? Está estranha.
A mais velha disse, tentando fugir da situação.
— Me diga... por que fez tudo isso pra me separar do Caleb? Por que armou todo esse circo pra separar a gente?
Victoria perguntou em gritos, e Lucky ficou sem entender. Maya, por outro lado, estava de olhos arregalados, porque ela sabia... Sabia que uma hora ou outra a verdade chegaria até sua filha.